Jurados de morte, vivendo com medo e sem ter para onde fugir, crianças e adolescentes pedem ajuda às autoridades para escapar de bandidos no Estado. Até bebês são ameaçados e entram na lista de pessoas que precisam de proteção. Para garantir a sobrevivência, eles fazem mudanças extremas em suas vidas.

“Queremos salvar a vida dessas pessoas e, para isso, retiramos os ameaçados dos locais de risco e os colocamos em um lugar seguro, que pode ser outra cidade ou até mesmo outro Estado”, afirmou Luiz Inácio Rocha, diretor da ONG Centro de Apoio aos Direitos Humanos (CADH), que executa o PPCAAM no Espírito Santo.
Segundo Rocha, cerca de 70% dos protegidos recebem ameaças devido ao envolvimento com o tráfico de drogas. “É o menino que está começando, que quer sair e é ameaçado, ou que perde uma carga de droga. Há casos em que criminosos ameaçam bebês para se vingar de outras pessoas”.
Neste ano, o programa recebeu 49 pedidos de proteção e 12 menores foram incluídos. A partir do momento da inserção, o ameaçado vive uma nova realidade. Tanto ele quanto a família precisam aceitar uma série de regras e manter sigilo sobre o local para onde vão.
“Começa o trabalho para inserir as pessoas nas escolas, garantir serviços de saúde, cursos. Inserimos os familiares no mercado de trabalho. O programa custeia aluguel e alimentação, até a família se estabelecer”, explicou Rocha.
O tempo de permanência no programa é de um ano, podendo ser prorrogado por indicação da equipe técnica, formada por psicólogo, assistente social e advogado.
“A família e o protegido podem voltar para o local de origem, se a ameaça cessou. Se não cessou, eles podem viver em outras comunidades ou permanecer onde estão, mas, desligados do programa”.
“Dei para adoção para salvá-los”
Saudade. Essa é a palavra que define o que uma dona de casa, de 34 anos, sente, ao lembrar dos filhos, de 13 e 14, que ela precisou entregar para a justiça há três anos, para salvá-los de ameaças de morte.
A Tribuna – Com quantos anos seus filhos começaram a se envolver com o tráfico?
Dona de Casa – Quando tinham 8 e 9 anos de idade.
O que a senhora fez para tentar ajudá-los?
Tudo o que estava no meu alcance. Levei para o Conselho Tutelar, entreguei os dois em um abrigo, mas eles viviam fugindo.
Eles estavam sendo ameaçados de morte?
Sim. Um dia, eles chegaram em casa contando que estavam sendo ameaçados. As ameaças vinham de traficantes mas eu não sabia o motivo. Nesse momento, eu resolvi entregar os dois para a adoção.
A senhora acha que tomou a decisão certa?
Dei para a adoção para que não morressem, para salvá-los. E passo a vida orando por eles.
A senhora chegou a pensar em ir com os seus filhos para um programa de proteção?
Eu tinha uma filha nova ainda, que hoje tem 9 anos. Ela também precisava do pai e da mãe e a gente não poderia abrir mão de tudo para ir para o programa.
