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Coronavírus

Capixabas fazem termo de autorização para serem tratados com cloroquina

Mesmo sem comprovação científica sobre a eficácia do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus (Covid-19), moradores ...

Psicanalista José Francisco Veloso já fez termo

Última atualização

Mesmo sem comprovação científica sobre a eficácia do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus (Covid-19), moradores do Estado estão fazendo termos de consentimentos para ter acesso ao medicamento se forem infectados pelo vírus.

Esses termos inclusive, com CPF, começaram a ser compartilhados nas redes sociais antes mesmo de o Ministério da Saúde anunciar que o paciente precisa autorizar o uso da medicação e de o médico decidir sobre a aplicar ou não o remédio.

O Ministério da Saúde diz que o termo de consentimento, que deve ser assinado pelo paciente, ressalta que “não existe garantia de resultados positivos” e que “não há estudos demonstrando benefícios clínicos”.

Psicanalista José Francisco Veloso já fez termo (Foto: Arquivo/AT)Casado com uma médica, o psicanalista José Francisco Veloso, 72 anos, é um dos exemplos. No seu termo de declaração consta a informação: “Declaro para os fins de direito, que sendo acometido pela Covid-19 (coronavírus), quero ser tratado imediatamente desde o primeiro instante que eu for diagnosticado com os primeiros sintomas com hidroxicloroquina e azitromicina, não desejando aguardar que saia qualquer resultado de exame laboratorial. Enquanto não houver evidências científicas destes ou de outros produtos farmacológicos, este se faz o meu desejo”.

Ele contou que a decisão foi embasada em pesquisas citadas em artigos publicados por cientistas do Brasil e de outros países, bem como da orientação de sua mulher, que é médica em Manaus (Amazonas) e foi diagnosticada com Covid-19 há cerca de dois meses.

“Ela se tratou em casa e, logo nos primeiros dias, tomou essa medicação e está bem. Sei que está difícil de conseguir, mas quero comprar a cloroquina para guardar”.

Apesar de não ter feito o termo, o presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-ES), Celso Murad, já admitiu que se tivesse doente usaria a hidroxicloroquina associada à azitromicina.

Em contrapartida, há quem não compactua com essa atitude. É o caso do turismólogo Leonardo Levi, 38, que preparou o mesmo termo, mas renegando ser tratado com o medicamento.

“Sabendo dos efeitos colaterais, me reservo ao direito de não aceitar. Esses medicamentos não têm eficácia comprovada. Caso ocorra em breve uma comprovação científica oficial, eu volto atrás na minha decisão”, declarou.

Associações médicas vão à Justiça

Entidades médicas preparam medidas judiciais para obrigar o Ministério da Saúde a retirar de seu site as orientações para que profissionais de saúde administrem precocemente cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes com coronavírus.

É o caso da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), que já estuda participar de uma ação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) ou tomar medidas jurídicas individualmente.

Os médicos afirmam que o fato de a orientação existir formalmente dará margem à população para exigir o uso dos medicamentos mesmo quando a avaliação clínica não recomendar a prescrição.

A maioria das unidades básicas de saúde no País não tem, por exemplo, eletrocardiógrafos para aferir se os pacientes podem usar a cloroquina, que apresenta a arritmia como um de seus principais efeitos colaterais.
Mais de 90% dessas unidades também não dispõem de profissionais de segurança, e o temor dos médicos é que, como a escalada da epidemia, muitos pacientes acabem exigindo de forma mais enfática o uso dessas drogas.

Daniel Knupp é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (Foto: Divulgação)Segundo Daniel Knupp, presidente da SBMFC, que reúne 47,7 mil equipes de atenção básica no País, o governo federal está colocando os médicos em um “fogo cruzado”.

“Haverá pressão da população para o uso desses medicamentos, sendo que o próprio governo está sendo tecnicamente omisso em sua orientação”, diz Knupp.

O documento que abre a possibilidade para o uso precoce da cloroquina não é um protocolo do Ministério da Saúde, o que exigiria a assinatura de algum responsável do corpo médico da pasta. Ao contrário, a orientação sequer tem um responsável identificado.

“Esse foi o subterfúgio usado para que não haja uma disputa técnica sobre o uso da cloroquina”, diz Knupp. Segundo ele, a cloroquina deve começar a ser largamente distribuída pelo governo nos próximos dias por conta da produção que o Exército vem realizando.

Os médicos que não concordarem com ela podem acabar sendo pressionados a fazê-lo, disse.

Prefeituras aguardam recomendação federal

As prefeituras da Grande Vitória ainda aguardam uma indicação mais específica do Ministério da Saúde para saber como proceder na compra e, até mesmo, na distribuição da cloroquina e da hidroxicloroquina nas farmácias dos postos de saúde municipais.

A Secretaria Municipal de Saúde de Vitória, por exemplo, é uma das que está aguardando orientações do Ministério da Saúde quanto ao envio dos medicamentos.

Na mesma linha, a Secretaria Municipal de Saúde de Vila Velha também falou à reportagem que aguardará posicionamento e instruções normativas sobre os polêmicos remédios.

Em Cariacica, a prefeitura disse, por nota, que aguarda as novas orientações do Ministério da Saúde sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, assim como a respeito da compra dos medicamentos.

“Caso a responsabilidade da compra seja do município, a aquisição será feita e disponibilizada, caso haja prescrição médica”.

Já a Secretaria de Saúde da Serra informou que tem a medicação disponível em suas farmácias para todos os médicos que acharem necessário o uso.

 

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