
O humor ácido da personagem inspirada nas damas da sociedade brasileira está de volta. Causa gargalhadas, mas também estranheza, até revolta. Como pode existir gente assim no mundo?
E é isso que Luis Miranda, seu criador, quer. “Nenhum outro personagem meu poderia fazer o que Madame Sheila faz. Hoje, quem tem um plano de saúde top, exclusivíssimo, não está preocupado se a empregada vai ser infectada. Para falar de um assunto tão duro, tão cruel, teria que ser com o requinte dela. Esse tipo de tapa só se dá com luva de pelica”, salienta ele ao AT2.
A conversa é sobre o espetáculo exibido todas as quintas-feiras, até o dia 19, no Teatro Unimed, online e gratuito. E é deliciosa! Ao contrário da personagem, Luis Miranda, 50 anos, é adorável, empático, um grande artista.
“Muito me engrandece fazer parte dessa trupe de gente maluca de teatro. Uma gente que tem sido humilhada e que foi tão generosa neste momento. É vergonhoso ver pessoas maltratando artistas. A gente devia abraçá-los mais”, diz ele. Tem razão.
“É uma sensação de estar de fato vivo”
AT2 Finalmente, Madame Sheila está de volta e você também. Como é vivê-la?
Luis Miranda Maravilhoso. Porque Madame Sheila me deu muitos presentes. É uma personagem muito vitoriosa. E trazê-la para o palco tem tudo a ver com o momento atual.
Quando eu entrei no avião para voltar para casa, por causa da pandemia, me veio toda uma leitura de sensações desse momento. E, junto a isso, vieram tantos casos, acontecimentos, me enchendo de informações absurdas vindas das damas da sociedade. Então, Madame Sheila nasce muito dona de si, entende? Sabendo exatamente o que dizer.
Ela causa risos, mas também constrangimento e até um pouco de dor…
É porque é um melodrama divertido. Isso não poderia ser feito sem sentimento. Madame Sheila tem que acabar emocionando. Tem que trazer esse riso que vira um sorriso inibido e vai ficando constrangedor.
Porque, quando a gente a vê, percebe a grande m… em que a gente está como sociedade, essa falta de amor ao próximo.
Como é estar de volta ao trabalho, à arte?
É uma sensação de estar de fato vivo. Parece que é um nascimento. Não porque eu achava que não pudesse voltar. Mas porque nunca pensei que eu pudesse parar.
Sendo obrigados a parar, repensamos o que fazemos, que importância isso tem, como eu ajudo a humanidade. E a gente percebeu que muito. O que mais serviu para acalentar os corações tristonhos foram as nossas peças, as lives do meus amigos.
A classe artística estava pronta para dar um pouco de alento, um pouco de carinho neste momento.
Uma das coisas que eu acho que mudará, para aqueles que quiseram despertar, é o conceito sobre a importância dos nossos artistas.
Madame Sheila é um “desaforo”. Você é um “desaforo”…
Adoro essa palavra, “desaforo”. (Risos)
E você também é a inspiração para atores, humoristas, negros, nordestinos. Como é isso?
Quando as pessoas falam sobre sucesso, eu sempre repito o que diz o Djavan: “Sucesso é você estar nos lugares que você quer, na hora que você quer, com as pessoas que você ama”. É estar cercado de amor, de carinho e de coisas boas e poder dividir isso com quem você ama. Isso é sucesso para mim.
É uma honra maravilhosa ver mais profissionais negros trabalhando, mais amigos sendo destaque. Isso me faz muito feliz. Porque não sou só eu. É o seu (Antônio) Pitanga, o seu Grande Otelo, o seu Milton (Gonçalves). Tudo isso é resultado também de um monte de gente que veio antes de mim e que me passou esse bastão.
O meu trabalho é para todos, para agradar e inspirar. E reverenciar os nossos companheiros, nos quais a gente se inspira. É o grande exemplo que podemos dar para os outros: precisamos dar os louros, dar o mérito, bater palmas para todos que nos inspiram.
Antes da pandemia, você recebeu o Prêmio Shell por “Irma Vap”. Que significado isso teve?
Cara, eu vou te dizer que me emocionou receber o Shell porque é um prêmio muito importante. Eu já tinha sido indicado antes e perdi para o Paulo Autran. Na época, eu nem estava ligando muito para o prêmio. Meu amor, eu precisava muito era do dinheiro, eu estava totalmente duro! (Risos) Mas o Paulo Autran ganhou.
Esse foi um prêmio de dupla, resultado meu e do Mateus Solano. Mas eu vi também como um prêmio de trajetória. Para coroar um momento. E acho que foi lindo, neste momento, fazendo cinquenta anos, ganhar o Shell e fazer “Madame Sheila”, com um texto meu, que é um privilégio defendê-lo.
Tudo isso me interessa. Só me ajuda a entender que o meu caminho é esse. O meu destino é esse.
“Madame Sheila”
O quê: Espetáculo de comédia com Luis Miranda
Onde: www.teatrounimed.com.br
Horário: Às quintas-feiras, sempre às 21h. O último ato será apresentado no dia 19 de novembro. Os oito atos da peça poderão ser vistos no site do Teatro Unimed até o dia 26 de novembro.
Classificação: Livre
Ingressos: Gratuitos
Duração: Até 8 minutos por ato