- Vitória, ES 31°C

Vitória 31°C

Anúncio
Tribuna Livre

O segredo da pré-campanha está no almoço de domingo

No domingo, como bom genro, decidi fazer um churrasco de agrado à minha sogra. Próximo a nossa casa existe um açougue, entretanto, pego o carro e ...

Pedro Paulo Biccas Jr. é filósofo, escritor e jornalista.

Última atualização

No domingo, como bom genro, decidi fazer um churrasco de agrado à minha sogra. Próximo a nossa casa existe um açougue, entretanto, pego o carro e faço questão de atravessar a cidade para comprar os alimentos em outra freguesia. Gosto de ir no amigo ‘Greidson’, aquele que já me recepciona chamando de ‘governador’ como faz a todos, sempre diz que separou uma carne especialmente para mim.

Muito cortês, pergunta da família e até mesmo se não gostaria de levar um osso para diversão dos meus cães.

Percebam que com o avanço da tecnologia, comprar é algo bastante cômodo. Conseguimos adquirir quase tudo deitado no sofá com um smartphone. No entanto, é a maneira como nos relacionamos que define o posicionamento do interlocutor na mente do consumidor.

Pois bem, final de semana passado, comemos uma carne na chapa, almoço rápido de domingo. Em questão de poucos minutos o filé na grelha e já estava pronto, no prato da cunhada. Este fim-de-semana não, queria mesmo era fazer um churrasco de espeto e carvão. Aquele que é ritualístico, que você precisa encontrar o ponto certo do carvão para que vire brasa, aquele que seu sogro dá opinião na forma como a carne vai no espeto e assim, ao redor do braseiro, acontece uma conversa igualmente ardente.

Não é preciso ser sociólogo para perceber a máxima do antropólogo polonês Zygmund Bauman: vivemos em tempos líquidos, nada foi feito para durar. As relações são fugazes e efervescentes. Intensas e instantâneas. Não se saboreia mais com devido apreço os instantes que se vive.

Todavia, já damos mostra que é exatamente destes instantes que sentimos falta.

O almoço foi uma maravilha. Não apenas pelos cortes servidos, outrossim, pelas experiências vividas. O tempo da carne na brasa nos deu tempo para saber do roteiro cotidiano de cada um, das dores e alegrias recém vividas, bem como das expectativas e receios do por vir.

Enquanto eu virava o espeto, Dona Ruth me contava sobre um aluno seu que foi campeão na olímpiada de língua portuguesa. Com o perdão da palavra, “uma puta educadora”. Minha sogra vibrava com a conquista do pupilo. A única pressa ali era para o pão de alho, este sim, assim como alguns assuntos, deve ser breve e ligeiro senão passa do ponto.

Embora falte pouco mais de um ano, já vivemos um período de tensão pré-eleitoral. A pré-campanha está queimando feito brasa nos corredores políticos. São tantos nomes servidos que quase temos uma congestão eleitoral. Até mesmo porque, alguns deles são bastante indigestos.

O que muitos não perceberam, no entanto, é que assim como o açougue e o churrasco, o comportamento do eleitor está rompendo com paradigmas. Embora a sociedade seja frenética e voraz, o consumidor do produto eleitoral deseja saborear com gosto o cardápio que lhe é posto á mesa. Poucos são os que se contentam com um fast food de candidatos. Um nome, um número não são uma decisão instantânea mais, para a maioria.

É preciso ritualizar uma pré-campanha e investir tempo com o eleitorado para então alcançar dele o tão almejado sufrágio.

Aqueles que não ritualizarem o contexto de suas abordagens ficarão para trás! Passar pela rua apertando a mão e fazendo selfie já é um prato frio na churrascaria.

Pedro Paulo Biccas Jr. é filósofo, escritor e jornalista.

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.