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Por que os jovens bebem tanto?

É uma triste realidade. Os adolescentes têm bebido cada vez mais e, o que é pior, cada dia mais cedo. Quais seriam as causas? Onde encontrar a origem ...

Maria Benedita Reis

Última atualização

Maria Benedita Reis (Foto: Tribuna Livre)É uma triste realidade. Os adolescentes têm bebido cada vez mais e, o que é pior, cada dia mais cedo. Quais seriam as causas? Onde encontrar a origem do problema? São perguntas que todos fazem, mas poucos respondem. Um fato é indiscutível. Desde cedo as crianças veem seus pais, tios/tias e avós bebendo com frequência.

Para completar, no Brasil, bebe-se em todas as celebrações, seja para comemorar o nascimento dos filhos, em seus batizados, nos velórios, nas festas de igreja, na inauguração da nova cozinha e do novo apartamento, nas formaturas, nos casamentos etc. Bebe-se, bebe-se, bebe-se…

Bebemos “quando estamos tristes” e “quando estamos alegres”, “para relaxar” e para “criar coragem”. Além da imitação (que, obviamente, ocorre apenas nas casas em que os adultos usam bebidas alcoólicas com frequência), há o fator cultural: a permissividade para “tomar uma gelada” a quase qualquer hora, sem censura.

As redes sociais estão cheias de imagens de pessoas que vivem fora do país – ou mesmo em outro estado – celebrando em um novo bar, experimentando um novo drinque, sugerindo uma “nova cerveja”, um novo sabor…

Some-se a isso que o preço da bebida alcoólica é relativamente barato. No nosso meio, a cachaça é ainda muito mais acessível, principalmente a de baixa qualidade, claro. Às vezes, no supermercado, observo, com frequência, homens bem simples comprando lata de sardinha, pão e cachaça. Muitas pessoas em situação de rua, bem como pessoas com transtornos mentais, ganham cachaça nos bares.

Não podemos esquecer, também, das festas “open bar” – um grande risco para os jovens. Bebida “free”, levando a acidentes, intoxicações, sexo sem proteção, violência, abusos etc. Nestas festas, o apelo é “ beber até cair”, pois, claro, já está tudo pago.

Hoje, algumas universidades estão proibindo festas open-bar associadas a seu nome, para evitar acidentes e complicações. Os jovens, depois de alcoolizados, costumam cair, bater a cabeça, convulsionar e morrer. Um dos meus irmãos, professor em uma universidade federal em Minas Gerais, confidenciou-me que já perdeu muitos alunos para o álcool, mais até mesmo do que para as drogas. E, em geral, eles têm menos de 22 anos.

A necessidade de pertencimento – mais comum entre os adolescentes – também deve ser levada em conta. É o efeito “da massa”, que Freud descreve em ´Psicologia das Massas´. Um bom exemplo é a violência registrada entre torcidas organizadas. “Se estou com a camisa e com a galera do time X, tudo posso! Não sou eu, somos nós”.

É o “juntos somos mais fortes”, com uma potência elevada para agredir, beber, usar substâncias ilícitas, ficar, transar, abusar… E em se tratando dos adolescentes, em geral tímidos, inseguros, com baixa autoestima, atrapalhados e inexperientes, participar de um grupo, estar incluído, ser aceito, é tudo de que eles precisam. Se, para “pertencer”, for preciso beber ou usar umas coisinhas… por que não? Afinal, o álcool aplaca a timidez, deixa todos “mais soltinhos”.

Como psiquiatra, penso que o álcool deveria sofrer uma séria campanha, como aconteceu com o tabaco. Afinal, fuma-se menos hoje do que nos anos 50/70. Por que esta desejada redução não poderia acontecer com o álcool?

Maria Benedita Reis é psiquiatra, com pós-graduação em Dependência Química pela
Escola Paulista de Medicina.

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