De volta ao Estado ontem após cinco dias auxiliando nas operações de resgate das vítimas da tragédia da região de Brumadinho, em Minas Gerais, o major Wesley Nunes, piloto do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer) e bombeiro, relembra o trabalho no local atingido pelo rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão.
“Nós tivemos uma nova percepção da tragédia: o cheiro da destruição, das vítimas e dos animais mortos”, conta o militar sobre o impacto ao chegar a Brumadinho. Até o momento, o rompimento matou 142 pessoas e deixou 194 desaparecidas. Wesley e os outros quatro militares que retornaram ao Estado são membros do Notaer. Eles formam uma equipe de dois pilotos, dois tripulantes operacionais e um mecânico de aeronaves.
“O que vimos lá era um cenário de guerra. Por onde o rejeito passou, não sobrou nada”, continuou o piloto, que na missão teve a companhia do capitão Marcelo, os subtenentes Erick e Sandro Dal Bem, além do cabo Paulo Gomes, bombeiro.
Todos eles chegaram a Vitória a bordo do helicóptero Harpia 2. A aeronave pousou no fim da manhã de ontem no Quartel do Comando Geral, em Maruípe, na Capital.
Um dos momentos mais emocionantes da operação, segundo o major, foi a Missa de Sétimo Dia pelos mortos na tragédia.
Na ocasião, as aeronaves despejaram pétalas de rosas em homenagem às vítimas. “Todos os profissionais fizeram uma continência e um minuto de silêncio. Foi um momento emocionante para todo mundo. Ali tivemos de engolir o choro”, recorda.
O trabalho dos capixabas em Brumadinho começava logo ao nascer do sol, e ia até o fim do dia. “As equipes iam removendo os corpos. À medida que eram localizados, todos eles eram retirados pela aeronave”, conta Wesley.
A aeronave do Notaer transportou 40 equipes de busca, totalizando 130 militares para a chamada “zona quente”, atingida pela lama, e transportou 11 corpos ao longo de 20 horas de voo.
“Nós fazíamos o transporte dos corpos – ou dos segmentos de corpos, pois eles, em sua maioria, não estavam inteiros”, explicou o major, dando uma prova da violência do deslocamento dos rejeitos.
Embora os militares sejam experientes e treinados, é difícil não se emocionar, segundo o major. “Por mais que a gente tenha uma preparação, é uma situação que foge à normalidade. Conversando com as pessoas e bombeiros em operação, sentimos a comoção da população e dos bombeiros”, comentou.
Reencontro com filho emociona bombeiro

Ao ver o pai deixando a aeronave, Samuel, de 5 anos, correu para os braços do pai. “Estava sentindo muita saudade”, disse o pequeno. Para o subtenente, ser recebido dessa forma deu, de alguma maneira, a sensação de missão cumprida.
Dal Bem contou que se emocionou também ao ver, ainda do alto, a bordo do helicóptero, que a família estava esperando por ele no Quartel do Comando Geral, em Maruípe, na capital.
“Além de toda a carga emocional que a gente passou lá, cheguei, na hora que pousei, vi uma cabecinha no cantinho, e vi minha esposa. Confesso que segurei minha emoção dentro da aeronave, porque eu não esperava”, comentou.
Ainda de acordo com o subtenente, todo esse carinho é recompensador. “É muito gratificante, depois de uma missão tão importante, ter a família para nos receber de braços abertos”, disse ele.
“E eu sou muito apegado a minha família. Para mim, é essencial para manter a vida numa rotina bem tranquila”, complementou o mecânico de aeronaves.
Tempo chuvoso adia viagem

“Os cinco decolaram, mas, devido ao mau tempo, tiveram de retornar. Hoje (ontem), eles não decolam mais. Não há condições”, explicou o major Cristian Amorim, porta-voz do Notaer. Os cinco militares citados pelo major são: os pilotos major Dalvi e capitão Pablo, os tripulantes sargento Andrade e cabo Welquerson, além do mecânico cabo Lande.
Todos eles tiveram um encontro com os militares que voltaram de Brumadinho. “Houve uma troca de experiências. Eles falaram como funcionam os trabalhos lá, na localidade”, explicou o major. Ainda de acordo com Amorim, caso o tempo não melhore, não há previsão para que os capixabas voem para Minas Gerais.
“Os militares estarão prontos para voar, a partir das 6 horas (de hoje). Mas eles não podem voar sem contato visual com o terreno”, explicou. Tudo depende de uma melhora no tempo. “Assim que tiver condições de deslocamento até Minas Gerais, eles ficarão prontos para decolar”, disse.
