
Pesquisas dizem que o cérebro ode fazer cinco coisas ao mesmo tempo. Mas, de acordo com o historiador e pesquisador Leandro Karnal, quando isso acontece, o foco é dividido e esse é o maior desafio do professor, como profissional e como educador.
“A distração é uma epidemia nacional. Ter foco é um imenso desafio para qualquer profissional. Temos um cérebro randômico, que faz várias coisas ao mesmo tempo, mas o foco diminui e fica dividido entre as várias tarefas”, explicou. Karnal ressaltou que, para o professor, o desafio é ainda maior porque, além de manter o próprio foco, ele tem de manter o do aluno também.
“Essa é uma ideia que preciso dizer aos alunos e aos professores: faça uma coisa de cada vez. Foco, este é um grande segredo. Antigamente, a gente chamava de pessoas distraídas. Hoje, são pessoas que precisam tomar Ritalina”, destacou.
Ele disse que a tarefa de manter o foco é difícil e, para isso, é preciso fazer exercícios constantes. “Existem cinco venenos da alma, e o primeiro deles é a distração. Por isso, é preciso fazer exercícios como desligar o celular, não ligar o computador. Só que o mundo impede que a gente faça assim. É altamente difícil focar no mundo contemporâneo”.
Outro problema destacado por Karnal em sua palestra aos participantes do Seminário Tribuna de Educação é a ansiedade. “A todo momento estamos dizendo que o melhor é depois. É preciso viver o momento, entrar em uma sala de aula e esquecer o resto, esquecer das aulas seguintes. É preciso parar de pensar no momento seguinte”, afirmou.
Um segredo para melhorar ainda mais o relacionamento com os alunos, pais e escola, segundo o historiador, é saber ouvir. “Não é preciso dar opinião a todo instante. Ouvir é o grande segredo e desafio. Escutar a tudo e a todos, refletir sobre tudo o que escutou, filtrar e elaborar ideias internas. E, por fim, agir. Essa deve ser uma trilogia permanente do professor ”, revelou o historiador.
O que ele diz sobre:
Magistério
“O maior presente que já ganhei foi a minha alfabetização. É a única coisa que uso diariamente. Ser professor não é uma profissão para qualquer pessoa, é preciso ter equilíbrio emocional e sabedoria. Além de vocação”.
Individualismo
“Há um individualismo patológico que domina essa cultura líquida contemporânea. Basta dizer qualquer coisa, que o outro responde com sua percepção. Há sempre uma concorrência permanente. Ninguém ouve ninguém, somos obcecados por nosso individualismo. O nosso individualismo de hoje é, curiosamente, dependente da opinião do outro”.
Zona de conforto
“Até torturador cria zona de conforto. A gente se acostuma com tudo, com o coordenador, com diretor, com marido. Nos acostumamos com as pessoas, com aquilo que elas fazem, e vamos nos adaptando a tudo isso, e achando normal a semana de planejamento em que não se planeja nada. A visão da zona de conforto é uma visão que seduz a todo o profissional.”
Sistema político
“Vivemos em meio a uma crise ética. E está difícil educar a crianças com tantos exemplos ruins. Se o professor tem raiva dos políticos, se tem ódio do sistema brasileiro, tem nas mãos uma arma poderosa: ensine, eduque. Porque isso vai destruir o sistema. Você pode fazer greve, mas se tem realmente raiva, dê aula. As vinganças mais sofisticadas contra o sistema são essas”.
Formação continuada
“A mudança permanente é difícil, mas não mudar é fatal. Se não estou aumentando, estou diminuindo. Se o professor não está estudando, ele começa a esquecer. Professor tem de ser um estudante que nunca sai da escola. Cada vez que não leio, perco a autoridade para pedir que os alunos leiam, cada vez que não atualizo meu conhecimento, digo aos meus alunos que aquilo não é importante.”
A reportagem completa no Jornal A Tribuna de terça-feira