Sorriso no rosto é a marca registrada da ginasta Geovanna Santos, de 17 anos, seja em cada apresentação no tablado ou na conversa com a reportagem. Mas ultimamente, os risos da jovem atleta são acompanhados por uma pontinha de preocupação.
O motivo: a capixaba é uma entre milhares de jovens atletas que sofreram com o corte no Bolsa Atleta federal, programa do governo de incentivo ao esporte.
No final de 2018, o governo publicou a lista de beneficiados a partir de fevereiro. Nada menos que 2.772 esportistas (corte de 47,5%) perderam o auxílio, além da extinção das categorias atleta de base e atleta estudantil — a mesma de Geovanna. Com isso, o futuro dela na modalidade está ameaçado.
“A gente sabe que todos os esportes tem um gasto muito alto, a ginástica rítmica tem um gasto enorme. Porque tem que comprar collant (roupa), cada série você tem que ter um collant diferente, tem as viagens, os aparelhos”, explica Geovanna:
“O meu pai está desempregado, a minha mãe não pode trabalhar porque tem problema no coração. Só fica eu na ginástica, e é um gasto muito grande”, completa.
Talento é o que Geovanna mostra desde 2013, quando deixou Pinheiros, no norte do Estado, e se mudou com a família para Vila Velha.
No ano passado, ela colecionou títulos: conquistou duas medalhas de ouro e duas de prata nos Jogos Escolares da Juventude, foi campeã por equipes da Gymnasíade (Mundial Escolar), e foi vice-campeã no Brasileiro de conjuntos, na prova de cinco arcos.
O desempenho, inclusive, renderia frutos. Geovanna era beneficiada na categoria atleta estudantil, recebendo R$ 370 por mês. A partir deste ano, seria contemplada na categoria nacional (R$ 925), renda que investiria em competições, materiais e no auxílio à família.
Mesmo com as dificuldades, ela ainda não pensa em desistir.
“Eu sinto que ainda tenho que fazer mais alguma coisa pelo esporte. E não me arrependo de nada que fiz até hoje. Se fosse para eu voltar ao início, faria tudo de novo, saía de Pinheiros e vinha para cá treinar. A minha família, tenho certeza, faria a mesma coisa”.

Com 17 anos de idade e conquistas que provaram o status de promessa, Geovanna Santos vive o momento de se consolidar na ginástica rítmica na categoria adulta. Mas a perda do benefício do Bolsa Atleta deixou as coisas mais difíceis.
A solução encontrada por ela e pela família é a mesma de muitos atletas no Estado que sofrem com a falta de apoio para manter suas carreiras: a criatividade.
No início deste ano, ela colocou no ar uma “vaquinha” on-line com o objetivo de arrecadar dinheiro para disputar competições em Portugal, na Ucrânia e França. Por enquanto, o valor arrecadado é R$ 150, valor correspondente a 1% dos sonhados R$ 15 mil.
“A ideia veio do meu irmão. Eu já tinha feito uma antes, só que a meta não foi alcançada. Ele falou ‘vamos fazer agora porque tudo na vida dela está dando certo por enquanto’, então a gente viu essa ideia de fazer a vaquinha”, explicou Geovanna.

Para complementar o auxílio recebido do Estado, Silvana, mãe da atleta, põe a mão na massa. Ela já fez biscoitos, empadas, bolos, bombons, bordou toalhas, tudo para vender e arrecadar dinheiro para manter o sonho da filha.
“Ela ganha a bolsa do Estado, mas não cobre tudo. O meu marido ficou desempregado e a gente precisou correr atrás para poder conseguir alguma coisa para poder ajudar”, diz Silvana, que também lembra da ajuda de amigos para Geovanna seguir competindo.
Mesmo com os esforços, a mãe sabe que se a situação não melhorar, a família terá uma difícil decisão a tomar pela frente.
“Já conversei com ela. Se surgir um patrocinador, ela vai continuar. Se não, vai ter que parar, porque os gastos são muito altos e não estamos em condições de bancar mais”.
“Foi desnecessário esse corte”
Desde 2015, o remador Warley Rocha abriu mão de ficar ao lado da família e trocou a casa onde vivia, na Serra, pelo alojamento do clube Álvares Cabral. Além de economizar nas passagens, não precisava acordar por volta das 3 horas da manhã para cair nas águas da baía de Vitória logo cedo para treinar.
O sacrifício não foi em vão. Ele é hoje um dos principais nomes do remo capixaba e promessa do País na modalidade. Recém transferido para o Flamengo, ele “papou” títulos enquanto vestia as cores do Álvares no Estado.
Conquistou títulos brasileiros na categoria júnior, foi medalha de bronze no Sul-Americano da Juventude, em 2017, resultados que valeram o apoio do governo federal com o Bolsa Atleta há dois anos.
Mas, no fim do ano passado, essa porta se fechou para o jovem de 18 anos. Com o corte no benefício, Warley recebeu em fevereiro a última parcela dos R$ 925 mensais que ganhava na categoria nacional. Uma quantia que faz falta.
“Eu dependia desse dinheiro para alimentação, passagem para ir em casa nos finais de semana — minha família mora na Serra —, para a suplementação”, listou o atleta, que recebia ajuda de custo do Álvares para passagens e hospedagem em competições.
“Foi desnecessário esse corte da forma que foi feita, não estavam pensando no esporte brasileiro”, criticou o jovem talento.
De clube novo, a expectativa do capixaba é que o cenário mude. No Rio, Warley já se mostrou contente com a estrutura que tem a disposição. Situações como ter que tirar dinheiro do bolso para consultas médicas ao se lesionar não devem se repetir no futuro do remador.
“Aí (em Vitória), eu já lesionei a lombar, fiquei fora dos treinos durante um mês, e era eu mesmo fazendo a minha fisioterapia, contava com a ajuda de amigos para comprar os medicamentos. Aqui deu um baque, totalmente diferente. Uma estrutura muito maior”, explicou.
Em transição para a categoria sub-23, Warley guarda grandes aspirações no remo. A principal é ocupar na categoria a posição do carioca Uncas Tales Batista, bicampeão mundial, e para isso sabe que terá que dobrar os esforços.
“A gente faz o possível para tentar superar esses caras. Acho que a base tem que ser mais reforçada, para formar atletas para o futuro.
Planos frustrados com 1º auxílio
Já estava nos planos da capixaba Ludmila Gomes, de 18 anos, usar os R$ 370 que passaria a receber do Bolsa Atleta federal como investimento para participar das principais competições de atletismo do Brasil em 2019.
Atleta do salto em altura, ela seria contemplada com o benefício a partir de fevereiro por ter sido campeã nos Jogos Escolares e ter terminado o último ano entre as melhores do País na modalidade. Entretanto, o corte no programa frustrou as pretensões da jovem.
Integrante de um projeto de atletismo da Prefeitura de Vitória, vinda de família humilde, Ludmila treina diariamente na pista do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) sem desistir dos sonhos.
Com mais um obstáculo pela frente, ela espera passar por cima desta perda para conseguir resultados expressivos no ano.
“Foi muito ruim. Eu e meu técnico contávamos com essa bolsa, vão vir campeonatos e precisava desse dinheiro para participar, pagar academia para os treinos”, explica a jovem:
“Esse ano tem Campeonato Brasileiro, o Troféu Brasil, o Pan-Americano de Atletismo sub-20 — em San José, na Costa Rica. Ainda bem que eu consegui o Bolsa Atleta do Estado, senão eu nem participaria de algumas dessas competições”, completa.
É com a ajuda do pai, que trabalha como auxiliar de cozinha, que ela complementa os gastos que tem com o atletismo. Mas, muitas vezes, o dinheiro que recebe do governo capixaba também ajuda dentro de casa — ela ainda mora com a mãe e o irmão.
“Meu gasto maior é com alimentação e suplementação. Às vezes, falta um alimento em casa, a situação aperta e eu ajudo”, conta.
Redução das bolsas vai direto na categoria de base
A redução de quase metade (47,5%) dos contemplados pelo Bolsa Atleta federal foi uma das últimas ações anunciadas pelo ex-presidente Michel Temer, em 28 de dezembro de 2018, no fim de seu mandato.
O corte veio acompanhado da extinção de duas categorias antes beneficiadas pelo programa: atleta estudantil e atleta de base (ambas recebiam o valor mensal de R$ 370).
Enquanto jovens talentos do esporte brasileiro se viram desamparados pelo corte do auxílio, uma rápida consulta na lista de contemplados revela nomes conhecidos que ainda são beneficiados.
São os casos dos campeões olímpicos Lipe e Wallace, ambos do vôlei, do ala Vitor Benite, com passagens pela seleção de basquete e que atua na Croácia, e do tenista Thomaz Bellucci.
Todos eles são contemplados na categoria atleta olímpico/paralímpico, recebendo R$ 3.100 por mês. Uma situação que incomoda não só as promessas do esporte, prejudicadas com o corte, mas também parentes e amigos.
A reportagem de A Tribuna entrou em contato com o Ministério da Cidadania, que no atual governo passou a ser responsável pela pasta do esporte.
O órgão não explicou quais motivos levaram à extinção de categorias voltadas para a formação, mas disse que “atletas infantis e juvenis que atenderam aos critérios das categorias Nacional e Internacional foram contemplados”.
A nota enviada pelo Ministério diz ainda que o corte foi “limitado à dotação orçamentária” prevista para 2019 — o investimento será de R$ 53,6 milhões, quase um terço dos R$ 150 milhões investidos em anos anteriores.
Em caso de novos recursos, o governo federal pode rever a distribuição das bolsas. “A atual gestão do Ministério da Cidadania trabalha para garantir mais recursos à Cultura e ao Esporte, com a possibilidade de recomposição do orçamento do Programa”, diz a nota.


