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O revés do transporte público

Uma mobilidade urbana desejável proporciona às pessoas deslocamentos seguros, confortáveis e em tempo razoável, por modais satisfatórios e ...

Fernando Repinaldo é especialista em Administração Pública, Gestão de Projetos e Engenharia de Tráfego

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Fernando Repinaldo é especialista em Administração Pública, Gestão de Projetos e Engenharia de Tráfego (Foto: Acervo Pessoal)Uma mobilidade urbana desejável proporciona às pessoas deslocamentos seguros, confortáveis e em tempo razoável, por modais satisfatórios e sustentáveis.

A população que vive em cidades explode a cada década, provocando-nos um esforço de tornarmos universal o acesso aos meios de deslocamentos, priorizando o transporte não motorizado e o de massa, desestimulando o uso do carro.

Experimentamos um modelo centrado no egoísmo e no consumismo, que afasta os cidadãos dos valores que favorecem o coletivo. Assim, nossos ônibus são retratados como “algo a ser evitado”, símbolo de pobreza e exposição ao desconforto e à violência.

Criou-se um círculo vicioso, pois a primazia dos automóveis isola o sujeito dos contatos comunitários diários, afastando-o do sentimento de pertencimento e dever com sua comunidade e com o que nela acontece. A convivência comunitária poderia despertar um senso de dever social e ambiental, e o planejamento urbano deveria atuar como arranjo desse ideal.

A “ideologia do automóvel” contamina o modelo de cidade, gera ações negativas, da poluição ambiental ao agravamento da exclusão social.

A chegada de bikes e patinetes compartilhados pode ajudar a nossa mobilidade, porém a falta de critérios para estacioná-los e de bom senso por parte dos usuários prejudicam a acessibilidade nas vias. Absurdos são registrados regularmente. Largados junto a acessos para cadeirantes e piso tátil e em passeios onde há grande circulação de pedestres, trazem desconforto e perigo, sobretudo para idosos e pessoas com deficiência.

Evidente que por aqui esse padrão importado encontrará muitos desafios. Lá, há diferenças fundamentais em infraestrutura, não levadas em consideração em sua expansão local, logo, uma tentativa precipitada de importar sucessos de outra realidade.

A “última milha” — último fluxo no trajeto entre a origem ou destino em relação a um ponto de embarque — percebemos ser a missão de patinetes e bikes compartilhados, dado a seus perfis para curtas distâncias. Todavia, é justamente na última milha que transitamos por vias locais, onde geralmente a pavimentação é pior do que nas ruas principais e precisam urgentemente de infraestrutura para o uso adequado destes dispositivos. 

O problema motivará debates no parlamento. É tema que requer leis eficazes e regras para utilização nas vias da cidade, regulamentando velocidade e estacionamento, evitando que dificultem ou interrompam o trânsito regular de pedestres e indivíduos com mobilidade reduzida.

Fica o alerta que a coisa está meio bagunçada e sem fiscalização. Destacamos que as regras hão de ser claras e a fiscalização permanente, porque o conceito de uma política de espaço compartilhado deve ser assimilado por todos e a adequação desses e outros sistemas é fundamental para integração com o transporte coletivo eficiente.

Não existe solução sem passar pela valorização do transporte público de massa, mas melhorado e integrado, criando boas condições para os seus usuários.

Somente nele poderemos ter o horário das viagens num aplicativo, a qualidade de usar o celular sem preocupação com o volante, dividir com outras pessoas nossos percursos, além de sustentabilidade e gerar menos poluição na natureza.

Fernando Repinaldo é especialista em Administração Pública, Gestão de Projetos e Engenharia de Tráfego.

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