- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Publicidade: Combate os sintomas da gripe
Saúde

Jornada de Psiquiatria: “Vivemos na sociedade do cansaço mental”, diz especialista

A psiquiatra Letícia Mameri falou sobre prevenção contra o estresse crônico durante a Jornada de Psiquiatria em Vitória

Jornada de Psiquiatria: “Vivemos na sociedade do cansaço mental”, diz especialista
- Pressão constante por produtividade tem contribuído para um cenário cada vez mais marcado pelo esgotamento emocional
Foto de perfil de Will Anholetti

Will Anholetti

Will Anholetti é jornalista formado pelo Centro Universitário Faesa e pós-graduado em Língua Portuguesa e docência no Ensino Superior. Repórter multimídia, escreve para A Tribuna e Tribuna Online.

Última atualização


A velocidade das relações, a pressão constante por produtividade, a hiperconectividade e a dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho têm contribuído para um cenário cada vez mais marcado pelo esgotamento emocional.

Em meio a uma rotina acelerada e cobranças permanentes, surge o alerta para o avanço do burnout, da ansiedade e de outros transtornos ligados ao chamado “cansaço mental”. Para a psiquiatra Letícia Mameri, o problema vai além do excesso de trabalho.

Segundo ela, existe hoje uma sociedade marcada pela exaustão emocional e pela busca constante por reconhecimento. “Vivemos em uma sociedade do cansaço mental. Tudo é muito rápido, muito instantâneo, e as pessoas estão ficando cada vez mais sobrecarregadas”.

A médica explicou que o burnout é uma síndrome ligada ao estresse crônico e não apenas um cansaço passageiro. Entre os principais sinais estão o esgotamento físico e mental, a baixa realização profissional e a perda de empatia.

Entre as formas de prevenção, Letícia destacou a importância da atividade física, do sono adequado, da alimentação equilibrada, do fortalecimento da rede de apoio e da psicoterapia voltada para o autoconhecimento. “Não adianta apenas afastar a pessoa do trabalho e medicar. Ela precisa entender o que a levou a esse processo para evitar adoecer novamente”.

O tema foi debatido durante sua palestra ontem dentro da 17ª Jornada de Psiquiatria da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes), em Vitória. O evento começou na quinta e segue até hoje, reunindo profissionais e estudantes para discutir atualização científica, novas abordagens terapêuticas e temas contemporâneos da psiquiatria.

Organizadora da jornada, a psiquiatra Sarha Andrade Lobo de Queiroz explicou que o encontro busca integrar diferentes áreas ligadas à saúde mental. “A gente sempre traz temas atuais, inovadores, com evidência científica e visando melhorar a prática clínica para ajudar esses indivíduos”. Sarha ministra palestra hoje sobre o eixo intestino-cérebro. “Não pode ser só olhar o cérebro. Tem que olhar o corpo como um todo”.

O evento também reuniu profissionais de áreas como a psicanálise. O psicanalista Giovani Malini destacou a importância da integração entre as especialidades: “A psicanálise e a psiquiatria precisam de mais articulações. Não olhar o ser humano apenas pelo viés biológico e achar que uma medicação pode resolver tudo”.

Psiquiatria e espiritualidade

Outro palestrante do evento foi o psiquiatra e psicoterapeuta Valber Dias Pinto, que abordou a relação entre psiquiatria e espiritualidade.

“A ideia é estimular o psiquiatra a mudar um pouco a postura dele e perguntar para o paciente se a espiritualidade é importante ou não para ele”.

Para Valber, estudos mostram que pacientes com vivência espiritual tendem a apresentar melhora na saúde mental, e ignorar esse aspecto pode significar perder as possibilidades terapêuticas importantes.

Saiba mais

Prevenção envolve a qualidade de vida

O que é burnout?

É uma síndrome relacionada ao estresse crônico, principalmente ligado ao ambiente de trabalho.

Diferente de um cansaço passageiro, o quadro possui critérios específicos e costuma surgir após um longo período de desgaste físico e emocional.

Quais são os principais sinais?

É caracterizado por três pilares principais: esgotamento físico e mental, sensação de baixa realização profissional e perda de empatia.

Entre os sinais mais comuns estão o cansaço constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, sensação de incapacidade e mudanças no comportamento no ambiente de trabalho.

Também é comum que a pessoa passe a agir de forma mais fria, cínica ou indiferente diante de situações que antes despertavam envolvimento emocional.

Existe um grupo mais vulnerável ao burnout?

Embora qualquer pessoa possa desenvolver a síndrome, algumas gerações podem sentir mais pressão emocional.

Pessoas que cresceram em uma cultura de estabilidade profissional e alta cobrança por desempenho tendem a enfrentar mais dificuldade para lidar com as mudanças rápidas do mercado de trabalho.

Um perfil de personalidade mais suscetível ao burnout é o de pessoas que se cobram excessivamente, buscam reconhecimento constante, têm dificuldade de impor limites e costumam assumir mais responsabilidades do que conseguem suportar.

Como prevenir o burnout?

A prevenção envolve hábitos ligados à qualidade de vida e ao equilíbrio emocional.

Atividade física regular, alimentação adequada, sono adequado, fortalecimento da rede de apoio e momentos de lazer ajudam a reduzir o risco de adoecimento.

A psicoterapia também é importante para o autoconhecimento e para ajudar a identificar padrões de comportamento que favorecem o esgotamento.

O tratamento envolve apenas medicação?

Não. Quando o burnout já está instalado, o tratamento pode envolver medicação associada a mudanças no estilo de vida e acompanhamento psicológico.

Além disso, é necessário compreender quais comportamentos contribuíram para o adoecimento.

É possível voltar ao mesmo ambiente?

Sim. Em alguns casos, as pessoas conseguem retornar ao mesmo local de trabalho sem desenvolver novamente a síndrome. Para isso, é fundamental que exista tratamento adequado, autoconhecimento e identificação precoce dos sinais de esgotamento.

O acompanhamento psicológico é apontado como essencial nesse processo de reconstrução emocional e mudança de hábitos.

Mais Lidas

Ver tudo ›