A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) planeja parar de recomendar a hidroxicloroquina para pacientes com Covid-19 em estado grave, em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Segundo o subsecretário de Vigilância em Saúde, Luiz Carlos Reblin, “a portaria (atual) está em revisão, para a possibilidade de nem utilizar mais nos casos graves, como vem sendo usado”. À TV Tribuna, Reblin disse ainda que o governo “se baseia em conhecimentos científicos para indicar o tratamento”.
A Sesa não informou quando essa nova portaria será divulgada, mas disse que o que está subsidiando a análise são as recomendações das associações de Medicina Intensiva, Infectologia, Pneumologia e Tisiologia – que dizem que “evidências disponíveis não sugerem benefício”.
Enquanto isso, o Ministério da Saúde vai no sentido contrário: divulgou um documento que amplia a possibilidade de uso da cloroquina e da hidroxicloroquina também para pacientes com sintomas leves.
Até então, protocolo adotado pelo governo federal previa o uso do medicamento apenas por pacientes graves e críticos e com monitoramento em hospitais. Agora, o documento federal diz que é preciso assinar termo de consentimento, que cita risco de agravamento da condição clínica de quem toma.
Doutor em Doenças Infecciosas pela Universidade de São Paulo, Crispim Cerutti Junior diz que a medida federal é perigosa. “Indicaram uma conduta que as evidências mostram que não funciona com certeza”.
“A cloroquina tem boa resposta anti-inflamatória. Ela é segura do ponto de visto de efeitos colaterais, mas os poucos que produz são danosos. Na parte cardíaca, pode alterar o ritmo de batimento e causar risco de morte. No campo visual, pode causar danos do nervo óptico que acarretam cegueira. E proposta do tratamento prevê uma dose mais alta, que adiciona risco cardíaco. É arriscado tomar sem monitoramento cardíaco”.
O presidente Jair Bolsonaro também reconhece a falta de comprovação, mas diz: “Estamos em Guerra: Pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”.
Liberação é decisão perigosa, dizem especialistas

Médico infectologista, Carlos Urbano diz que o protocolo do governo recomenda ainda o uso aliado ao antibiótico azitromicina, que potencializa efeitos colaterais, sobretudo de arritmia cardíaca.
“A recomendação é para paciente internado, que faz um eletrocardiograma diariamente. E mais: e se o sintomático leve usar, sem resultado do exame? O que vai ter de gripado usando cloroquina…”, lamentou.
“Revistas científicas renomadas já foram tácitas: os testes com doentes internados mostraram que ela não funciona. E para paciente em ambulatório, é inconclusivo ainda.”
A pneumologista Jéssica Polese também tem ressalvas. “Os resultados são questionáveis e a maioria acaba usando por não ter outro tratamento. Utilizar já no início é arriscado, pois os resultados são questionáveis. A cloroquina pode ter efeitos colaterais nos casos mais graves.”
Entenda
O que é a cloroquina?
- É um medicamento de uso controlado que causa aumento de resposta imunológica contra micro-organismos e é usado para tratar doenças autoimunes, como lúpus, artrite reumatoide e juvenil, doenças fotossensíveis e malária. Hidroxicloroquina e cloroquina são dois remédios de formulações diferentes, mas que levam à mesma substância, a cloroquina.
Preço médio:
- Entre R$ 80 e R$ 110
O que o governo federal fez?
- O Ministério da Saúde divulgou um documento que amplia a possibilidade de uso da cloroquina e da hidroxicloroquina também para pacientes com sintomas leves do novo coronavírus.
- Até então, o protocolo adotado pelo Ministério da Saúde previa o uso do medicamento apenas por pacientes graves e críticos e com monitoramento em hospitais.
- O novo protocolo do Ministério da Saúde prevê a indicação de cloroquina ou hidroxicloroquina com azitromicina (um antibiótico) com dosagens diferentes conforme a sequência do tratamento e o quadro do paciente.
O que diz o termo de consentimento?
- O texto mantém a necessidade de o paciente autorizar o uso da medicação e de o médico decidir sobre a aplicar ou não o remédio. A cloroquina não está disponível para a população em geral;
- O termo de consentimento, que deve ser assinado pelo paciente, ressalta que “não existe garantia de resultados positivos” que “não há estudos demonstrando benefícios clínicos”;
- O documento afirma ainda que o paciente deve saber que a cloroquina pode causar efeitos colaterais que podem levar à “disfunção grave de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente e até ao óbito”.
O que dizem as pesquisas pelo mundo?
- Um dos maiores estudos feitos até agora não encontrou redução de mortalidade por Covid-19 entre pessoas que foram medicadas com hidroxicloroquina.
- A pesquisa observacional com 1.438 pacientes de Nova Iorque foi publicada no dia 11 de maio na revista Jama, da Associação Médica Americana, um dos principais periódicos médicos do mundo.
- Uma outra grande pesquisa observacional, com 1.376 pacientes de Nova York e publicada na prestigiosa revista científica The New England Journal of Medicine no dia 7 de maio, também apontou que não foram encontradas evidências de que o uso do medicamento reduza mortes ou intubações.
O que dizem as associações médicas?
- A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que não há provas de que a hidroxicloroquina ou qualquer outro medicamento possa curar ou prevenir a Covid-19 e que o uso inapropriado pode levar até a morte.
- A Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia entraram no mesmo consenso: “As evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo do tratamento com hidroxicloroquina ou com cloroquina”, afirmam.
- A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) disse que o único estudo já publicado por pesquisadores da Fiocruz com pacientes de Covid-19 foi o CloroCovid-19. “Os resultados iniciais do estudo mostram que pacientes graves com Covid-19 não devem usar doses altas de cloroquina”, diz a Fiocruz.
Quais os efeitos colaterais?
- Distúrbios de visão, irritação gastrointestinal, alterações cardiovasculares e neurológicas, cefaleia, fadiga, nervosismo.
Posso comprar em uma farmácia?
- A compra de hidroxicloroquina exige receita médica, decidiu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão afirma que a medida vai permitir que os pacientes que já usam o medicamento não fiquem sem tratamento.
Há evidência científica de que funciona?
- O próprio documento do Ministério da Saúde reconhece que não há evidências suficientes de eficácia, e o termo de consentimento que os pacientes devem firmar com seus médicos cita risco de agravamento da condição clínica. No Twitter, Jair Bolsonaro admitiu que não há respaldo na ciência para a indicação. “Ainda não existe comprovação científica, mas sendo monitorada e usada no Brasil e no mundo. Contudo, estamos em Guerra: ‘Pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado'”, escreveu.
