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Caros leitores, como falar do Centro sem considerar as camadas ou “retalhos” da sua formação histórica? Como não considerar a sua localização geográfica se é ela o fator determinante na sua configuração como célula urbana primordial da cidade de Vitória?
A gênese da capital se deu no topo e nas bordas de um pequeno platô que chamamos de “Cidade Alta”. Ali surgiram as primeiras vias, casas, praças, igrejas e lugares de encontro e permanência da Vitória colonial!
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Nos primeiros séculos, o entorno da antiga Igreja de São Thiago e do Colégio dos Jesuítas, hoje Palácio Anchieta, assim como o entorno da Praça da Antiga Matriz, uma exuberante construção colonial de 1550, demolida em 1918 para a construção da atual Catedral de Vitória, eram os principais lugares dos encontros e passeios da Vitória Colonial.
O testemunho mais relevante da gênese de Vitória, ainda de pé, é a capela de Santa Luzia! Uma construção que data de, aproximadamente, 1535. Portanto, seria a Cidade Alta o nosso primeiro recorte desta “colcha de retalhos”.
A Vila de Vitória pouco se alterou até o ano de 1900. Nos seus quase 400 primeiros anos de ocupação, ela sobrevivia como uma província colonial baseada na agricultura, pecuária, pesca e pequenas atividades portuárias.
Era protegida e, ao mesmo tempo, tinha o seu crescimento limitado pelo maciço central, os manguezais e a baía.
Ou seja, a sua localização geográfica a protegeu das invasões dos holandeses, franceses e ingleses durante o período colonial, mas também a impediu de crescer como cidade, dada a pouquíssima disponibilidade de terras com relevo adequado à ocupação urbana.
Com a chegada do século XX, do apogeu da Era do Café e, consequentemente, o aumento das atividades portuárias, Vitória precisava expandir e melhorar as suas condições urbanas e sanitárias. Foi assim que, a partir de 1900, foram acrescentados muitos “retalhos” a esta “colcha” que é a nossa capital!
Entre 1900 e 1950, vieram os aterros da Praça Costa Pereira, depois o do Parque Moscoso, depois os aterros que deram origem às avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel e, entre 1950 e 1970, a avenida Beira-Mar ganhava os contornos que conhecemos hoje!
Apesar de todas as demolições, descaracterizações e crimes contra o patrimônio histórico e arquitetônico, ocorridas em função do descaso e da falta de educação patrimonial da sociedade capixaba e do poder público, o centro de Vitória, como pouquíssimos lugares do Brasil, ainda guarda construções que testemunham desde o período Colonial, passando pelo Neocolonial, Barroco, Neoclássico, Art Nouveau, Art Déco e, por último, o Moderno.
Fica claro, portanto, que preservar a história, restaurar o Centro, investir no seu potencial turístico e colocá-lo como patrimônio histórico e arquitetônico da capital não é uma vontade simplória, mas uma urgência!
Respeitar os quase 500 anos de formação do centro de Vitória e os seus “retalhos” temporais é uma obrigação de todo capixaba que respeita e ama a sua terra!
Em minha próxima coluna, dando continuidade aos recortes temporais aqui sinalizados, analisarei a avenida Jerônimo Monteiro, que já foi a vitrine do Estado e da capital, como principal sintoma do abandono do Centro atualmente.
Fabrício Costa é artista e empreendedor no Centro de Vitória.
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