Para o doutor em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Lauro Ferreira Pinto, a estratégia de combate ao coronavírus “micou” e o cenário é pessimista: “Vamos ter um colapso de leitos e precisamos abrir um hospital de campanha”.
Com 83,67% dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Grande Vitória ocupados, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) contratou 180 leitos de dois hospitais particulares para desafogar dois hospitais públicos de referência: o Dr. Jayme Santos Neves e o Dório Silva, ambos na Serra.
O Hospital Dório Silva, aliás, está quase em seu limite: dos 34 leitos de UTI, 31 estavam ocupados ontem. Já no Jayme, dos 190 leitos, 165 tinham pacientes. De forma ampliada, 78,13% dos leitos de UTI de todo o Estado estão ocupados.
Lauro Ferreira Pinto, que também é especialista em administração hospitalar pela Fundação Getúlio Vargas, conversou com a reportagem sobre o tema.
ENTREVISTA | Lauro Ferreira Pinto, médico e doutor em Doenças Infecciosas
A TRIBUNA – Qual o nível da preocupação atual do senhor?
Lauro Ferreira Pinto – Estou muito pessimista. A nossa estratégia micou e não conseguimos fazer um isolamento bom. A gente conseguiu fazer duas ou três semanas e, depois, o nosso isolamento foi para o espaço.
Estamos com uma curva achatada, mas ascendente. O recorde de casos em mortes em 24 horas não espanta, porque temos um problema de isolamento na periferia da Grande Vitória. Temos casas com cômodos apertados e pessoas que precisam sair para trabalhar.
O que mais atrapalha?
Perdemos muito tempo com a discussão ideológica em torno do isolamento. O Palácio do Planalto mandou um sinal trocado. Tem gente discutindo história de caixão enterrado sem corpo e falando que isso é uma gripe. E, por isso tudo, nós vamos ter momentos duros pela frente. Para piorar, a população está cansada do confinamento.
Haverá um colapso?
Acho que vamos ter colapso de leitos no Estado. Mas é muito difícil prever quando, porque a gente precisa sempre olhar para duas semanas atrás. Vivemos hoje a exposição de 15 dias atrás ao vírus.
E em duas semanas, diante do recorde recente, vamos precisar de leitos. Estamos enchendo os hospitais com muita rapidez.
Hospital de campanha é uma solução?
Eu sou a favor do hospital de campanha. Muitos estados estão fazendo. Em Wuhan, na China, foram 16. Alertei o governo do Estado no começo da pandemia. Agora, fica mais difícil, porque não se monta uma equipe de intensivistas de uma outra para outra, e está chegando a hora em que os hospitais particulares não vão mais poder disponibilizar leitos para o Estado (em detrimento aos clientes de planos de saúde). Pela curva da doença, os hospitais particulares também vão receber internados.
Ou a gente para a doença ou abre leitos ou entra em colapso.
