Com a transformação dos nossos rios urbanos em “valões de esgoto a céu aberto”, além de toda a biodiversidade morta, destruímos a nossa história mais profunda. Uma agressão à própria identidade capixaba.
Os rios recebem muito esgoto bruto, tendo a colaboração da população, que não se preocupa em ligar o esgoto dos seus imóveis à rede pública de esgoto, e essa não consegue cobrir toda a cidade. Colabora também, com a morte dos rios urbanos, o desmatamento e o uso desordenado do solo.
Os rios urbanos capixabas tiveram uma importante participação na história.
Um exemplo que pude acompanhar em Vila Velha, foi a grande transformação do então Rio da Costa, ou Rio Santa Cruz, que, a partir dos anos 1960, passou por grandes modificações no seu percurso, tendo o seu nome mudado para Canal da Costa.
O então Rio da Costa era piscoso, sofria, e sofre os efeitos das marés, era navegável e balneável. Importante para a cidade.
Temos relatos do então engenheiro Antonio Ataíde, em 1894, sobre as costumeiras enchentes, provocadas pelas cheias do Rio Jucu, que vinham até o centro de Vila Velha, na altura da rua 7 de setembro.
A maior das enchentes ocorreu em março de 1960, quando as águas do Rio Jucu romperam o dique urbano de Guaranhuns e transpôs suas águas para a bacia do Rio da Costa.
O Rio da Costa desemboca na barrinha ao lado do 38º BI, em frente ao Morro do Moreno. Ele tinha um curso sinuoso, e passava ao pé do Morro do Moreno, onde surgiu o Conjunto Habitacional dos Sargentos do Exército, no Parque das Castanheiras, Praia da Costa.
Cruzava a atual Avenida Champagnat na altura do Colégio Marista, onde havia uma ponte construída pelo governador Florentino Avidos, em 1928.
Até onde recebeu o Canal Bigossi, o Rio da Costa era seguramente um rio navegável.
Em 1960, os serviços de dragagens escavaram um novo itinerário do Rio da Costa, decretando-lhe a morte.
Com a expansão imobiliária, muito esgoto fora captado dos novos canais e jogado dentro do leito do Rio da Costa.
As escavações prosseguiram com desapropriações até a foz na barrinha, ao lado do 38º BI. Começou a receber grande carga de esgoto sem tratamento a partir de 1970. Foi limpo pela primeira vez, ainda que parcialmente, em 1983. Depois, em 1989, foi limpo novamente, e realizada canalização do mesmo, no Bairro Coqueiral de Itaparica.
Na minha infância, nos anos 1960, quando vínhamos da Praia da Costa, pela rua Castelo Branco, podíamos mergulhar no limpo Rio da Costa, retirar o sal da água do mar, atravessar a nado uma distância de uns 6 metros, com no máximo dois de profundidade.
A sua água, me lembro bem, era de cor avermelhada devido raízes de vasto manguezal que tinha sua bacia. A ponte da Avenida Castelo Branco, que liga a Praia da Costa a Vila Velha foi construída em 1972 pelo governo estadual.
Não adianta colocar somente na conta da população esse passivo. Faltam atendimentos de infraestrutura de redes de esgoto e águas pluviais, o que ainda é muito deficiente. Os rios urbanos cortam áreas onde não tem rede de esgoto eficiente, um grande problema.
Pouquíssimo ou quase nada dos meandros do Rio da Costa restou.
Manoel Goes Neto é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha