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Veja o que quatro especialistas dizem sobre educação dos filhos

“Filhos têm de enfrentar desafios da volta às aulas”Por Lucas Rezende“Os filhos têm de enfrentar sozinhos os desafios da volta às aulas. E, neste ...

Veja o que quatro especialistas dizem sobre educação dos filhos
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“Filhos têm de enfrentar desafios da volta às aulas”Rossandro Klinjey diz que não deixar que a criança tenha autonomia faz com que ela nãodesenvolva habilidades emocionais (Foto: Rondinelle de Paula )

Por Lucas Rezende

“Os filhos têm de enfrentar sozinhos os desafios da volta às aulas. E, neste momento de novos ciclos e desafios da infância e adolescência, é preciso tomar cuidado com a superproteção. Ela é tão perigosa quanto o abandono”.

A análise é do palestrante, escritor, psicólogo clínico e mestre em saúde coletiva Rossandro Klinjey. Ele é um fenômeno nas redes sociais e autor de livros como “Help: me eduque!” e “Eu escolho ser
feliz ”, Rossandro dividiu com a reportagem suas impressões sobre o que chama de “educação doméstica”.

A TRIBUNA – Proteger os filhos ou deixá-los enfrentar seus problemas sozinhos, sobretudo nessas voltas às aulas: qual o ideal?
ROSSANDRO KLINJEY – Deve haver um equilíbrio entre respeitar os ciclos dos filhos, acolher as angústias, mas não resolver por eles. Uma parte da tarefa da educação doméstica é formar pessoas
autônomas, independentes, e não dependentes eternamente.

É preciso explicar que os problemas fazem parte da vida, e que o filho vai conseguir se adaptar como em outros momentos. A voltas às aulas é sempre uma oportunidade de ensinar.

Os pais precisam é tranquilizar qual é realidade atual e que ela vai conseguir se adaptar. O certo é dar o suporte remoto, para a criança ter de enfrentar sozinha as adaptações. A tarefa é dela, porque ela não terá o pai para ficar fazendo por ela no futuro.

> A palavra-chave, então, é autonomia?
A criança precisa andar com as próprias pernas. O objetivo sempre de uma educação é gerar autonomia. Se ela tem de enfrentar uma nova escola, por exemplo, tem de ter um suporte, mas vencer com autonomia seus desafios.

> E quando os pais não abrem caminho para que esses obstáculos sejam vencidos sozinhos?
Estraga o filho. O pai não poderá fazer isso o tempo todo para o filho. Você vai fazer isso no trabalho do seu filho depois? O pai precisa gerar autonomia, para ensinar a criança a como aprender, a como crescer, vencer seus medos, suas angústias. Ele está ali, mas não vai fazer a
tarefa por ela. É como fazer os exercícios da escola pelo filho. Pode haver o desenvolvimento de
um autofracasso e incompetência.

> Há os pais superprotetores…
A superproteção é tão perigosa e nefasta quanto o abandono, porque você vai lidar com uma pessoa fragilizada que não teve liberdade para se desenvolver. Uma coisa é buscar informações sobre a vida do filho, cercar de cuidados. Outra coisa é invadir o espaço e nunca deixar a criança ter autonomia, porque assim ela não vai desenvolver as habilidades emocionais e competências de um adulto, nem ter capacidade de suportar críticas.

> Na nossa sociedade, o que tem observado?
Estamos tendo muito mais superproteção exagerada. Tem a ver com os pais do presente. Os pais do passado não têm essa preocupação. É a ideia de que os filhos não vão passar pelo que eles passaram, não vão sofrer – não à toa temos a geração mais suicida da história. Os pais querem resolver tudo pelos filhos. Aí quando a vida vem com toda força, eles não tiveram treino e não suportam.

Tem coisas que é preciso passar na infância para suportar na adolescência, na fase adulta. Imaturos não desenvolvem habilidades.

> Quais as outras consequências que esse filho superprotegido terá?
No curto prazo, é uma criança que estará sempre demandado atenção dos pais. No médio prazo, vai ser uma pessoa mimada, fragilizada e vitima de bullying – os colegas vão perceber as fraquezas e tripudiar. Depois, será um adulto inseguro – que não termina cursos, que não se forma, que vive na dúvida e com pouca habilidade para o mundo competitivo do trabalho.

> Como os pais podem evitar esses erros na educação?
Os pais devem se perguntar: “E se eu morresse hoje? Meu filho estaria mais dependente ou independente? Será que ele vai conseguir se virar? Consegue resolver a vida de forma eficiente? Ele deve lembrar da educação que recebeu. O que seus pais fizerem com você?”

Os pais têm uma tendência de provocar sempre felicidade e prazer para os filhos. Há uma tendência alucinada de que tudo seja divertido, mas a vida não é assim. E a escola é cansativa, repetitiva e exaustiva, porque o processo de adição de conhecimento não é uma coisa simples. Então se você
quiser apenas uma diversão, não vai aprender.

> É preciso entender os riscos da educação doméstica….
Sim! Crianças desrespeitam os pais porque não veem os pais líderes e, por sua vez, também não respeitam o professor e não dão atenção à educação. Falta informação moral, sobretudo em relação ao respeito aos idosos. E é preciso levar em consideração o seguinte: os filhos dessa geração vão concorrer com inteligência artificial, com robôs, vão ter de ser muito mais bem treinados do que nós somos e ter mais competências do que a gente precisa.

Favela Digital é livro de David Nemer sobre a desigualdade digital que foi realizado há 5 anos em comunidades carentes de Vitória (Foto: Fabio Tito)Tecnologia para o futuro dos jovens

Por Luciana Pimentel

“A internet nos dá acesso à informação e, quando convertida em conhecimento, é uma forma de poder”. Essa é a opinião do capixaba David Nemer, referência em Antropologia da Informática e professor da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos.

Em entrevista à reportagem de A Tribuna, o especialista destacou que a tecnologia empoderou e fez diferença, principalmente para as minorias — jovens, mulheres, negros e comunidade LGBT — em um país historicamente patriarcal.

Ele lembrou que um dos maiores desafios da atualidade é a geração de conteúdo de qualidade, que
possa ser absorvido de forma crítica para que, de fato, o conhecimento seja aproveitado e faça diferença no futuro das novas gerações.

O professor lembrou que a expansão tecnológica não pode mais ser freada, então é preciso dar mecanismos para as pessoas fazerem bom uso dessa ferramenta.

A TRIBUNA – A imersão em novas tecnologias nos aproximou do mundo virtual, mas afastou do real?
DAVID NEMER – O que vejo nas pesquisas é que a vida on-line e off-line são complementares. Hoje, a internet e a tecnologia estão cada vez mas inseridas nas nossas vidas, então é mais esperado que esse tipo de engajamento complemente a nossa vida e amplie o nosso conhecimento.

Estamos trocando mais mensagens no WhatsApp sem substância, mas, ao mesmo tempo, essas mensagens nos levam a ter contato físico com o outro depois.

A gente não passa mais de uma hora conversando, escrevendo cartas, pois estamos mais interativos, mas o isolamento não está acontecendo, porque essas mensagens geram encontros off-line.

> De que forma o acesso à tecnologia pode mudar a realidade dos jovens?
As pessoas ficam mais empoderadas e adquirem maior conhecimento. Quem está sempre conectado pode conversar com um parente que não pode visitar pessoalmente, pois ele vive em uma zona de conflito, por exemplo.

Acompanhei uma menina de 15 anos que não sabia ler e escrever e aprendeu porque queria conversar com os amigos no Facebook. As pessoas usam a internet para procurar emprego, se inscrever em programas sociais e ficar por dentro das informações da própria comunidade.

> Que nível de importância se deve conferir à inserção digital em um país com carências sociais e educacionais como o Brasil?
O acesso ao computador te dá oportunidade de alfabetizar alguém, de criar manifestações sociais positivas, mas tudo isso é limitado. Você melhora a situação dos marginalizados, mas a tecnologia sozinha não tem esse poder e ela é o futuro dos jovens.

Quando você fala que vai distribuir computador, os resultados não aparecem se não forem associados a programas educacionais. Ele é uma ferramenta, não um agente de mudança social. Esse agente é a educação, é a escola.

> Qual é o principal entrave hoje para ampliar a inclusão digital no Brasil?
A crença na falácia de que quanto mais computador e tecnologia melhor. Muita gente acredita nisso, inclusive os políticos, então acabam legislando de forma equivocada. É preciso pensar além: em quem vai usar e como vai usar.

Falta entendimento sobre a necessidade de programas sociodigitais que façam com que a pessoa se aproprie da tecnologia, não só a utilize.

> A carência de educação digital potencializa a disseminação de fake news?
Sim. Quem não tem instrução, tem uma arma na mão que pode ser usada para disseminar conteúdo falso. Vimos isso acontecer nas eleições dos Estados Unidos, em 2016, e na do Brasil, em 2018.

Pessoas de meia idade, de 50 anos ou mais, são as maiores propagadoras de fake news e não é por má-fé, mas porque realmente acreditam que aquela informação é verdadeira. Eles não tiveram educação tecnológica de se engajar e conferir se aquela informação é verdade.

>Você fez um estudo sobre a desigualdade digital em comunidades carentes de Vitória há cinco anos. De lá para cá, alguma coisa mudou?
Com certeza! Quando fiz minha primeira pesquisa nas comunidades da Penha, São Benedito e Itararé, quase ninguém tinha smartphone e seu uso era limitado porque o pacote de dados era caro e o sinal na comunidade ruim. Grande parte dos moradores usava lan houses e, agora, muita gente já tem seu próprio celular e usa o sinal de wi-fi.

>O Brasil ainda precisa avançar nos estudos de ciência e tecnologia?
Nós estamos atrasados com certeza, mas existem esforços da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Universidade de São Paulo e da Unicamp. São cientistas engajados para inovar e buscando soluções justamente para sanar problemas que são próprios do brasileiro.

Existe vontade, mas falta investimento na área. Só para você ter ideia, o orçamento anual para a
área da tecnologia, só da nossa universidade, é de US$ 316 milhões (R$ 1,2 bilhão) anual.

> Qual é o papel da tecnologia na transformação do mundo?
A tecnologia amplifica vozes marginalizadas. Ela colocou em debate questões raciais e de gênero,
dando oportunidade aos movimentos de identidade e reconhecimento se posicionarem e serem ouvidos. Essas questões ficaram adormecidas durante muito tempo e a tecnologia — e o conhecimento que vem junto com ela — pode levar a sociedade a um patamar mais inclusivo.

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