O futuro do filho é uma das principais preocupações dos pais. Saber se os métodos usados são os melhores para que eles tenham sucesso e sejam feliz, muitas vezes, é um mistério.
No entanto, o pediatra integral – que trata e previne doenças, mas cuida do bem estar emocional da criança –, palestrante e psicoterapeuta Daniel Becker ressalta que os pais podem oferecer subsídios, mas não podem assumir a responsabilidade da felicidade dos filhos.

PERFIL: Daniel Becker
Médico pediatra com experiência de 20 anos em consultório privado no Rio de Janeiro. Mestre em Saúde Pública, na área de Promoção da Saúde. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Palestante, tem formação em Psicoterapia e vivência nos campos da educação, psicologia, saúde integral, consumo, entre outros, todos relacionados à criança, que o ajudaram a compor a sua abordagem em pediatria integral.
Autor do “O que é Adolescência”, pela Editora Brasiliense, que já vendeu mais de 80.000 cópias.
A Tribuna: Os pais sempre querem a felicidade de seus filhos. Quais os meios hoje para conseguir isso?
Daniel Becker: Ninguém pode assumir a responsabilidade total pela felicidade de outra pessoa, nem mesmo um pai ou mãe sobre um filho.
Eles têm de entender que as crianças terão inúmeras outras experiências, que não são apenas com os pais. Na escola, nos esportes, com os amigos e na adolescência, essa influência aumenta muito mais.
A paternidade então não é o único determinante da felicidade de uma pessoa. Os pais não podem assumir a felicidade de um filho.
Claro que os pais são responsáveis por oferecer subsídios, como educação, disciplina, amor, vínculo que essa criança vai ter como base da construção da sua felicidade, mas não são os pais que determinam se essa criança vai ser feliz ou não.
A Tribuna: Por que não são responsáveis? Não são eles que dão subsídios, educação para que eles se tornem felizes ou não?
Daniel Becker: O problema é justamente que os pais são frequentemente responsabilizados pelos manuais, internet, como se fossem responsáveis pela felicidade dos filhos. Isso é uma ilusão! A gente achar que consegue tornar uma pessoa infeliz ou não é uma ilusão.
Mas, claro que temos de fazer nossa tarefa como pais e mães, que é criar o filho com valores, presença, convivência, intimidade, amor, afeto, toque, respeito, disciplinas e limites bem dados.
Porém, sem imaginar que nossa ação única como pais e exclusivamente ela vai ser determinante da felicidade de quem ele vai ser.
Isso se chama determinismo: se fizer como eu mando, ele vai ser feliz. Isso é terrorismo que se faz com pais e mães! Uma criança que vive em situação de violência, claro que está construindo uma base para que ele seja infeliz. Mas felicidade depende de muitos fatores.
A Tribuna: Como construir essa relação saudável então, para esse caminho à felicidade?
Daniel Becker: Estarem juntos em família, especialmente em um passeio, em uma viagem, praia, praça, parque urbano, área de natureza, é sempre muito benéfico. Promove a convivência em família e é fundamental.
Para crianças, é através da convivência que se cria o vínculo e isso é essencial para a formação da personalidade e estrutura delas. É em cima desse vínculo inicial com os pais que se constrói todo o resto. O ser humano se desenvolve com contato e interação com o outro.
Brincar livre na natureza estimula a criatividade das crianças e ajuda com que elas identiquem riscos no dia a dia. Ela vai ficar mais curiosa, descobridora de possibilidades.
Isso traz uma série de benefícios, competências para elas e faz bem para a saúde física, imunidade, reduz as alergias, traz tranquilidade, afasta das telas (de celular). Elas se tornam mais atentas, concentradas, mais focadas.
A Tribuna: O senhor diz que falta intimidade entre pais e filhos. Por que acha que isso acontece?
Daniel Becker: Falta intimidade porque falta convivência. Não há como conhecer um filho se não convive com ele, se o pai entrega a criança na creche às 7 horas e pega às 19 horas, dormindo.
A convivência está cada vez diminuindo mais, a pouca que temos está sendo dominada pela interferência de celular, que é terrível, o que gera o que chamamos de “parentalidade distraída”. Isso está causando uma série de problemas nas crianças e adultos também.
Com isso, os pais educam com medo, a criança convive com medo. Quando não têm intimidade, muitas vezes, a educação descamba ou para permissividade excessiva, que são aquelas pessoas que não conseguem dar limites com medo da reação dos filhos, porque estão culpadas por não ter a convivência com eles, ou para o autoritarismo, que é pior ainda. São pessoas que não conseguem controlar o filho, porque não o conhecem.
A Tribuna: Mas há pais que se sentem culpados de não ter esse tempo com os filhos. Essa culpa é normal? Como lidar com ela?
Daniel Becker: A culpa por não conviver com os filhos é natural e saudável. Se temos filhos, temos de priorizar a convivência. Nos tornamos responsáveis por aquela pessoa e a única forma que se tem de cuidar é estando com ele, não tem como terceirizar todo o cuidado.
Ter filhos tem de ter um sentido e esse está no cuidar, no conviver, está em dar ao filho as condições para ser feliz.
Não é ser responsável pela felicidade do filho, porque ninguém pode ser, mas trazer para ele condições de vida que facilitem a tarefa para que ele mesmo construa a sua própria felicidade.
Então, essa é uma culpa necessária, e ela deve ser vivida exatamente dessa forma. Não deve ser motivo para se martirizar, mas pode ser um sinal de que é preciso dar prioridade, mudar de rumo e dedicar mais tempo ao convívio com a criança.