Afirma-se que a sociedade brasileira está dividida. Se é assim, deve-se lembrar: 1- a verdade é algo construído pelos que participam do debate; 2- é bom que ela não se encontre nos extremos; 3- as ideologias, por definição, criam verdades aparentes para ocultar interesses contrários aos explicitados.
Essa divisão decorre de se pretender o pensamento único que, de um modo geral, tem causa em um raciocínio simplista que considera existirem apenas duas alternativas, sendo uma delas falsa, exatamente porque a outra é verdadeira. Portanto, em geral, tem-se um pensamento circular. Diz-se, por exemplo, que para se conter o desmatamento ilegal, deve-se legalizar as terras invadidas.
O risco do pensamento único é, no mínimo, deixar de considerar uma versão dos fatos que pode ser verdadeira. Isso pode estar ocorrendo, por exemplo, quando se diz que os juros bancários elevados aplicados ao consumidor decorrem da inadimplência e, não, o contrário.
É comum aquele que prega o pensamento único pretender impor “verdades”. Fazem isso porque enxergam os críticos como inimigos. Contam com a ignorância dos que participam do debate, porque só a ignorância pode dar asas a esse tipo de raciocínio que não encontra respaldo na realidade, embora possa satisfazer desejos inconfessáveis.
Contudo, não se pode deixar de considerar que a verdade é construída, de modo amplo, com base nos argumentos daqueles que participam do debate público. Existe jogo de poder nesse debate, mas a ética e a ciência devem ser um ponto de partida. É bom que entre os participantes existam pessoas munidas de argumentos diversos, o que parece inevitável em tempos de globalização e internet.
Seja como for, há os que distorcem os fatos por um erro de avaliação, um erro sincero, digamos, como no caso de uma testemunha que diz ter visto, na noite em que ocorreu o atropelamento, um automóvel, da cor verde, atingir o pedestre, quando, em verdade, descobre-se, através de uma filmagem, que era azul. As pessoas podem cometer enganos sinceros. Na referida hipótese, o erro pode ter sido provocado, por exemplo, pela falta de iluminação adequada no local do acidente, pela alta velocidade do automóvel e pela proximidade entre as referidas cores.
O pior é a mentira: distorcer fatos intencionalmente, sabendo que a versão correta é diversa da falada. Assim ocorre, por exemplo, ao se dizer que o desmatamento na Amazônia não está aumentando, pois há dados científicos irrefutáveis sobre o tema. Ou ao se afirmar que a liberação, neste ano, de quase trezentos tipos de agrotóxicos, com provável redução de preço, não tende a aumentar o seu uso nas lavouras. Inclusive, pretende-se realizar uma “campanha educativa” vedando-se, porém, o uso da palavra agrotóxico.
Engana-se ao se dizer que prender mais é a solução para a segurança pública. Temos a terceira maior população carcerária do mundo, e já está mais do que provado que o sistema está falido.
O problema se torna mais sério ao se criticar a imprensa, quando esta divulga fatos contrários a um interesse inconsequente de um governo ou de um filho do governante, pois uma imprensa livre é condição básica para se ter acesso à informação, o que se mostra essencial para que os sujeitos possam compor os seus pensamentos, de forma crítica e autônoma, e, portanto, para o desenvolvimento de uma sociedade plural e democrática.
Helio Estellita Herkenhoff Filho é servidor do TRT-ES e autor de livros jurídicos.