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Democracia não pode ser ameaçada por mensagens falsas

Sigmund Freud, em seus estudos sobre a psicologia das multidões, asseverou: “A massa só é excitada por estímulos excessivos. Quem quiser agitá-la não ...

Bruno Aguilar Soares

Última atualização

Sigmund Freud, em seus estudos sobre a psicologia das multidões, asseverou: “A massa só é excitada por estímulos excessivos. Quem quiser agitá-la não precisa argumentar logicamente, basta utilizar as imagens mais fortes para pintar, exagerar e repetir sem parar a mesma coisa”.

Neste sentido, parecia antever o despertar desta sociedade digital, onde a profusão pelo ciberespaço de notícias falsas, as chamadas “Fake News”, se assentam como um complexo fenômeno de manipulação social e afronta à credibilidade do direito à informação nas democracias contemporâneas.

A internet como instrumento social de comunicação se converteu de forma paradoxal na simbolização moderna do mito de Prometeu, pois, ao subverter a lógica até então vigente do monopólio institucional da comunicação, promovida pelas instâncias reguladoras da mídia tradicional, possibilitou não apenas a sua democratização, mas também a disseminação dos conteúdos mais diversos, de um modo que a humanidade jamais havia experimentado.

Contudo, percebe-se atualmente que este aumento exponencial da informação circulante não tem representado de maneira plena o desenvolvimento do conhecimento e da racionalidade.

Muito pelo contrário, a polarização e a cizânia têm sido duas de suas características mais lamentavelmente demarcadas.

Num cenário em que cada vez mais os países estão conectados pelos meios telemáticos, ao invés de uma exaltação da pluralidade do pensamento, novos muros estão sendo erguidos para acomodar bolhas de raivosas convicções pelo mundo virtual.

Vivenciamos a era da pós-verdade, momento caracterizado pela dissolução discursiva das certezas que se estabeleceram no transcorrer da história, e a contestação incessante de valores, saberes e tudo aquilo que se mostra consolidado pela concretude fática, com o propósito de direcionar a avaliação da opinião pública para um determinado assunto.

Embora potencializem a liberdade de expressão, as redes sociais também contribuem para um dogmatismo do pensar, numa pulverização da mentalidade de castas digitais, e assim promovem a farsa do pseudodebate.

Nele, crenças de certos grupos tentam se impor pela massificação de mensagens que corroborem suas próprias visões, independentemente de sua veracidade ou origem, pois, ao final, o que importa não é a pertinência dos argumentos, mas sim a constatação satírica de seu sofisma predileto.

Numa perspectiva em que a realidade se projeta como expressão da linguagem, surge o desafio de não permitirmos que nossa experiência pela rede esteja sujeita aos delírios esquizofrênicos de uma alucinação conspiratória.

Bem como a sustentabilidade de nossa democracia não seja afetada pela ausência de credibilidade informacional, pois a liberdade de comunicação não pode ser utilizada como subterfúgio para proliferação de mensagens enganosas.

Portanto, nessa guerra de desinformação que se estabeleceu no ciberespaço, percebe-se a manifestação totalitária da pretensão de controle opressivo da autonomia e do conhecimento coletivo, segundo os ditames neorwelianos de um ministério da pós-verdade.

Logo, o combate a manipulação social, por meio da pulverização das fake news, se apresenta como demanda de primeira ordem para assegurar o desenvolvimento ético e transparente desta sociedade da informação em que pretendemos conviver.

Bruno Aguilar Soares é gerente fiscal da Secretaria de Estado da Fazenda do Espírito Santo
 

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