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Capixaba à procura de desaparecidos pelo mundo

Com o desejo de apresentar um desfecho digno às famílias que têm parentes desaparecidos, uma capixaba vai rodar o mundo em busca da identificação de ...

Melina fez um curso de especialização em Antropologia Forense, em Coimbra, Portugal,

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Com o desejo de apresentar um desfecho digno às famílias que têm parentes desaparecidos, uma capixaba vai rodar o mundo em busca da identificação de corpos. A antropóloga forense Melina Calmon, de 30 anos, embarcou na terça-feira (18) rumo à sua primeira missão humanitária.

O destino onde ela ficará pelos próximos seis meses é sigiloso. Formada em Biologia, Melina fez um curso de especialização em Antropologia Forense, em Coimbra, Portugal, e foi contratada pela Cruz Vermelha Internacional.

Melina em laboratório, durante trabalho de identificação de corpos. “Estou  feliz e realizada”, diz (Foto: Acervo Pessoal)

“Eu assistia a uma série de televisão sobre investigação criminal. Achava que a profissão da personagem era ficção e agora faço isso. Eu analiso o corpo de uma pessoa que não pode mais ser identificado pelas características visuais”, explicou.

Ela revelou que se sente realizada em poder ajudar as famílias. “Não sei como seria viver durante anos sem saber o que aconteceu com alguém próximo. Eu penso que a resposta pode ser a ossada que está à minha frente”.

Melina, que mora em Vitória, explicou que o grau de dificuldade do trabalho depende do estado do cadáver. Segundo ela, primeiro, é feita a limpeza dos ossos; depois, o corpo é colocado em posição anatômica para que seja analisado.

“Nós fazemos o perfil biológico, com metodologias e técnicas para determinar o sexo, a ancestralidade, ou seja, de onde os ancestrais daqueles indivíduos vieram. Além disso, calculamos a idade no ato da morte e o provável motivo, como facada, tiro e doenças”, detalhou.

Diante dessas informações sobre o corpo, ela contou que é feito um relatório. “Isso ajuda a fazer um funil para encontrar as pessoas desaparecidas”, explicou Melina.

A antropóloga atuou como cientista visitante no Instituto Médico Legal (IML) de Nova Iorque em 2017 e revelou que lá existe um banco de dados para cruzar essas informações. “Mais de 70 mil pessoas estão desaparecidas no Brasil. Não temos um programa que possa fazer conexões com os corpos do IML. É preciso mudar isso”.

“Resposta para as famílias pode ser a ossada à minha frente”

Você já analisou quantos corpos?

No Texas (EUA), teve um dia que chegou um caminhão com 100 cadáveres da fronteira. Fiquei um mês lá e fazia a coleta de dados de 3 corpos por dia, o que dá mais de 50 cadáveres. Já no Peru, analisei 35 crianças.

Tem uma roupa específica?

Sim! No laboratório, a gente usa uma roupa branca toda de plástico, igual aquelas de filme quando acontece alguma epidemia, além de luvas, sapatos e máscara no rosto.

Melina fez um curso de especialização em Antropologia Forense, em Coimbra, Portugal, (Foto: Acervo Pessoal)

Qual a sua carga horária?

Varia entre 8 a 10 horas por dia, mas depende da situação. Se tiver algum desastre como o de Brumadinho (MG), a carga horária pode aumentar devido à demanda.

É um trabalho difícil?

Não vou falar que é fácil, porque lido com o que há de pior no ser humano, que é a morte. Porém, do outro lado, existe uma família que procura aquela pessoa, e é isso que me faz continuar.

Eu penso nas famílias todos os dias e na possibilidade de dar um desfecho digno para elas. Não sei como seria viver durante anos sem saber o que aconteceu com alguém próximo. Penso que a resposta para as famílias pode ser a ossada que está à minha frente.

Desejava atuar nessa área?

Sonhava com essa atuação, mas não achava que pudesse se tornar real. Estou muito feliz e realizada, e também um pouco aflita por ficar longe da família e da minha esposa.

 

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