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Saúde

Saúde mental: apenas 20% das pessoas com TDAH são tratadas

Dos 230 mil moradores do Estado que têm o transtorno e podem fazer uso de remédios, 46 mil recebem o tratamento adequado

Saúde mental: apenas 20% das pessoas com TDAH são tratadas
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Camila Lima

Jornalista formada pela Faculdade Estácio de Sá de Vitória, atua há 7 anos no jornal A Tribuna. Integrante da editoria de Cidades, tem como principal foco a cobertura de saúde, área na qual construiu sólida experiência em reportagens, entrevistas e coberturas de eventos pelo Brasil. Apresenta o podcast Fala, Doutor, dedicado a levar informação acessível e de qualidade sobre medicina e bem-estar ao público.

Última atualização

Foi aos 7 anos que o servidor público federal Gabriel Santa Clara, de 25 anos, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e começou a tomar medicação para melhorar o foco e a concentração.

Gabriel faz parte dos 230 mil moradores do Espírito Santo que têm o transtorno e podem fazer uso de remédios psicoestimulantes, como Ritalina, Venvanse e Atentah. Porém, apenas 20% dos pacientes recebem tratamento adequado no País, apontam estudos – o equivalente a 46 mil pessoas no Estado.



A prevalência de TDAH no Brasil é estimada em 7,6% em crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos; 5,2% nos indivíduos entre 18 e 44 anos e 6,1% em maiores de 44 anos, segundo relatório de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).

Mas há também quem não tem o diagnóstico e ainda assim faz uso dos psicoestimulantes para produtividade durante os estudos para provas e concursos.

Estudos internacionais, como do Jama Psiquiatria de 2025, estimam que 5% a 25% da população adulta usam ou usaram alguma vez os psicoestimulantes sem diagnóstico formal de TDAH, conforme apontou a neurologista Soo Yang Lee. Considerando a porcentagem mínima, no Espírito Santo seriam 150 mil pessoas.

Os cálculos são estimativas feitas pela reportagem com base nas Projeções da População 2026 do IBGE.

“Muitas vezes, o que acontece nessas pessoas sem TDAH, é que o medicamento tira uma eventual sonolência ou fadiga mental, dando a impressão de melhorar o rendimento”, explicou a neurologista Soo Yang Lee, que atua com TEA e TDAH em adultos.

Os estudos mostram, porém, segundo a neurologista da infância e adolescência Ana Carolina Macedo, que em pessoas sem TDAH os ganhos cognitivos tendem a ser modestos e inconsistentes, enquanto os riscos são bem documentados, incluindo ansiedade, insônia, dependência, alterações do humor e efeitos adversos à saúde.

“Existe uso, mas a ciência não sustenta a ideia de que essas medicações funcionem como ferramentas seguras e eficazes de ‘melhora de performance’ em indivíduos sem TDAH”.

Entenda o transtorno

TDAH

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas como desatenção, inquietude e impulsividade.

Sinais

O TDAH na infância, em geral, se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como “avoadas”, “vivendo no mundo da lua” e geralmente “estabanadas ” ou “ligadas por um motor”, isto é, não param quietas por muito tempo.

OS MENINOS tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como, por exemplo, dificuldades com regras e limites.

Em mais da metade dos casos, o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos.

Para adultos com TDAH, pode ser um pouco mais difícil fazer um diagnóstico, pois a hiperatividade característica do transtorno diminui com o passar dos anos.

Gastando energia

Um dos efeitos do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em Gabriel Santa Clara, 25, é a agitação, ainda mais presente quando ele se sente entediado. “Quando me sinto assim, saio para caminhar na orla. Meu cérebro pede por dopamina: livros, estudos. Tudo aquilo que amo fazer, faço. Assim me regulo. Gasto também muita energia com esportes, como pedal, trilha e caminhada”, conta.

Apesar de achar que a medicação em seu tratamento seja fundamental, Gabriel é categórico: “Mas não podemos viver apenas do remédio. A medicação ajuda a regular os neurotransmissores, especialmente dopamina e noradrenalina, mas o movimento é um regulador biológico tão poderoso quanto qualquer medicação”.

“O grande problema era o foco”

Durante uma terapia de casal com sua esposa, um supervisor de vendas de 37 anos, que preferiu não se identificar, foi orientado pela psicóloga a fazer um teste para identificar o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

“Na época eu tinha 26 anos, fiz vários testes e fui encaminhado ao psiquiatra, que confirmou o diagnóstico. Os sintomas eram tão intensos que eu esquecia de tomar a medicação”.

“Antes da descoberta, eu lembro que tinha muita dificuldade na escola, meu foco era muito ruim. O grande problema da minha vida era o foco, mas para mim o medicamento foi muito bom”, contou.

Fique por dentro

Medicamento

Pessoas com TDAH normalmente têm como principais indicações de medicamentos para o tratamento do transtorno os estimulantes metilfenidato (Ritalina e Concerta) e lisdexanfetamina (Venvanse), e os não estimulantes como atomoxetina (Atentah).

Como agem

O metilfenidato e lisdexanfetamina são psicoestimulantes. Atuam nos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico, com alta eficácia clínica, segundo explicou a neurologista da infância e adolescência Ana Carolina Macedo. Em contextos de uso inadequado (altas doses, via de administração não oral, uso recreativo), há risco de abuso.

Atomoxetina é um não estimulante inibidor seletivo da recaptação de noradrenalina. O início da ação é lento, tem menor potencial de abuso principalmente porque não age diretamente na dopamina.

Tratamento

Além da medicação, o tratamento eficaz do TDAH é multimodal e inclui, de acordo com Ana Carolina Macedo: psicoeducação da família e do paciente, terapia cognitivo-comportamental, intervenções parentais, adaptações escolares, suporte psicopedagógico, organização ambiental, tratamento e manejo das comorbidades.

Fornecimento pelo SUS

O medicamento metilfenidato é disponibilizado nas Farmácias Cidadãs Estaduais. Pacientes atendidos com metilfenidato no Espírito Santo:

2020: 5.958

2021: 4.911

2022: 5.738

2023: 7.071

2024: 8.285

2025: 8.988



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