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O desamparo dos dias e a vida ao extremo

O correr dos dias anda tropeçando em sensações paradoxais, ainda que constituintes de um mesmo fenômeno. Temores intermitentes, humores irritadiços, ...

José Antônio Martinuzzo

Última atualização

José Antônio Martinuzzo (Foto: Tribuna Livre)O correr dos dias anda tropeçando em sensações paradoxais, ainda que constituintes de um mesmo fenômeno. Temores intermitentes, humores irritadiços, lentidões melancólicas, taquicardias excitantes, desânimos esgotantes, ânimos belicosos, nostalgias insistentes de um passado idealizado, perspectivas embaçadas por incertezas…

Cansaços, medos e compulsões agressivas constituem sintomas de uma inquietante e extremada percepção de desamparo na contemporaneidade.

Porque nascemos prematuros, somos fadados à experiência real de desproteção já ao chegarmos à luz. Essa sensação dilacerante de abandono diante das tormentas e inseguranças da vida é fonte de angústia recorrente, mais ou menos acentuada de acordo com nossa personalidade, os eventos de nossas vidas e também segundo o espírito do tempo que nos abriga – e este não está ajudando em nada com sua crescente cultura de desamor, ódio e intolerâncias, sem falar da liquidez que a tudo parece dissolver com seus corrosivos ataques aos fundamentos civilizatórios.

Freud afirma acerca do ser humano que sua “existência intrauterina parece relativamente abreviada em comparação com a da maioria dos animais; ele está menos acabado do que estes quando é jogado no mundo. Por isso, a influência do mundo exterior é reforçada”, seja com relação aos temores, seja a respeito da busca de alguém que o resgate do abandono que se mostra como sina.

Os primeiros tempos de imersão no desamparo, para Freud, criam “a necessidade de ser amado, que nunca abandonará o homem”. Assim, como eternas crianças “desprotegidas”, almejamos redentores de nosso desamparo e/ou temperamos com temor nossas conexões com os semelhantes, também estruturalmente agressivos.

Essa ambivalência acerca do estado de desamparo, em tempos hostis como os atuais, pode nos levar à radicalidade de querer, a qualquer custo, um salvador que nos remeta àquela relação que nos deu os primeiros abraços e olhares de proteção ou a enxergar o mundo ao redor exclusivamente pelas lentes paranoicas de que tudo e todos nos ameaçam.

Tal realidade pode nos tornar presas fáceis para vendedores de ilusão, portadores de soluções mágicas ao incontornável desamparo existencial, assim como pode nos levar a enxergar o outro como inimigo, constituindo-se uma rotina de litígios. Essa lógica, que vale para os indivíduos, também pode governar comunidades inteiras.

Ainda que absolutamente desafiante, a vida civilizada é a única que sustenta a dignidade humana, possibilitando a efetivação de laços amorosos e generosos, livrando-nos em alguma medida das angústias excessivas de nossa carne desamparada e agressiva. Os vínculos fraternos, a virtude da compaixão e a vivência afetuosa autônoma são conquistas já experimentadas pela humanidade e não podem se perder nesta era de desconstruções.

O estado de desamparo, comum a todo humano, deveria mesmo nos inspirar a apostar num mundo em que ninguém larga a mão de ninguém, posto que ninguém está acima ou abaixo de ninguém. Ainda que seja este um movimento extremamente complexo, unamo-nos, pois. Até porque a alternativa, apesar de se apresentar como a mais radical e simples, tem efeitos nefastos para a vida de todos nós, que caminhamos cada vez mais firmes no rota do medo e do ódio, quando poderíamos investir no aconchego da fraternidade e na companhia da lealdade.

José Antonio Martinuzzo é pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro
da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória

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