
E a dor emocional por ter essas doenças, será que é mais intensa que a dor física? O neurocirurgião com título mundial de intervencionismo pelo Instituto Mundial da Dor (WIP) Lúcio César Hott Silva acredita que sim.
“Com certeza. A dor crônica gera muito sofrimento emocional e, muitas vezes, há a necessidade de se associar tratamentos com antidepressivos, ansiolíticos e acompanhamento destes pacientes com psicoterapia e até psiquiatria”, salientou o especialista.
Mas será que, no futuro, será possível zerar a dor completamente? Hott explicou que a dor faz parte do ser humano e, de forma aguda, serve como sinal de alerta. Mas que será possível sim reduzir drasticamente a sua incidência.
“Dificilmente haverá medidas capazes de fazer um controle global das crônicas, mas sabemos que se uma pessoa conseguir ter uma alimentação saudável, ingerir menos produtos industrializados, processados, glúten e açúcar, muitas dores podem se reduzir drasticamente”, pontuou o especialista.
Hott é o atual presidente do Capítulo Brasil do Instituto Mundial de Dor (WIP) e também preside o Capítulo América Latina da Academia Mundial de Medicina da Dor por Ultrassonografia (WAPMU). No fim do mês passado, coordenou o encontro internacional Meet The Expert, que aconteceu no São Bernardo Apart Hospital, em Colatina, Noroeste do Estado.
No evento, grandes especialistas da Medicina intervencionista da dor compartilharam conhecimentos e debateram novas terapias. Entre eles, Einar Otesttad, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e Mark Hurdle, da Clínica Mayo, que é referência no país americano e recebe pacientes do mundo inteiro para atendimento médico.
A Tribuna – Quais são os maiores desafios da Medicina hoje no combate às dores crônicas?
Lúcio César Hott Silva – O maior desafio em se tratar uma dor crônica é saber qual o real motivo de a pessoa estar com aquela dor. Dor crônica não quer dizer que a pessoa irá ter dor para o resto da vida, mas sim que aquela dor não é mais aguda, ou seja, que já se passou o tempo de que uma patologia aciona o sistema de dor para demonstrar que algo não está bem com aquele corpo.
A dor crônica é a própria patologia, não mais um sinal de alerta, e que gera sofrimento, perda na qualidade de vida, depressão, ansiedade, diminuição da capacidade de realizar tarefas que antes eram cotidianas.
Dores emocionais podem ser mais intensas que dores físicas?
Com certeza. A dor crônica gera muito sofrimento emocional e, muitas vezes, há a necessidade de se associar tratamentos com antidepressivos, ansiolíticos e acompanhamento destes pacientes com psicoterapia e até psiquiatria.
O Espírito Santo sediou evento internacional para debater as dores crônicas. Quais são as novidades na área?
Discutidos qual a melhor maneira de se controlar a dor do paciente com câncer, se pelo uso de remédios ou procedimentos minimamente invasivos. Também, de forma abrangente, foram discutidas as melhores formas de se tratar as dores degenerativas articulares, se pelo uso radiofrequência ou com medicina regenerativa, inclusive com abordagem em relação à injeção de células-tronco.
Pode falar um pouco mais sobre essas técnicas?
A terapia por radiofrequência está permitida pelo Conselho Federal de Medicina, porém, a medicina regenerativa, que usa o sangue da própria pessoa, que é processado gerando as famosas células-tronco, ainda não está homologado no Brasil.
O que se tem visto em inúmeros casos é que o paciente apresenta melhora com a medicina regenerativa, mas ainda não temos protocolos bem definidos de preparo destes pacientes para receber as células-tronco, bem como não há uma padronização de processamento do sangue autólogo e de número de sessões necessárias para os tratamentos. No geral, vemos com bons olhos ambas as terapias e consideramos que possam, inclusive, ter usos simultâneos.
Podemos citar avanços medicamentosos no tratamento para dor?
Além da discussão corriqueira sobre os diversos medicamentos já existentes no mercado brasileiro, como analgésicos, opioides, antidepressivos, houve uma ampla discussão sobre o uso da maconha medicinal (cannabis), englobando seus diversos aspectos positivos e negativos no paciente que se queixa de dor. Mas esse assunto ainda necessita de muito estudo para que se possa tirar conclusões mais concretas.
No futuro, será possível reduzir ou até zerar a dor?
A dor faz parte do ser humano. De forma aguda, servindo como sinal de alerta. As crônicas, por diversos outros motivos, dificilmente haverá medidas capazes de fazer um controle global.
Mas sabemos que se uma pessoa conseguir ter uma alimentação saudável, ingerindo menos produtos industrializados, processados, glúten, açúcar, muitas dores podem se reduzir drasticamente. Associo a esta orientação a prática diária de atividades físicas e também uma boa noite de sono, visto que muitos hormônios são liberados durante a madrugada.