
Em trechos inéditos de entrevista que deu ao AT2, o ator Domingos Montagner revelou seu lado família e falou sobre como lidava com a solidão.
Um palhaço que gostava de solidão. Um homem de família que tinha medo de se separar dos filhos. Assim era o ator Domingos Montagner, casado com a atriz e produtora Luciana Lima, há cerca de 15 anos, e pai de Léo, 13, Antônio, 8, e Dante, 5.
Em trechos inéditos de uma das várias entrevistas ao AT2 – a mais recente publicada no último dia 3 e compartilhada pelo ator em suas redes sociais –, o galã de 54 anos mostrou esse seu outro lado, sem máscaras. Afirmou que considerava a violência o pior mal deste País e revelou seu maior medo:
[quote]“Ter de me separar dos meus filhos”.[/quote]
Ele falou sobre sua paixão pela família e criticou a vida cotidiana excessivamente “comunicativa”.
[quote]“Gosto de ler, escutar música, ir ao cinema sozinho de vez em quando. Ficar sozinho é se escutar, escutar o que te cerca, ter tempo para encontrar respostas”, afirmou.[/quote]
Domingos revelou que nunca pensou em se aposentar. “Além das atividades acrobáticas, sou palhaço. E sabemos que palhaço, quanto mais velho melhor. Pelo menos, esta é minha esperança…”
ENTREVISTA
A Tribuna – Como você lida com a solidão?
Domingos Montagner – Lido muito bem. Talvez ajudado pelas características do meu ofício. Necessitamos de concentração para estudar textos, elaborar projetos, pesquisar temas para espetáculos, etc. Além disso, necessito de tempos de reflexão, e para isso tenho meus recursos.
Gosto de ler, escutar música, ir ao cinema sozinho de vez em quando. Ficar sozinho é se escutar, escutar o que te cerca, ter tempo para encontrar respostas. A vida cotidiana é excessivamente “comunicativa”. Acredito que o ser humano ainda tem um tempo analógico. O tempo digital, muitas vezes, te afasta de sua essência.
A Tribuna – Você é muito ligado à família. Para você, o que falta nas famílias atuais?
Domingos Montagner – Sim, sou bem ligado à minha família. Não me sinto capacitado a dizer o que falta nas famílias, prefiro dizer o que acho importante existir. Neste sentido, acredito que a necessidade de transmitir amor, o prazer de proporcionar o crescimento e aprender com isso estão entre as principais razões de viver em família.
A Tribuna – Seu pai era dono de bar e sua mãe, dona de casa. Como eles reagiram quando trocou a Educação Física pelo teatro e, depois, o circo?
Domingos Montagner –Com surpresa e um pouco de medo, confesso. Porém, a decisão pela vida artística não foi recebida com muito mais receio do que a de ser professor. Temos de convir que ambas são profissões com alto potencial de risco… Todos os pais têm apreensão quanto ao êxito do filho, em qualquer dimensão, profissional, financeira ou emocional.
[quote]Porém, só tenho agradecer à confiança que me depositaram. Sempre recebi de meus pais a orientação de que faça o que for, faça-o com seriedade e bem, de preferência.[/quote]
A Tribuna – Você já disse que é mais ator de circo do que de TV. Pensa um dia se aposentar do circo?
Domingos Montagner – Não penso em me aposentar porque, além das atividades acrobáticas, sou palhaço. E sabemos que palhaço, quanto mais velho melhor. Pelo menos, esta é minha esperança…
A Tribuna – Você já se apresentou na rua, passando o chapéu. Depois trabalhou em um circo na Espanha. O que fez de mais curioso em toda essa trajetória e o que mais te emocionou?
Domingos Montagner – Já rodei muita estrada realmente, me apresentando até em igreja. Tenho excelentes recordações, mas me lembro de uma especialmente, talvez também pela sua imprevisibilidade. Íamos nos apresentar numa praça no interior de São Paulo e amanheceu chovendo. Para não perdermos o espetáculo, conversamos com os organizadores e fomos para um asilo de idosos e deficientes mentais.
A Tribuna – Como te abordam nas ruas?
Domingos Montagner – Sou abordado, em geral, com muito carinho e respeito, com declarações elogiosas ao meu trabalho, à minha história. Minha família já se acostumou e entendeu que, de certa forma, me tornei uma pessoa pública, conhecida pelo meu ofício, que é criar sonhos. Somos contadores de história e personificamos, muitas vezes, sentimentos, desejos familiares. E, em geral, as abordagens são motivadas por isso. São boas energias.
A Tribuna -Qual o seu maior medo em relação aos seus filhos?
Domingos Montagner –Meu maior medo é a violência. Na minha opinião, o pior mal deste País. A violência está instalada na nossa sociedade de uma forma endêmica, é urgente tomarmos uma atitude. Quer seja a partir da discussão mais aprofundada da criminalidade, quer seja refletindo sobre as nossas relações. Meu desafio é entregar aos meus filhos a importância da honestidade, da afetividade, do respeito e da tolerância.
*Reportagem publicada no jornal A Tribuna de 16/09/16.
*Entrevista: Aline Goltara
