Com 32 anos atuando no segmento de funerárias, o comerciante Rogério Rodrigues, de 50 anos, fez um desabafo após sepultar uma pessoa da família recentemente: “É muito triste não poder dar o último adeus”.
Sua parente, que morava na Grande Vitória e estava internada no Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, na Serra, lutava contra o novo coronavírus (Covid-19).
A pedido de Rogério, o grau de parentesco e identidade dessa parente não estão sendo divulgados para preservar a família, que está muito abalada com a situação.
Apesar de constar no atestado de óbito que a causa da morte foi choque séptico, síndrome respiratória aguda grave, insuficiência renal aguda, coronavírus e hipertensão arterial, Rogério disse que a família ainda aguarda a contraprova do exame para saber se, de fato, ela teve Covid-19.
A Tribuna – Quais sintomas que a sua parente teve?
Rogério Rodrigues – Sentiu dor no peito e um pouco de falta de ar. Primeiramente, ela ficou internada durante três dias em um hospital particular na Serra, pelo plano de saúde, mas depois como o quadro se agravou, ela foi transferida para o Hospital Jayme, na Serra.
No Hospital Dr. Jayme Santos Neves, ela ficou quanto tempo internada?
Foram 25 dias internadas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Ela teve uma pequena melhora nos últimos dias e tinha até a previsão de receber alta hoje (ontem) ou amanhã (hoje). Mas, infelizmente recebemos a notícia que ninguém está preparado para ouvir. Ela não resistiu.
Ela ficou entubada, um rim parou de funcionar durante o tratamento e teria de fazer hemodiálise quando saísse do hospital. Só que ela não teve tempo.
Foi confirmada causa da morte pela Covid-19?
No atestado de óbito eles colocaram que sim, mas ainda falta receber a contraprova.
Já sepultou quantas pessoas vítimas dessa doença?
Entre suspeitos e confirmados, foram 12 pessoas e já tem outro sepultamento para fazer amanhã (hoje) de caso suspeito.
Como descreve o fato de sepultar uma pessoa da família?
Já sepultei outros parentes, não é nada fácil, mas com coronavírus ela é a primeira.
Sepultar uma pessoa é sempre muito difícil, mas sabe o que é pior diante de todo esse cenário que estamos vivendo?
O que é pior?

Seguimos o protocolo que é usado no mundo inteiro, mas tenho de admitir que é muito triste não poder dar o último adeus a quem amamos.
Falo isso não só pelo sepultamento da minha parente, mas essa dor é compartilhada com todos os familiares de pacientes que não resistiram a essa doença.
Ninguém pode ter contato, ninguém pode ver, vestir uma roupa para a hora da partida. É do hospital para o contêiner, no caso do hospital Jayme, e de lá, direto para o cemitério.
Como foi o sepultamento dela?
Um pequeno grupo da igreja fez uma oração e poucos familiares acompanhavam, todos de longe. Foi muito triste.
Quais lembranças dela que serão eternizadas em sua memória?
De uma pessoa alegre, que gostava de reunir amigos e familiares nos finais de semana para fazer um churrasco. De uma pessoa religiosa, temente a Deus, que fazia o bem. Sentiremos muitas saudades.
Pedimos muito a Deus para que tudo isso passe logo, pois a situação é muito preocupante.
Confesso que estou até ficando deprimido de tanto de ouvir falar sobre coronavírus. Desejo que a gente possa vencer essa batalha o quanto antes.
