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Por que o abismo entre o futebol brasileiro e europeu é tão grande?

Quarta-feira, 8 de maio de 2019. Na partida entre Ajax e Tottenham que classificou o time inglês para a decisão da Liga dos Campeões, as duas equipes ...

O ex-jogador Gilberto atuou em times da Europa: “Não tem muito essa coisa de cair, perder tempo, lamentar”

Última atualização

Quarta-feira, 8 de maio de 2019. Na partida entre Ajax e Tottenham que classificou o time inglês para a decisão da Liga dos Campeões, as duas equipes somaram 40 finalizações e trocaram quase mil passes — 956, precisamente — em um jogo decidido apenas nos acréscimos.

Uma semana depois, Corinthians e Flamengo, os times de maior torcida no futebol brasileiro, se enfrentaram no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil. Foram 17 finalizações somadas e apenas 714 passes trocados na vitória rubro-negra por 1 a 0.

Basta o fã de futebol sentar no sofá para assistir aos jogos do Velho Continente e do nosso País para perceber que a diferença é gritante. Mas por quê?

Quem jogou, tanto aqui quanto lá, garante que além da questão cultural, a forma como o jogador europeu é treinado influencia para um jogo mais intenso e rápido.

O ex-jogador Gilberto atuou em times da Europa: “Não tem muito essa coisa de cair, perder tempo, lamentar” (Foto: Divulgação)

“Falando em futebol europeu, são ligas que têm os esquemas muito voltados para a força, preparação física, e que também têm uma parte técnica que sobressai”, explica o ex-lateral-esquerdo Gilberto, com passagens por Inter de Milão, Hertha Berlin e Tottenham.

Além da qualidade dos jogadores, treinados desde a base aliando força e velocidade, o ex-jogador com passagem pela Seleção Brasileira também alerta para a diferença de mentalidade entre os atletas.

“Os times europeus vão para jogar bola, pelo resultado, que é o que interessa a eles. Não tem muito essa coisa de cair, perder tempo, lamentar… Mesmo o cara perdendo de 3 a 0, ele busca o resultado até o último minuto”, completou.

Campeão da Taça de Portugal, na temporada 2011/2012 pelo Académica de Coimbra, Danilo Cintra, que passou pela Desportiva, acredita que os brasileiros deveriam se doar mais nos treinos e que os dirigentes precisam ser mais profissionais e mudar o pensamento de resultado imediato.

“Há uma reformulação de treinadores, mais jovens e com mentalidade europeia. Mas não sei se vai surtir um efeito muito grande no Brasil. Diferentemente daqui, na Europa os treinadores têm tempo de trabalho. Os treinadores de Liverpool e Tottenham ficaram muito tempo sem ganhar nada e hoje estão na final da Liga dos Campeões”, afirma.

Até clima pesa a favor da Europa

Para colocar em prática conceitos táticos, como intensidade e marcação sob pressão, é fundamental uma ótima preparação física. Neste sentido, o futebol europeu leva vantagem, a começar pelas contratações. É o que explica o experiente preparador físico Antônio Carlos Mello, de 71 anos.

Atualmente no Vasco, Mello já trabalhou em outros grandes clubes brasileiros e também no Real Madrid, entre 2004 e 2005.

Antônio Mello foi preparador físico do Real Madrid e hoje atua no Vasco (Foto: Rafael ribeiro/Vasco)

No gigante espanhol, preparou fisicamente um elenco galático com craques como Ronaldo Fenômeno, Zidane, Figo e Beckham, junto com o técnico Vanderlei Luxemburgo, com quem está atuando novamente no cruz-maltino.

Para Mello, a preparação física brasileira e a estrutura de alguns dos grandes clubes no País não deixam a desejar.

Entretanto, as características dos atletas e até mesmo o clima europeu fazem a diferença. “A Europa é compradora. E na hora de fazer a escolha, olha primeiro o talento, claro, mas também a capacidade física do atleta. Querem força e velocidade. A grande diferença é a seletividade”, explica.

Mello afirma que a preparação física e os treinos diferem entre os países europeus. “Portugal tem diferença em relação à Espanha, por exemplo. Brasil e Alemanha que se aproximam em treinamentos, porque a Alemanha também gosta de treinos físicos, de velocidade e força, e resistência anaeróbica”, conclui.

“É muito difícil de implantar no Brasil porque é cultural”, analisa o técnico e ex-jogador Fabiano Rossato

“Na Europa, muitas equipes se defendiam por uma bola antigamente, mas hoje não vejo isso mais. Vejo as equipes jogando para frente, como o Ajax mostrou nessa temporada.

A diferença principal do futebol europeu para o futebol brasileiro é a intensidade do jogo. Na Europa, você tem de seis a oito semanas de pré-temporada. Tem o aspecto da qualidade técnica e da organização da equipe taticamente.
O clima europeu também faz diferença. Como jogar no Brasil, com esse calor e com tanta intensidade?

Lá, se treina com muita intensidade e profissionalismo. Os treinos não duram mais do que 1h30, mas são muito intensos e com atividades de posse de bola. Não se faz muito treino físico sem bola.

É muito difícil implantar isso no Brasil porque é cultural. Eu tentei.

Na Europa não existe o “bobinho”, por exemplo, mas se tirar aqui no Brasil é um problema. Aqui também temos calendário apertado e não há segurança para jogadores e treinadores trabalharem. Um jogo mal e já falam em demitir”.

Principais diferenças: Brasil x Europa

Treinos

  • Nos clubes europeus, os treinos são intensos e curtos, com duração de até 1h30.
  • As atividades físicas são realizadas com bola, além da realização de muitos treinamentos de posse de bola — algo que começa a ser adotado por aqui.
  • Na base, os jovens também começam a ser formados no mesmo ritmo e modelo exigido no profissional.

Elenco

  • O rico futebol europeu tem poder de compra e, com isso, consegue contratar os melhores jogadores. Já os times brasileiros vendem seus talentos muitas vezes de maneira precoce.
  • Além da qualidade técnica, os clubes do Velho Continente selecionam atletas com biotipo ideal para um jogo de força e velocidade.

Mentalidade

  • Na Europa, os times quase não abrem mão de jogar de forma ofensiva e em busca do resultado.
  • O profissionalismo e a dedicação do jogador europeu também são maiores nos treinos, assim como a cobrança por intensidade.

Clima

  • Diferentemente das altas temperaturas no Brasil, o clima frio europeu também favorece para que os jogadores consigam atuar em ritmo intenso durante os 90 minutos. A temporada por lá se encerra antes do verão.

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