- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Anúncio
CIDADES

Coração e intestino mudam de forma: o rastro da doença de Chagas em Pernambuco

Casa de Chagas registra 106 novos casos em 2026; pacientes do Sertão do Pajeú são maioria em busca de tratamento no Recife

Contágio acontece por meio das fezes do animal e não da picada
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

Com colaboração de Carlos Simões

O barbeiro é pequeno, mas o rastro que deixa na vida de quem cruza o seu caminho é para sempre. Em Pernambuco, o combate a esse inimigo quase invisível ganha contornos de resistência na Casa de Chagas, localizada em Santo Amaro, área central do Recife. Somente nos primeiros meses de 2026, o estado já confirmou 106 novos casos da doença. No ano passado, o total chegou a 406 ocorrências, a maioria vinda de áreas rurais e do Sertão do Pajeú.

A marca no peito

Para Seu José Inácio, de 76 anos, a notícia da contaminação há quatro décadas veio acompanhada de medo. “Quando eu descobri, eu chorava demais. Pensava em deixar meus filhos pequenos”, recorda o aposentado. O acompanhamento médico rigoroso foi o que permitiu que ele visse os filhos crescerem.

Já a dona de casa Joana Gomes sentiu o impacto antes mesmo de entender a causa. Aos 12 anos, desmaiou e só acordou com um marcapasso no peito. O diagnóstico de Chagas só veio dez anos depois, quando o aparelho precisou de manutenção. “Estou no ambulatório há mais de 30 anos”, conta, aliviada por ter acesso ao tratamento gratuito.

O coração que perde a forma

A doença, transmitida pela picada do barbeiro, ataca órgãos vitais. Segundo a cardiologista Sílvia Martins, o coração e o intestino perdem a anatomia original e deixam de funcionar adequadamente. “O coração não consegue bombear adequadamente. Nos casos graves, o paciente cansa até para forrar uma cama e precisa dormir com a cabeceira alta para conseguir respirar”, explica a médica.

Rede de solidariedade

Referência no estado, a Casa de Chagas faz parte do Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco (Procape) e atende cerca de mil pacientes pelo SUS. Além do suporte médico, o local abriga a Associação dos Portadores de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca (APDCIM).

Voluntários como Antônio Ramos, presidente da associação, organizam um bazar para ajudar quem vem do interior. “A maior parte desses pacientes vem carente, necessitada de alimento e remédio. Trabalhamos para dar uma melhor qualidade de vida para eles”, afirma Antônio. A Casa de Chagas recebe doações de roupas e objetos na Rua Álvares de Azevedo, 220, em Santo Amaro.

O desafio do diagnóstico tardio

A Doença de Chagas é frequentemente chamada de “doença silenciosa”. O parasita Trypanosoma cruzi pode permanecer no organismo por 20 ou 30 anos sem apresentar sintomas graves. O grande desafio é que, quando os sinais de cansaço extremo e inchaço aparecem, o coração já pode estar severamente comprometido. Por isso, a testagem de pessoas que viveram em áreas de risco no passado é fundamental.

Vigilância em áreas urbanas

Embora o Sertão ainda seja a área de maior incidência, as cidades não estão imunes. O desmatamento e o crescimento urbano desordenado levam o barbeiro a buscar abrigo em frestas de muros, entulhos e até em jardins domésticos. A vigilância sanitária alerta que o inseto é atraído pela luz artificial, o que facilita sua entrada em residências urbanas.

As formas de contágio

Além da forma clássica — onde o barbeiro pica a pessoa e deposita fezes contaminadas na pele —, existem outras duas vias importantes:

Transmissão Oral: Ocorre pela ingestão de alimentos contaminados por insetos triturados, como caldo de cana ou polpas de frutas processadas sem higiene.

Transmissão Vertical: Quando a mãe infectada passa o parasita para o bebê durante a gestação ou o parto

Onde mora a esperança

Embora a doença de Chagas na fase crônica não tenha cura, o cenário para quem nasce hoje é muito mais seguro. O controle da transmissão vertical (de mãe para filho) avançou muito. Atualmente, o pré-natal rigoroso permite identificar mães infectadas e tratar os bebês logo após o nascimento. Nesses casos, a taxa de cura nos recém-nascidos é de quase 100%.

Além disso, a ciência evoluiu para garantir que os pacientes vivam muito e vivam bem. O uso de marcapassos modernos, medicamentos que auxiliam o bombeamento do sangue e o acompanhamento multidisciplinar, como o feito na Casa de Chagas, permitem que pessoas como o Seu José Inácio cheguem aos 76 anos com qualidade de vida e participação ativa na sociedade.

Quem combate o barbeiro?

A responsabilidade de enfrentar o inseto é dividida entre o poder público e o cidadão:

Vigilância Ambiental (Estado e Municípios): As Secretarias de Saúde são responsáveis pelas equipes de campo. Os agentes de endemias visitam áreas de risco, realizam o borrifamento de inseticidas em focos identificados e fazem o monitoramento das populações de barbeiros.

Vigilância Sanitária: Atua na fiscalização de batedores de açaí e engenhos de cana-de-açúcar, garantindo que o processamento dos alimentos siga normas rígidas de higiene para evitar a transmissão oral.

Papel do Cidadão: O combate doméstico é fundamental. Manter o quintal limpo, evitar acúmulo de entulhos (onde o bicho se esconde) e, principalmente, não esmagar o inseto caso o encontre. A orientação é capturar o bicho (com a mão protegida ou usando um pote) e levá-lo ao posto de saúde ou ao Distrito Sanitário mais próximo para análise.

Se você esmagar o barbeiro com a mão ou com o pé descalço, você explode o reservatório de parasitas. Se você tiver qualquer microcorte na pele (que às vezes nem vemos), o parasita entra direto na sua corrente sanguínea.

O barbeiro é um inseto que prefere o equilíbrio: ele gosta de lugares quentes, mas com baixa umidade (climas secos). É por isso que ele se adaptou tão bem ao Semiárido e ao Sertão nordestino.

🚨 Guia de Sobrevivência: O que fazer (e o que NÃO fazer) ao ver um barbeiro

Se você der de cara com o inseto, o seu primeiro instinto vai ser o chinelo ou o fogo. Pare agora. Siga estas dicas práticas:

Por que o chinelo é um perigo? Ao esmagar o bicho, você “explode” as fezes contaminadas. Se elas espirrarem no seu olho ou em um corte na pele, o parasita entra na hora.

O truque do pano: Se o bicho estiver fugindo, jogue um pano úmido ou uma folha de jornal em cima. Ele vai se sentir acuado e “travar”. Coloque um objeto leve em cima (sem apertar) para garantir que ele não saia dali.

A luva improvisada: Enfie a mão dentro de um saco de supermercado limpo, pegue o bicho por cima do pano e vire o saco do avesso. Dê um nó. Pronto: você está seguro e o bicho está preso.

Limpeza de segurança: Se o bicho sumiu, não use vassoura. Passe um pano com desinfetante no local. Varrer a seco levanta o pó das fezes do inseto, que pode ser inalado e transmitir a doença.

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.