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Por que crianças e jovens andam tão desatentos?

Correria. Se você parar e olhar para qualquer um dos lados, vai observar uma pessoa apressada, fazendo duas, três atividades ao mesmo tempo, e sempre ...

Crianças durante atividade em creche: curiosidade e inteligência aguçada.

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Correria. Se você parar e olhar para qualquer um dos lados, vai observar uma pessoa apressada, fazendo duas, três atividades ao mesmo tempo, e sempre buscando mais. O dia a dia atribulado do mundo moderno não é diferente para as crianças que, desde cedo, interagem com a tecnologia e estão desempenhando muito mais atividades do que o necessário.
Crianças durante atividade em creche: curiosidade e inteligência  aguçada.  (Foto: Divulgação )Mestre em Educação e psicopedagoga, Jane Haddad acredita que o momento é delicado. É que, segundo ela, pela quantidade enorme de estímulos, as crianças acabam criando uma atenção seletiva: o que não desperta o interesse, como uma leitura ou explicação do professor durante a aula, por exemplo, é rapidamente descartado.

“Se estou exposto a algo que não interessa, eu me desligo. A concentração requer esforço e rotina. As crianças precisam ter horário para acordar, para estudar, para usar a tecnologia. As atividades têm de ser feitas no mesmo horário para que isso vire hábito e desperte o interesse delas”, pontuou.

Para ela, a grande quantidade de informações e as rápidas mudanças podem atrapalhar o futuro profissional dos jovens. 

“É muita informação inútil, e aquilo que é essencial vem se perdendo. A gente vê pelo adulto, que quer ler o best-seller porque todo mundo está falando sobre ele, mas detesta o assunto. É muito superficial e pouco aprofundado, muita informação, e você não consegue processar”, destacou.

A Tribuna – Por que as crianças e os jovens andam tão desatentos?
Jane Haddad – O mundo está hiperativo. É comum ouvir as pessoas falarem “vai mais rápido”, “corre”, e as crianças hoje estão desempenhando mais funções do que é necessário.

A atenção delas precisa ser sustentada, tem de ter o desejo de estar ali naquela atividade, pois, quando não gostamos de uma coisa, a gente desliga, é um mecanismo de defesa de todo mundo.
Muitos neurocientistas defendem que podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas isso não é positivo, porque alguma coisa vai te distrair. E isso está acontecendo de forma cada vez mais frequente.

Jane: “Quando as crianças chegam ao mundo, ele já está rodando e a bússola delas é o adulto. Somos um espelho” (Foto: Divulgação )Elas são excessivamente cobradas?
Sim. Essa questão do mundo contemporâneo, de ter de ser eficiente demais, de falar vários idiomas, de produzir muito, cria uma lacuna grande no mundo simbólico, que é onde aprendemos a lidar com as nossas insatisfações.

Arrumamos várias atividades para sublimar a tristeza. As pessoas querem resolver os problemas do mundo com remédio e, no caso das crianças, elas não são ensinadas a rever as suas estratégias.
É o momento de rever a educação e avaliar em que realmente vale a pena investir, porque, se isso não for feito, daqui a duas décadas teremos gerações e gerações de zumbis.

A educação precisa levar em conta a subjetividade humana?
A gente não pode mais pensar em apenas uma inteligência, pois temos diversidade de inteligências, mas a nossa educação trabalha apenas com a inteligência cognitiva. O artista, por exemplo, não é contemplado no sistema escolar existente, mas as coisas estão mudando.

Precisamos lembrar à criança o que ela tem de melhor nela mesma, não o que o outro tem. O sujeito não é objeto, tem vontades, fraquezas e, muitas vezes, não vai conseguir devolver o que esperam dele. E está tudo bem.

Por que é tão importante escutar o que a nova geração tem a dizer?
Escutar uma criança não é algo fácil. Uma vez, um menino de 7 anos disse para mim que deveria ter curso para ser pai e mãe, porque o pai dele criava regras que ele mesmo não cumpria. Nas minhas palestras, eu provoco pais e professores quanto a isso.

Aquela máxima de que adultos impõem e a criança não questiona não funciona mais nos dias de hoje. As novas gerações só vão se abrir para o mundo adulto se elas acharem que vale a pena. As coisas estão mudando, mas a humanidade não muda: ela pede compromisso.

Os valores vêm do primeiro ambiente de aprendizagem, que é a própria casa. Temos de lembrar que, quando as crianças chegam ao mundo, ele já está rodando e a bússola delas é o adulto, para o bem ou para o mal. Somos um espelho.

Quais são as principais características dos alunos contemporâneos?
Na primeira infância, as crianças têm inteligência muito aguçada, mas com recursos simbólicos frágeis. São solidárias com a dor do outro e têm uma plasticidade cerebral muito maior, um campo mais aberto para aprender, porque são muito curiosas.

Os adolescentes são a geração mais autêntica de todas, mas a mais triste. É comum ver alunos com pouca perspectiva dentro da própria escola, talvez porque perdemos um pouco a mão nesse mundo competitivo. Eles tentam se tornar muito parecidos uns com os outros e perdem a singularidade, pois sustentar uma opinião individual é muito difícil.

Os professores precisam mudar a forma de ensinar?
Os alunos só vão aprender com os professores se eles tiverem uma relação de confiança e se acharem que esses professores têm alguma coisa de interessante para contar para eles. A técnica é acessório, tem de ter conhecimento e uma relação de autoridade, não autoritária.

Quando isso acontece, o professor leva o aluno para onde ele quiser. É importante ressaltar também que as escolas e famílias têm responsabilidades na mesma proporção. Precisamos parar com esse cabo de guerra. É uma parceria insolúvel, um casamento, eles têm de se apoiar.

Como os pais podem ajudar os filhos nesse processo?
Parar de querer que os filhos sejam felizes. A felicidade é um estado, não uma promessa. Eles não têm de cumprir um cardápio que não é deles. Prepare seus filhos para a vida, que é um equilíbrio de prazer e desprazer.

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