
A enorme concentração de terras em torno de grandes corporações, no entanto, tem liberado os campos quase que exclusivamente à produção de commodities, o que tem acarretado elevado custo social e, em muitos casos, obstáculos quase intransponíveis para o avanço da indústria.
Bruce Johnston e John Mellor demonstram que, se bem conduzido, o setor agrícola pode ser um indutor do desenvolvimento, ao gerar insumos, excedentes de capital e mão-de-obra para sustentar o surgimento e a manutenção do setor industrial, que, por sua vez, cria as condições propícias à inovação tecnológica, ao acionar aquelas forças produtivas e aquela parte do capital natural que, de outra forma, mínguam desprovidos de utilidade. De fato, a experiência histórica é pródiga em mostrar que nações que introduziram ações planejadas para a utilização da terra e investiram no incremento da produtividade agrícola foram as que mais proficuamente desenvolveram o setor industrial de modo eficiente e competitivo, com centros urbanos modernos e dotados de muito boa infraestrutura.
O Relatório de Desenvolvimento Mundial para a Agricultura (2008) documentam a partir de um conjunto de dados obtidos em diferentes países, que o crescimento agrícola reduz a pobreza mais rapidamente do que o crescimento industrial. Um efeito imediato do incremento da oferta de alimento localiza-se no melhoramento do capital humano e na consequente elevação da produtividade do trabalho, na redução do custo de vida, bem como no acréscimo proporcional dos fatores de produção necessários tanto para a agricultura, quanto para outras atividades capazes de gerar emprego.
Tal constatação diverge do entendimento do célebre Prof. Arthur Lewis, para quem o progresso da agricultura acarreta baixo crescimento econômico, ao mesmo tempo que favorece a situação de dependência dos países subdesenvolvidos em relação aos desenvolvidos. O renomado economista não considerava, todavia, que a agricultura tradicional pode ser transformada rapidamente em um setor moderno por meio da adoção de tecnologia, fazendo assim uma grande contribuição para o crescimento global, nem identificou explicitamente os fortes vínculos desse crescimento e os efeitos multiplicadores disso sobre os setores não-agrícolas.
Se a agricultura, no estágio inicial de desenvolvimento, gera excedentes para financiar a indústria, nas etapas seguintes há uma profunda interação intersetorial, de modo que o fluxo de geração de excedentes de um financia o crescimento de outro. A isso, denomina-se desenvolvimento equilibrado.
Com efeito, o setor agrário, quando estruturado sobretudo em pequenas e médias propriedades de família rurais, favorece a obtenção de divisas por meio de exportações, satisfaz a oferta alimentar em qualidade e quantidade, libera fatores produtivos para outras atividades econômicas, aumentando a produção e demanda de bens e serviços oriundos dos centros urbanos, e, por fim, supri o tamanho do mercado interno, sendo, pois, instrumento para sua expansão.
Flávio Santos Oliveira é doutor em História pela Ufes