“Deus disse: ‘Que exista a luz!’ E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. E Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou ‘dia’, e às trevas chamou ‘noite’. Houve uma tarde e uma manhã: foi o primeiro dia.” Tudo o que há, existe pelo poder das palavras, conforme bem indicam os verbos “dizer” e “chamar” na mítica narrativa da Criação em Gênesis.
A ponte entre o real e a realidade (experiência do real) é a palavra. Como destaca Freud, “a escrita é, na sua origem, a linguagem do ausente”, que se faz presente justamente pela palavra. O que não está nomeado subsiste fora da nossa percepção simbólica, ou porque migrou para o inconsciente por ser traumático/interditado, ou porque ainda está à espera de batismo no limbo dos nomes.
Pergunte a qualquer um, ou pergunte-se: quem é você? A primeira resposta imediata é um nome, uma palavra. Registrar-se no cartório é condição sine qua non para existir de “verdade”. Conforme Pierre Bourdieu, acerca do “poder simbólico” das palavras, “nomear, como se sabe, é fazer ver, é criar, levar à existência”.
O ser nasce; o ser humano se constitui. E o que dá à luz os sujeitos é a palavra, são as trocas linguageiras que conjugam. A palavra diz o universo, dita a humanidade. Lembrando Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”.
Somos humanos também porque forjamos diálogos narrativos que nos dão notícia da realidade, ou do que seja a realidade para cada um de nós e nossa comunidade interpretativa do real. Essas trocas comunicacionais constituem um território simbólico em que transitamos e nos guiamos ao longo da vida.
Mas o que se vê é muito descompromisso com o valor da palavra para a constituição do que percebemos como realidade, ela mesma um texto-mosaico dinâmico de significantes. Não bastasse o desconhecimento de que somos palavras, as que temos e as que não temos, nutre-se crescente desprezo pelo aprendizado e uso digno daquelas que já inventamos/elaboramos.
Ignorantes da língua, empobrecidos de vocabulário, tornamo-nos um desastre no manejo sintático.
E aí é um deus nos acuda, pois, como as palavras são “vivas”, polissêmicas e camaleônicas, dependendo das conexões que se fazem e das vizinhanças que se estabelecem nos textos, haja desencontros entre o que se quer dizer, o dito, o percebido!
A fidelidade às palavras, o respeito ao vernáculo, a vontade de efetivamente se comunicar não são delicadezas supérfluas. Constituem-se como um compromisso ético a amalgamar comunidades que se articulam em torno de uma mesma língua.
Aos que querem e/ou conquistam protagonismo socioeconômico e político-cultural em uma coletividade não se pode oferecer a possibilidade de malversação das palavras, sob o risco de leituras tortas de narrativas capengas e discursos descuidados, com todos os desastres possíveis daí decorrentes.
Como humanos, nunca experimentamos e jamais viveremos um paraíso, como aquele que se fez e se perdeu, respectivamente, pelos usos divino e diabólico das palavras. Mas não precisamos produzir torres de Babel no seio do nosso próprio idioma, inclusive como recurso para mentiras, fake news e cinismos retóricos. Afinal, a lealdade às palavras é também um fundamento da fraternidade, com a qual se escreve o texto da História pela gramática da civilidade e do humanismo.
JOSÉ ANTONIO MARTINUZZO é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória