Mesmo atrás das grades, detentos enviam recados para a família e, principalmente para as lideranças do tráfico na busca por drogas, promessas de pagamentos de dívidas e ajuda para a mulher e os filhos. Sem recursos, alguns usam até folhas da Bíblia para escrever os bilhetes, que são entregues no horário de visita.
As letras das cartas são escritas uma bem perto da outra para caber nos pequenos pedaços de papel. Bem enrolados e finos, eles chegam a ficar do tamanho de um grão de arroz. Assim, os papéis conseguem passar despercebidos pela vistoria. Foi o caso de dois bilhetes apreendidos nesta sexta-feira (21), no bairro Industrial, em Viana.
Policiais militares encontraram os papéis durante uma operação para cumprimento de mandados de prisão. Um suspeito, que tentou fugiu ao ver a PM, foi pego com uma sacola contendo os bilhetes, drogas, munição e anotações do tráfico.
Segundo a polícia, os remetentes das cartas parecem ser dois presidiários diferentes, tanto pela caligrafia, quanto pelos assuntos tratados. Na primeira carta, escrita em um pedaço de folha da Bíblia, o preso começa saudando o “mano” do tráfico. Logo após, pede ajuda para a mulher e filhos.
“Se estiver na sua condição de dar uma moral para minha senhora, eu vou agradecer, quando eu pisar na rua vou retribuir”, diz um trecho da carta. “Se você achar que eu sou digno de vocês me ajudarem eu vou agradecer, meu mano.”
Na parte de trás do bilhete, o detento conta para o chefe do tráfico sobre um suspeito que teria roubado as drogas dele, dando instruções para que o cúmplice receba o dinheiro de volta.
“Ele pegou essa droga aí e sumiu lá para a casa dele e não voltou para a pista para acertar comigo, aí eu rodei. Vê aí, para você receber o seu dinheiro”, escreveu.
Toalha de papel
O segundo bilhete apreendido foi escrito em um pedaço de toalha de papel, que, aberto, cabe na palma da mão. O presidiário começa descrevendo como foi preso e alega que, na verdade, não era o alvo da polícia.
“Os policiais estavam atrás do (nome). A moto dele estava na frente de casa, e denunciaram ele… Esse prejuízo aí, quando eu sair, vou acertar com vocês”, escreveu.
O detento estava se referindo a um flagrante que aconteceu no dia 26 de dezembro do ano passado, quando a polícia prendeu dois suspeitos em uma casa, ambos de 22 anos, no bairro Operário. Na ocasião, além de drogas, foram apreendidos R$ 16 mil em dinheiro.
Redução de sentença
Além de justificar como foi preso, ele ainda pede para conversar com a advogada, na busca por redução da sentença. “A doutora (nome) não trouxe a procuração para eu assinar aqui… Vê com a doutora para vir aqui, meu mano, preciso falar com ela.”
Ele continua o texto, na busca por ser absolvido: “Tem como você ver com a doutora se ela não tem como colocar as assistentes dela para fazer os pedidos para o (nome censurado) e tentar me absolver desse processo”.
No final, o preso pede algumas drogas para trocar por itens dentro da cadeia. “Tem como mandar um chá e um pó para eu fazer uns itens aqui… Só dar na mão da (nome), ela tem o número da mulher que traz. Forte abraço para todos”.
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Quadrilhas reconhecem a caligrafia dos chefões
De acordo com o advogado criminalista Jamilson Monteiro, há casos em que algumas ordens do tráfico só são cumpridas nas ruas quando o chefão do grupo criminoso, preso, envia o recado escrito, com a própria letra.
“A família e os integrantes da quadrilha reconhecem a letra e só cumprem as orientações quando é ele mesmo quem escreve”, revelou o especialista.
Enviar recados de dentro da cadeia, segundo ele, não é considerado um crime. “Infelizmente, no Brasil, não existe essa regulamentação, não existe uma norma que proíba levar uma carta. No entanto, deve-se promover políticas de segurança para coibir esses recados com orientações para a prática de crimes”, ponderou.
