Ahumanidade está enfrentando uma nova horda de inimigos. No mundo 4.0 e em todas as sucessivas versões que hoje se vislumbram, robôs, algoritmos, aplicativos de assistentes pessoais, entre outros entes informáticos, ameaçam desbancar humanos em postos de trabalho, atividades intelectuais e até parcerias afetuosas.
De pânicos a encantamentos, as reações são muitas e diversas, mas todas se equivocam num mesmo ponto: dão às engenhocas informacionais uma autonomia que elas não têm. Diante de perfeitas máquinas de silício, especializadas em inimagináveis combinações de zeros e uns, briosas de suas bytecapacidades, estaríamos destinados ao fim?
O que presenciamos neste início de século XXI vai muito além do campo técnico-econômico, trata-se de uma questão de ética humana. Se o parâmetro e as razões forem apenas a produtividade e a rentabilidade, o planeta terá cada vez menos espaço para sujeitos de carne e osso e alma. O que fazer com os atuais e futuros deserdados das técnicas digitais?
O trabalho é condição estruturante da humanidade. Para Lukács, essa é exatamente a distinção entre os humanos e seus pares animais. “Com justa razão, se pode designar o homem que trabalha, ou seja, o animal tornado homem através do trabalho, como um ser que dá respostas”, escreveu. Respostas às necessidades de sobrevivência diante das demandas do existir, registre-se.
A imperiosidade do trabalho leva a uma economia civilizacional da sua efetivação, organizada de diversas formas ao longo dos tempos, nem sempre justa, mas sempre atravessada pelo uso de tecnologias. E essa relação não é nada natural, muito menos aleatória ou definida por automatismos.
A supremacia das máquinas não é uma sentença; pode ser uma escolha. O futuro pertence às decisões que os humanos, em disputas de hegemonias, tomam e tomarão com relação a eles mesmos e às tecnologias que inventam.
Num texto de 1930, Freud escreve que as técnicas tornaram-se meios pelos quais os sujeitos buscam deificar-se, enfrentando seu estado de desamparo estrutural e tentando superar os limites de suas humanas habilidades.
“O homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de ‘Deus de prótese’”, assinala, para ressalvar: “No interesse de nossa investigação, contudo, não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel de semelhante a Deus”.
Milton Santos observa que as tecnologias digitais são doces e dóceis, porque as mais adaptáveis e flexíveis jamais constituídas. No entanto, considera, as “dóceis” técnicas estão majoritariamente à mercê das perversidades humanas. E isso, apesar de previsível, não pode deixar de causar estranheza e perplexidade, sob pena de ameaça de nossa própria espécie.
Que, pois, nessa nossa fantástica aventura de nos tornamos humanos, inclusive pelo trabalho, sejamos capazes de buscar nossa “divindade” mais em nosso potencial de amorosidade e fraternidade e menos em nossas habilidades de efetivar operações e vínculos maquínicos, ainda que deles não possamos prescindir.
Que o próximo seja nossa razão, posto que é nossa condição – ao menos por isso, se não por ética humana ou empatia. Afinal, da versão beta, quando chegamos à luz, à mais sofisticada forma de viver autonomamente (4.0, 5.0, 6.0…), nossa peculiaridade é mesmo existir como um ser que sente e que busca eternamente no olhar do outro a confirmação de que existe de verdade.
José Antonio Martinuzzo é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.