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Economia

Crise pode ser oportunidade para reforma tributária, avalia advogado

Desde a chegada da Covid-19 no Brasil, os governos municipais, estadual e federal têm lançado várias medidas para ajudar as empresas a enfrentar os ...

Advogado Samir Nemer destaca que medidas adotadas pelos governos buscam dar fôlego aos empresários

Última atualização

Desde a chegada da Covid-19 no Brasil, os governos municipais, estadual e federal têm lançado várias medidas para ajudar as empresas a enfrentar os efeitos da pandemia e reduzir os riscos à economia.

O setor tributário, que já requer bastante cautela em momentos normais, é um dos que mais tiveram mudanças e deve ser alvo de ainda mais atenção da classe empresarial.

O advogado tributarista Samir Nemer ressalta que “a depender do cenário que se avizinha, será recomendável estender a prorrogação do pagamento a outros tributos e, eventualmente, perdoar no futuro os tributos prorrogados ou então lançar um Refis (programa de recuperação fiscal)”.

Advogado Samir Nemer destaca que medidas adotadas pelos governos buscam dar fôlego aos empresários (Foto: Dayana Souza - 26/10/2019)

A Tribuna  – Os governos tomaram diversas medidas para auxiliar no enfrentamento da crise. Na área tributária, quais foram as principais?

Samir Nemer – O governo federal permitiu a prorrogação do pagamento de tributos, incluídos PIS, Cofins, FGTS, INSS patronal e Simples Nacional. Além da prorrogação de parcelamentos, desoneração temporária de tributos incidentes sobre a importação de bens para combater a Covid-19 e do IOF nos empréstimos.

O governo do Estado, por sua vez, prorrogou o pagamento do ICMS das empresas do Simples Nacional, e suspendeu protestos, rescisões de parcelamentos, ajuizamentos de execuções fiscais e cancelamentos de incentivos.

Quanto aos deveres formais, ambos os governos ampliaram serviços virtuais e prorrogaram a validade das Certidões Negativas de Débitos, bem como o prazo de diversas declarações que as empresas são obrigadas a prestar ao Fisco.

O senhor acredita que estas medidas são adequadas?

O grande ponto fora da curva até agora foi o veto do governo federal à prorrogação da desoneração da folha de pagamento de alguns setores econômicos, fundamental neste momento para manutenção dos postos de trabalhos.

Ao postergar os pagamentos dos tributos e reduzir outros, os governos buscam dar fôlego aos empresários que tiveram uma abrupta diminuição de receitas e, ainda assim, precisarão manter os salários de seus funcionários em dia.

Porém, a depender do cenário que se avizinha, será recomendável estender a prorrogação do pagamento a outros tributos e, eventualmente, perdoar no futuro os tributos prorrogados ou então lançar um Refis.

O governo federal possibilitou que empresas com dívidas tributárias possam fazer acordos para pagamento com descontos…

Sinceramente, esta medida não ajuda em nada as empresas a enfrentarem a atual crise. Parte da imprensa, inclusive, noticiou que seria um “novo Refis”, mas está longe de ser! A possibilidade de acordo limita-se a débitos antigos, já inscritos em dívida ativa, considerados pelo próprio governo como de difícil recuperação ou irrecuperáveis, ou seja, são os chamados “créditos podres”, que não expressam a realidade da maioria das empresas abatidas pela crise.

Avalio que o governo federal na realidade tentou amortecer uma eventual discussão sobre a necessidade de um Refis, que demandará o envio de projeto de lei ao Congresso Nacional.

Há alguma similaridade entre as medidas tomadas pelo Brasil com o resto do mundo?

Sim. Levantamento realizado pelo Insper demonstra que as medidas adotadas pelo País vão ao encontro das ações tomadas pelas principais economias do mundo, sendo a prorrogação dos tributos a mais citada dentre todas.

Além disso, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugere quatro fases a serem seguidas pelos países para enfrentamento da crise: a fase 1, aquela da resposta imediata, de contenção, de curto prazo; a fase 2, a depender do tempo de duração do contágio, para aprofundamento das medidas iniciais.

A fase 3, para recuperação, com início a partir da reabertura da economia, quando serão criados os estímulos fiscais necessários para expansão dos investimentos e do consumo, recuperação das empresas em crise e dos empregos perdidos; e fase 4, para estabilização, onde a política tributária deverá buscar a recomposição das finanças públicas, ao lado da recuperação da economia. Acredito que ainda estamos na fase 1, em transição para a fase 2.

E a reforma tributária, ajudaria a passar pela crise?

Sim, e a atual crise pode ser a grande oportunidade para sua aprovação. Na prática, a tendência seria que o peso dos impostos sobre alguns produtos, como alimentação e medicação, fosse reduzido e assim baixariam os preços dos produtos.

Por outro lado, a tributação sobre a renda teria um peso maior, fazendo com que a tributação aumente conforme mais renda e patrimônio o contribuinte tenha. Essa mudança inverteria o modelo atual que penaliza especialmente os mais pobres e traria mais racionalidade e simplificação, melhorando em muito o ambiente de negócios no país.

Atualmente a matéria está tramitando na Comissão Mista do Congresso Nacional.

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