A diversidade está longe de ser contemplada na maioria das empresas do País. Mas algumas grandes corporações estão desenvolvendo iniciativas que contribuem para “reparar” desigualdades históricas, como reserva de vaga para negros.
A iniciativa já existe no Estado, tanto com reserva de vaga no processo seletivo para ingresso no quadro de pessoal, quanto com uma meta estabelecida de quantos profissionais negros a companhia deve ter em um prazo determinado.
A Ambev, por exemplo, tem um programa de estágio para negros, desenvolvido, segundo a empresa, com a ótica de derrubar as barreiras ocultas e ampliar a representatividade racial na companhia.
Já a Suzano almeja contar, até 2025, com 30% dos cargos de liderança ocupados por mulheres e 30% por negros. A companhia estabeleceu metas envolvendo mais oportunidades para afrodescendentes para cargos não operacionais, e ambiente inclusivo, ainda, para LGBTQIA+ (sigla que inclui pessoas não heterossexuais) e, ainda, profissionais com deficiência.
Em relação ao público LGBTQIA+, o CEO da Heach Elcio Paulo Teixeira disse que as empresas têm metas de preenchimento de vagas, feitas à medida em que aparecem bons candidatos com condições técnicas para a oportunidade disponível.
Ele explicou que reservar uma vaga para uma pessoa devido a sua orientação sexual é discriminação. “Quando a empresa quer apostar na diversidade, ser gay, por exemplo, pode ser um diferencial no processo de escolha para compor uma equipe diversa. Mas, não um fator determinante”, destacou.
E lembrou que algumas áreas como arte, beleza e arquitetura são mais abertas para esse público.
A coordenadora de Ações e Projetos da Associação Grupo Orgulho Liberdade e Dignidade GOLD, Déborah Sabará, defende a reserva de vagas para as trans e travestis nos processos seletivos: “As pessoas afeminadas e as que são chamadas de masculinizadas ou as pessoas trans sofrem mais para conseguir emprego.”
Para a diretora de diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-ES), Cynthia Molina, é importante que, enquanto houver desigualdade, existam ações afirmativas.
“As empresas têm o papel de acolher a diversidade. Papel de reparação histórica”, enfatizou.
Inclusão
A consultora de Recursos Humanos Elaine Maria Dias, 55 anos, destacou que existe o preconceito e a discriminação, mas o principal obstáculo é como cada um lida com essa situação. “Isso me trava ou me impulsiona?”, indagou.
Ela explicou que na empresa onde trabalha há um trabalho muito forte com o público de entrada, para atrair mais negros, mulheres e LGBT+.
“É comprovado que pessoas diferentes enriquecem a empresa, trazem mais inovação, alavancam o resultado”, salientou.
Inclusão dá lucro às companhias
Ter colaboradores que pensam parecido não é um bom caminho para uma empresa que deseja ser inovadora, pensar fora da caixa e despontar no mercado. A diversidade, de pessoas e ideias, cria embates, diálogos e contribui para o crescimento profissional e pessoal e também dá lucro.
Para a diretora de diversidade da ABRH-ES, Cynthia Molina, quanto mais diversa a equipe, mais inovação ela cria. Além disso, é maior o engajamento. “As estatísticas mostram que equipes mais diversas produzem mais e empresas que investem em diversidade são mais lucrativas”.

Já em relação ao público LGBTI+, ela destacou que há uma maior dificuldade de conseguir emprego, principalmente para as mulheres trans e travestis, que costumam não conseguir concluir os estudos. Ela explicou que isso acontece por terem deixado a escola por sofrer bulliyng.
Ela detalhou que empresas que querem seguir rumo à diversidade devem fazer um senso para descobrir quais grupos estão presentes em seu quadro. “Se não sabe a diversidade que tem, como vai melhorar?”, questionou.
A partir daí devem ser desenvolvidas políticas para promover essa diversidade, código de conduta, grupos de afinidade, trabalho com as lideranças, entre outras iniciativas corporativas.
Saiba mais
Diversidade
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A sociedade é composta por pessoas diversas. Quando essa diversidade é acolhida dentro das empresas, a tendência é de aumento do lucro e diminuição da rotatividade. Além de ser uma mola para a inovação, criatividade, produtividade.
Negros
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Um levantamento da consultoria Talenses/Insper com 532 empresas apontou que 95% delas têm profissionais brancos como presidentes. Algumas empresas afirmam que faltam profissionais negros qualificados para os cargos de liderança.
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Para o coordenador do Círculo Palmarino, Lula Rocha, há uma questão histórica do não lugar que o negro acaba enfrentando na sociedade e que faz com que não tenham nem espaço para mostrar do que são capazes.
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Ele destacou que antes das cotas para negros nas universidades havia uma argumentação de que haveria queda na qualidade do ensino. Enfatizou que isso não aconteceu e já há estudos que comprovam que a média de desempenho dos alunos cotistas é melhor do que a dos não cotistas.
Mulheres
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Um estudo realizado pela empresa de análise e pesquisa DDI e pela Ernst & Young (EY) divulgado em 2018 mostrou que as empresas que têm 30% de diversidade de gênero – e mais de 20% no nível sênior – têm melhores resultados financeiros quando comparadas com as outras. O relatório Women in Business do ano passado, produzido pela consultoria Grant Thornton, revelou que no Brasil aumentou de 61% para 93% o percentual de negócios que têm pelo menos uma mulher no cargo de chefia no pais.
LGBTI+
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Dentro do grupo LGBTI+, as mulheres trans e as travestis são as que mais enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. Isso porque devido a discriminação na sala de aula, elas acabam não conseguindo concluir os estudos.
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A falta de um trabalho afeta a autoestima e contribui não só para jogar essas mulheres na prostituição, como também para casos de suicídio.
Pessoas com deficiência
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Existe no pais, a Lei de Cotas para Deficientes. Ela prevê que empresas com 100 ou mais funcionários tenham entre 2% e 5% de pessoas com deficiência em seu quadro.
Recrutamento às cegas para evitar preconceitos
O recrutamento às cegas já é uma realidade no Espírito Santo. Ele é utilizado com o objetivo de deixar os processos de seleção mais justos, com foco nas habilidades técnicas e comportamentais de cada candidato.
O processo se dá tirando do currículo informações que podem dar espaço para discriminação consciente ou não, como nome, idade, gênero, estado civil, número de filhos e endereço.
A Vale, por exemplo, implementou, desde 2018, o recrutamento às cegas no Programa de Trainee. Além disso, tem programas de capacitação da liderança que ajudam a trabalhar os vieses inconscientes.
A diretora de diversidade da ABRH-ES, Cynthia Molina, explicou que somente o recrutamento às cegas não ajuda a minimizar a discriminação, já que há outras etapas do processo. “Se não existir um trabalho com a liderança, a decisão final pode ter por base um viés inconsciente”.
Segundo ela, “há vários vieses inconscientes. Tem, por exemplo, o de afinidade, em que o líder busca contratar aquele que se parece com ele. As empresas estão tentando resolver e desenvolver iniciativas para identificar esses vieses e assim trabalhar para melhorar ainda mais”.

Ele afirmou que os profissionais da área de gestão de pessoas devem ajudar as organizações a combater os preconceitos, que, na maioria das vezes, são culturais.
Legalmente, as empresas não podem, por exemplo, anunciar vagas de emprego para homem ou mulher, discriminando por sexo. Contudo, muitas vezes elas anunciam a vaga para todos e pedem ao recrutador para escolher determinado sexo.
“A empresa diz que quer um homem para vaga, é preciso questionar, por que não uma mulher? Se ela tiver todas as competências necessárias? É preciso ajudar a quebrar esses paradigmas. Não podemos ser coniventes com isso”.
Defensor público entra com ação contra iniciativa
Uma grande loja varejista do País abriu um processo seletivo para trainees com vagas só para negros. A iniciativa que tem como objetivo reparar um déficit desses profissionais no quadro da corporação causou polêmica. Um defensor público da União entrou com uma ação contra a empresa alegando racismo reverso.
O coordenador do Círculo Palmarino, Lula Rocha, explicou que historicamente, em diversos espaços não existe a representação de pessoas negras. “Se observar em alguns lugares, como secretariado de alguns governos, em alguns cargos, verá ou a ausência de pessoas negras ou uma sub-representação”.
Ele observou que já se convencionou que isso é o normal. “Agora quando você tem medida para reverter esse quadro, esse debate aparece. Não há o incômodo com esse espaço sendo ocupado só por pessoas brancas, mas quando se fala em espaço ocupado por pessoas negras esse debate aparece”.
Ele enfatizou que racismo reverso não existe.
Saiba mais
Recrutamento
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Espera-se que um processo de recrutamento e seleção para uma vaga de emprego seja imparcial. Contudo, ele envolve pessoas, que têm preconceitos sejam conscientes ou não.
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Para garantir um processo mais justo, empresas têm somado o processo de recrutamentos às cegas com iniciativas para identificar os vieses inconscientes dos líderes e conseguir tratá-los ou mudá-los.
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Assim, durante o recrutamento não é de conhecimento do recrutador as informações que poderiam levar a discriminação e no final do processo, o candidato faz a entrevista com um líder mais preparado para não se deixar levar por preconceitos e vieses inconscientes. Focando no que o candidato tem para oferecer de habilidades técnicas e comportamentais.
Ação afirmativa
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São políticas desenvolvidas pela iniciativa pública ou privada para corrigir desigualdades.
Negro
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O coordenador do Círculo Palmarino, Lula Rocha, explicou que se usa a palavra negro, porque é a nomenclatura utilizada pelo IBGE para pessoas que se autodeclaram pretas e pardas.
Retirada de entraves
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Para apostar na diversidade e corrigir desigualdades históricas, algumas empresas estão desenvolvendo iniciativas de qualificação. Olhando o potencial dos candidatos e desenvolvendo juntos com eles as capacidades técnicas necessárias que ainda não tinham.
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A Ambev, por exemplo, fez uma mudança no processo de seleção do programa de trainee deste ano.
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A empresa disse, por meio de nota, que quer criar mais igualdade de oportunidades para selecionar candidatos com diferentes perfis e experiências de vida, mas algo em comum: seu alto potencial.
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Destacou que se antes havia barreiras – na forma de testes de inglês, por exemplo – agora esses entraves foram retirados e ainda desenvolvidos conteúdos para ajudar os inscritos a se prepararem em todas as etapas do processo.
Potencial
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Especialistas destacam que é importante olhar para o que cada candidato tem para oferecer, lembrando que algumas habilidades podem ser desenvolvidas.


Para apostar na diversidade e corrigir desigualdades históricas, algumas empresas estão desenvolvendo iniciativas de qualificação. Olhando o potencial dos candidatos e desenvolvendo juntos com eles as capacidades técnicas necessárias que ainda não tinham.