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A trajetória da coxinha

Linguistas ensinam que a existência de muitos idiomas em um espaço territorial pequeno é característica de áreas ocupadas há muito tempo. Já a ...

Sérgio Lievore é auditor de Controle Externo do Tribunal de Contas do Espírito Santo

Última atualização

Linguistas ensinam que a existência de muitos idiomas em um espaço territorial pequeno é característica de áreas ocupadas há muito tempo. Já a existência de um único idioma em uma área territorial vasta é algo característico de uma ocupação territorial recente. O primeiro caso corresponde à Europa; o segundo, à América. É interessante observar como vão surgindo as diferenciações dentro de cada língua que, possivelmente, com o passar de anos, serão tão grandes a ponto de criar novos idiomas.

Palavras como rapariga ou moça têm sentido diferente em Brasil e Portugal. Moça, na variedade europeia, significa serviçal de baixo nível e rapariga significa mulher jovem. Em várias regiões do Brasil, rapariga significa prostituta e, aqui, moça significa mulher jovem. O sentido atribuído à palavra moça, em Portugal, como serviçal, simplesmente é desconhecido no Brasil.

Um acadêmico que conheço disse que, certa vez, foi ao Maranhão, ocasião em que perguntou se uma jovem era solteira. Criou-se um embaraço porque, naquela comunidade, “solteira” significava algo como solta, demasiado liberal quanto aos costumes.

Uma palavra que tem se afastado do sentido original nos últimos anos e que, por tão recente, chama a atenção, é “coxinha”.

Originalmente, é o acepipe que está em qualquer lanchonete. Após os protestos de 2013, ganhou nova acepção rigorosamente diferente. Passou a ser utilizada para designar pessoas xucras e ignorantes, de orientação política à direita. Mas qual a trajetória que levou a tamanho salto ressignificativo?

Há várias explicações quase literárias, pois dificilmente alguém conseguirá provar a autenticidade. Como de praxe, a verve bem-humorada e desprovida de pensamento politicamente correto do povo brasileiro se fez presente.

Uma das explicações é a de que, nos anos oitenta, o tíquete-alimentação dos policiais militares de São Paulo era muito ruim. Por isso, na hora do almoço, só podiam comer coxinha. Daí, tinha-se uma associação entre o diálogo entre os policiais, estilo “bandido bom é bandido morto”, e aquilo que comiam.

Outra hipótese vem de “coxo” (pessoa com perna torta, com deficiência para andar). A comparação seria com a capacidade de raciocinar politicamente dos “coxinhas”. Outra explicação é a de que, quando uma pessoa tola entra numa lanchonete para comer algo, escolhe o mais evidente, trivial e óbvio que lá está: coxinha.

As histórias provavelmente misturam imaginação e fatos num processo que, com o tempo, pode vir a aceitar o novo significado da palavra como algo perfeitamente integrado no léxico, algo que ainda não ocorreu porque o espírito metafórico está muito presente.

A propósito do significado original da palavra, uma história de veracidade incerta, mas divertida, diz que os filhos da princesa Isabel adoravam comer coxa de galinha. Um dia, o mais velho se atrasou para o almoço, enquanto os irmãos comeram todas. Indignado, foi à avó se queixar de que os irmãos não tinham respeitado seu direito de precedência. A imperatriz Teresa Cristina lhe respondeu: “Vá brincar que a vovó vai dar um jeito”. Foi à cozinha, desfiou um peito de frango, envolveu com uma massa empanada e fritou. As crianças adoraram. Assim nasceu a coxinha.

SÉRGIO LIEVORE é auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Estado e historiador

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