
O uso excessivo pode esconder a chamada nomofobia, que é o vício em celular, mas na maioria das vezes trata-se “apenas” de falta de educação digital. Quem afirma é a psicóloga e pós-doutora em dependência digital, Anna Lucia Spear King.
A especialista é fundadora do Instituto Delete, instituição formada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pioneira no tratamento de abuso e dependência de tecnologias digitais.
“O problema é que os adultos da geração de agora não receberam educação digital. Por isso, a geração não sabe orientar os filhos sobre o uso. Os jovens usam a todo momento. Mas isso não é necessariamente vício, é falta de educação digital”, afirmou a especialista.
O vício, no entanto, existe, mas está associado a outras doenças preexistentes, como depressão, compulsão e ansiedade.
“O vício é a ponta do iceberg. Por trás do vício, tem outra doença. Se tiver compulsão, a pessoa provavelmente vai ficar viciada em jogos ou sites de compra. A pessoa usa a tecnologia para atender a necessidade da outra doença”, afirmou.
Em conversa com a reportagem de A Tribuna, a psicóloga comentou sobre problema que assola as novas gerações, apontou os indícios de quando o vício se manifesta e falou sobre os desafios dos pais.
A Tribuna – Crianças e jovens estão passando cada vez mais tempo nos aparelhos eletrônicos. A pandemia pode ter intensificado ainda mais o vício?
Anna Lucia Spear King – Não quer dizer que se tornaram viciadas em tecnologia, mas a pandemia intensificou o uso para todo mundo. Durante o isolamento social, nosso levantamento mostra que o uso de tecnologia subiu 43%, pois ficou sendo o único modo de se comunicar, inclusive entre os idosos.
Mas em relação às crianças e aos jovens, os adultos é que são os responsáveis por essa vida digital. É preciso de orientação, ensinar como usar essa tecnologia, para um uso consciente. Não se pode usar sem limite e da maneira que eles querem. O que as crianças fazem não é vício, é falta de educação digital.
Mas como fazer isso em uma sociedade em que os próprios adultos usam de forma errada?
O problema é que os adultos da geração de agora não receberam educação digital. Todos nós recebemos orientações sociais, de como comer, como falar, de não falar com estranho, mas orientação digital ninguém recebeu. Por isso, a geração não sabe orientar. Mas é preciso fazer. O desafio dos pais é ensinar essa educação digital. Não deixar os filhos usarem durante uma hora antes de dormir, respeitar a hora da refeição, fazer primeiro a lição de casa antes de usar o celular ou jogar videogame. Isso não tem sido ensinado, e os jovens usam a todo momento. Mas isso não é vício, é falta de educação digital.
Afinal, a partir de quando é considerado vício?
Quando traz prejuízo na vida profissional, familiar, escolar, quando a pessoa deixa de trabalhar por isso, não sai do quarto, para de tomar banho, de estudar. É o momento de procurar especialista. Mas é preciso uma avaliação. Levamos a uma avaliação psicológica e psiquiátrica para coletar informações e fazer o diagnóstico.
O vício é quando a pessoa já tem algum transtorno associado. Se a pessoa tiver ansiedade, depressão, alguma fobia. Se tiver uma compulsão, por exemplo, ela provavelmente vai ficar viciada em jogos, sites de compra, sites pornográficos, videogame.
A tecnologia é o canal de representação das características individuais de cada um. Ela apresenta um transtorno preexistente. A pessoa que tem a dependência patológica, passa mal quando se dá conta que está sem a tecnologia, mas por conta desse transtorno associado. Para detectar, é preciso um olhar especializado.
Então o vício vem acompanhado de outra doença?
O vício é a ponta do iceberg. Por trás do vício, tem outra doença associada. Uma compulsão, por exemplo. A pessoa usa a tecnologia para atender essa necessidade de compulsão.
Se ela é deprimida, vai para a internet para não se sentir só, mas pode piorar, pois ela pode acreditar que a vida dos outros é melhor do que a dela, como acontece nas redes sociais.
O tratamento é do vício em tecnologia ou das outras doenças?
O psiquiatra e o psicólogo vão investigar para o tratamento ser a questão primária.
Primeiro, é feita a avaliação, depois faz o tratamento e avaliação cognitiva e emocional para saber o que está acontecendo com ela. E temos um grupo para trabalhar o uso consciente da tecnologia. É um trabalho multidisciplinar para a pessoa entender o que está acontecendo.
De 100 pessoas que nos procuram pensando que são viciadas em tecnologia, porque usam todos os dias, durante muitas horas, 80 é falta de educação digital. Do total, 20% dessas pessoas têm essas doenças associadas.
Nas crianças, o que esse vício pode afetar?
É muito raro detectar vício em crianças. E quando se detecta, são os pais que não educam. Não se pode dizer que as crianças são viciadas, pois quem coloca a tecnologia a disposição e não dá limite são os pais. A tecnologia é muito sedutora e a criança gosta de brincar. É o adulto que tem que orientar. O erro é em relação ao adulto.
No caso dos jovens, o vício é diferente?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a reconhecer, em 2018, como transtorno mental a dependência de videogame. É algo muito sério, pois o videogame libera dopamina, que é o neurotransmissor que nos dá alegria e prazer. O cérebro se encharca de dopamina quando ele joga.
O jovem não sabe que isso acontece.
Quando não está jogando, ele quer voltar automaticamente a jogar, pois sem saber, é ali que está a alegria dele. É algo químico, e isso causa a dependência patológica do videogame.
Qual é o grande desafio dos pais diante de tudo isso?
É preciso ter educação digital. O trabalho é para que as pessoas aprendam a usar a tecnologia de forma correta.