A pausa no experimento de uma das vacinas contra a Covid-19 deixou a população preocupada, já que a imunização é vista como a principal solução para combater o novo coronavírus.
Essa paralisação em plena fase de testes, no entanto, é definida como “comum” pelos especialistas, que garantem: não é motivo para desânimo em relação à vacina.
A interrupção na pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, ocorreu após se identificar a suspeita de efeito adverso em uma voluntária do estudo.
Segundo a farmacêutica AstraZeneca, que desenvolve a vacina, a mulher apresentou sintomas que podem estar vinculados a uma inflamação rara da medula, conhecida como mielite transversa. O diagnóstico ainda não foi confirmado.
Para a infectologista Martina Zanotti, a descoberta de efeitos adversos é um processo normal na evolução dos estudos.
“Nenhuma vacina pode ser liberada em tão pouco tempo. É justamente nesta fase que se vê a segurança. É algo esperado. A pressa não compensa, pois a vacina tem que funcionar e ser segura. Não é motivo para desânimo”, afirmou a especialista.
A farmacêutica AstraZeneca ressaltou, em comunicado, que em estudos com participação de muitas pessoas, como é o caso da fase 3 da vacina, problemas de saúde ocorrerão aleatoriamente, mas tais casos precisam ser analisados por uma equipe independente.
“Esse é um processo de rotina que precisa acontecer conforme sejam detectados potenciais problemas”, afirmou a empresa.
Essa análise precisa dizer, inclusive, se o problema ocorrido com a voluntária tem ligação direta com a vacina, como ressalta o infectologista Paulo Peçanha.
“É preciso estudar se o evento tem relação com a vacina ou não, pois outros eventos acontecem simultaneamente. Essa é uma fase justamente para observar os eventos adversos. Ou seja, a pausa mostra a transparência e a responsabilidade dos pesquisadores”, disse Peçanha.
A medida pode afetar o cronograma de um acordo com o Ministério da Saúde para a vacinação no Brasil. O acordo prevê a oferta de 100,4 milhões de doses da vacina contra a Covid-19, que começaria a ser distribuída no início de 2021.
Antes da paralisação dos estudos, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a afirmar que “em janeiro do ano que vem, a gente começa a vacinar todo mundo”.
SAIBA MAIS
Três frentes de pesquisas no País
Produção da vacina
> No Brasil, há acordos com três frentes de pesquisa. Todas as vacinas estão em fase de testes.
Vacina de Oxford
> O governo federal, por meio da Fiocruz, fechou uma parceria com a Universidade de Oxford, do Reino Unido, e a farmacêutica AstraZeneca.
> Desde junho, voluntários – 2 mil em São Paulo, 2 mil no Rio e mil em Salvador – estão testando a vacina.
> É essa vacina que apresentou efeito adverso em uma voluntária do estudo no Reino Unido. No Brasil, nenhum voluntário teve sintoma adverso.
Vacina da China
> O Estado de São Paulo, por meio do Butantan, assinou acordo com o laboratório chinês Sinovac para testar e produzir a vacina.
> O projeto chinês realiza ensaios clínicos em seis estados, com 9 mil voluntários em 12 centros de pesquisa.
Vacina da Rússia
> O projeto do laboratório Gamaleya, de Moscou, está produzindo a vacina batizada como Sputnik V.
> Os russos dizem que 40 países já os consultaram sobre a vacina.
> No Brasil, há um acordo para testagem a ser realizada no Paraná com o governo do estado, e a Bahia também está fechando.
> Esse estudo é visto com receio pela comunidade científica internacional por não ter tido resultados de estudos com critérios científicos.
Fonte: Pesquisa AT.
Brasil não tem relato de efeito adverso grave em voluntários
Testes conduzidos no Brasil com a vacina em desenvolvimento pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca não tiveram até o momento relato de eventos adversos graves em voluntários, de acordo com Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A Anvisa informou que está em contato com o laboratório “para o acesso à totalidade das informações e interlocução com outras autoridades de medicamentos no mundo”.
O objetivo é verificar se o efeito inesperado tem relação com a vacina aplicada. A investigação ocorre por meio de um comitê independente de segurança, composto por pesquisadores internacionais não vinculados ao estudo.
O aval para realização dos testes da vacina de Oxford no Brasil foi dado pela agência em junho deste ano. No mundo, os testes envolvem cerca de 18 mil voluntários.
O comunicado enviado pela AstraZeneca não deixa claro em qual braço do estudo ocorreu o evento, se no que recebeu a vacina ou no que recebeu placebo.
O governo federal havia aberto um crédito orçamentário de R$ 1,9 bilhão para que a Fiocruz pudesse participar da transferência de tecnologia e receber as primeiras doses e participar da produção da vacina.
