Dependência excessiva dos pais, irritação, falta de apetite e insônia são alguns dos problemas que crianças da primeira infância, isto é, de zero a 6 anos, estão sofrendo durante o isolamento social provocado pela pandemia de Covid-19.
A informação foi apresentada em uma pesquisa feita pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI). Um dos estudos utilizados foi realizado na China, a partir de reações de crianças relatadas por pais.
Integrante do Comitê Científico do NCPI e professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Maria Beatriz Martins Linhares diz que as crianças de até 6 anos têm três eixos de regulação: fisiológico, emocional e comportamental.
“Quando há um ambiente de estresse, como o da pandemia, o corpo da criança reage desorganizando esses processos, que precisam estar regulados. Com isso, elas se sentem com mais medo e inseguras”, explicou.
Para a psicopedagoga Betina Serson, as crianças ficam ainda mais dependentes dos pais nesse momento porque estão tendo um tempo maior com eles, o que nunca haviam tido antes.
“Às vezes, sem perceber, os adultos fazem tarefas a mais para os filhos, e eles, por consequência, pedem mais atenção. Isso cria uma relação de dependência, que poderá afetá-los na volta à escola, em que terão de trabalhar a readaptação”, pontuou.
A psicóloga Bianca Martins aponta que os pequenos estão refletindo a insegurança dos pais diante da pandemia de coronavírus. “Há pais que perderam o emprego. Outros estão de home office. Tudo isso modifica o que a criança conhecia como mundo”.
Bianca pontuou ainda que o excesso de eletrônicos e telas também contribui para essas emoções.
Para a psicopedagoga e terapeuta Maria Tereza Samora, apesar de a situação também estar impactando os adultos, é preciso que eles façam as crianças entenderem sobre o que são capazes de ter controle e sobre o que não são.
“É importante que os pais trabalhem com as crianças a inteligência intrapessoal, isto é, a habilidade de identificar as suas próprias emoções e saber como lidar com elas. Em alguns casos, ouvir uma música ou pular corda podem ser boas opções”, explicou.
Alimentação e sono afetados
A biomédica Ana Carolina Sanches Ferreira Parmagnani, 34 anos, tem notado a filha Bianca Sanches Parmagnani, de 5 anos, mais dependente dos pais durante a pandemia.
“Antes, ela almoçava sozinha, mesmo eu estando do lado. Agora, se não a ajudarmos a comer, ela não come muito. O mesmo acontece na hora de escovar os dentes”, conta a mãe. Ana Carolina relata também que a filha tem ficado mais agitada neste período e que tem acordado mais vezes de madrugada.
“O que tento fazer para amenizar essa tensão é passar uns dias em um sítio, para ela conseguir brincar e aproveitar mais, sem ficar tanto tempo presa dentro de casa”, salientou.
Saiba mais
A pesquisa
- Parte da pesquisa realizada pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) baseou-se em um estudo feito em Shaanxi, na China, que analisou reações relatadas por pais de 320 crianças e adolescentes.
- O NCPI é composto por seis organizações: Fundação Bernard van Leer, Center on the Developing Child e David Rockefeller Center for Latin American Studies, ambos da Universidade de Harvard (EUA); Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Insper e Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
- As reações mais identificadas no estudo chinês foram dependência excessiva dos pais (36%), desatenção (32%), preocupação (29%) e problemas com o sono (21%).
Regressão
- As crianças têm um padrão de comportamento. Mas, em um momento de estresse, como o da pandemia, ele é ameaçado. Com isso, a capacidade de relacionamento, a independência e a autoestima delas são afetadas.
- Elas tendem a ficar com maior irritabilidade, a regredir comportamentos já dominados e a apresentar a fala mais infantilizada.
- Segundo a pesquisa, esses sentimentos ocasionados pelo isolamento social podem prejudicar os processos de aprendizagem, desenvolvimento e convivência das crianças.
- Até os 6 anos, a criança tem três eixos de regulação: fisiológico, emocional e comportamental. Quando ela se encontra em um ambiente de estresse, esses processos tendem se desregularizar, o que afeta o sono e a alimentação, por exemplo.
Estresse tóxico
- Quando a criança não compreende as mudanças de comportamento de familiares e as alterações na própria rotina, ela é afetada pelo que o estudo chamou de “estresse tóxico”.
- Esse estresse faz com que a criança tenha reações como: dormir mal, não comer bem, chorar, morder e demonstrar apatia ou distanciamento.
Alternativas aos pais
- Fazer uma receita junto com os filhos.
- Tirar um tempo para conversar com a criança e buscar ouvi-la, com empatia.
- Trabalhar a inteligência intrapessoal com o filho, para que ele entenda as suas próprias emoções e busque formas de aliviá-las.
- Incentivar a criança a ouvir uma música e a pular corda ou uma outra atividade que a acalme.
- Dar um abraço no filho.
- Inserir a criança nas tarefas simples da casa, como colocar o lixo para fora e/ou arrumar a cama em que dormiu.
- Diminuir o tempo de uso de eletrônicos e telas pelas crianças. O excesso pode aumentar a irritação, a insônia e a falta de atenção.
- Respeitar rotinas relacionadas ao horário de acordar, comer e dormir.
- Brincar com a criança.
- Transformar esse momento em algo afetivo e lúdico.
- Organizar a rotina e o espaço para a criança fazer a tarefa e brincar.
Brincadeiras para fazer junto com as crianças
- Brinquedos de montar.
- Massinhas de modelar.
- Quebra-cabeças e boliche .
- desenhos e pinturas.
- jogos interativos entre irmãos e com os pais.
- artesanatos, inclusive para fazer brinquedos caseiros.
- Teatro de fantoches.
- filmes e séries em família.
- gincana e mímica.
- bolhas de sabão.
- jogos de tabuleiro.
- Caça ao tesouro e brincadeira do “morto-vivo”.
Fonte: Estudo do NCPI, especialistas consultados e pesquisa AT.

