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Universidade 2020 e a batuta feminina

Prezados leitores, lembro-me que na infância ajudando meu pai em sua mercearia, um dos frequentadores do vício da bebida teve um ataque cardíaco ...

Carlos Vinícius Costa de Mendonça é é professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes).

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Prezados leitores, lembro-me que na infância ajudando meu pai em sua mercearia, um dos frequentadores do vício da bebida teve um ataque cardíaco fulminante. Dias depois apareceu no estabelecimento a esposa enlutada e indagou quanto o marido devia. Meu pai deu uma olhada na caderneta e disse-lhe que não devia nada. Ela nos mirou com a dignidade serena que reconhece a generosidade, agradeceu e saiu. Meu pai exclamou: “veja meu filho, ali vai uma mulher”.

As mulheres historicamente sempre representaram na sua esmagadora maioria, o esteio, a regência, a tolerância e a gestão que faz administrar e dirigir a família nas suas interfaces com os desafios do social e da vida.

Por outro lado, ainda existem alguns que não aceitam e nem reconhecem a fibra, a iniciativa e a tenacidade do gênero “frágil”.

Veem com desconfiança e ceticismo essas qualidades que põem em xeque as tradições de longa duração.

Na verdade muito da construção do imaginário social sobre as mulheres deriva das explicações referenciais e poderosas do sagrado.

A religião sempre buscou representar um modelo pedagógico de mulher respeitável. Se Eva nasce da costela de Adão na posição de submissão, não lhe faltou o interesse pela experiência e curiosidade a fim de abordar as proibições e os interditos.

Ousada, manifestou o desejo da autonomia feminina e um quê de desconforto com as exigências excessivas da disciplina e hierarquia que pretende pelo medo evitar o mal.

Já Madalena, a arrependida do pecado da carne, mesmo antes de testemunhar a Ressurreição de Cristo havia percebido que a liberdade absoluta não existe e ter controle a partir da consciência das palavras e das ações é a forma de resgatar a dignidade contra a violência física e simbólica que as mulheres têm que enfrentar cotidianamente.

Maria, como diz Raul Seixas, é qualquer mulher que constrói com o outro as dimensões da serenidade, tolerância, compaixão e tem o poder da representação virginal e pura da maternidade, concebendo ou não. Daí como destaca o poeta, o desafio e a barra de amá-la.

Nessa linha, o que almejar da mulher regente, por exemplo, de uma orquestra conturbada como a Universidade com todo esse mito e fardo, essa responsabilidade cultural e histórica?

Uma boa síntese seria: de Eva, apostar na travessia com base na experiência conciliadora e não na aventura insuportável dos sistemas aparelhados e partidarizados que sempre negam tudo como o interlocutor de Fausto na obra de Goethe; de Madalena, a consciência de quem não se perde na volta e promove ações no sentido da liberdade que edifica, eleva, ensina e traz respeito e dignidade; de Maria, a generosidade, a serenidade, solidariedade, capacidade de ouvir e sobretudo o compromisso com o ofício da ética.

Com efeito, há 25 anos trabalho para uma adolescente da terceira idade, a Ufes. Nos seus 65 anos de existência nunca teve o privilégio e a dignidade de ser regida pela batuta feminina.
Na segunda década do século XXI não seria justo e necessário essa travessia, cumprimento e reconhecimento?

Carlos Vinícius Costa de Mendonça é professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes).

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