Numa passagem do livro de Ruy Castro sobre a bossa nova, João Gilberto diz a um médico que o examinava:
– Olhe lá, o vento descabelando os coqueiros!
Ao que o doutor teria respondido:
– Árvores não têm cabelo, João.
– E algumas pessoas não têm poesia, arrematou o mestre.
Quando João Gilberto inventou aquele novo estilo musical, sintetizado numa batida de violão e num jeito peculiar de cantar, ele certamente parecia ser de outro mundo. Hoje, na era do “popozão, popozão, popozão, senta, senta, senta até o chão”, a poesia do amor, do sorriso e da flor dá a impressão de ter 10 mil anos.
Natural, portanto, ter ouvido de alguém, não faz muito tempo: “Que música chata é a bossa nova, que gente chata era aquele pessoal!”.
Gosto, obviamente, não se discute e é natural que os movimentos estéticos, artísticos e musicais se transformem, captando cada qual a pulsação de seu tempo.
O que cansa é a ignorância, a intolerância e a preguiça de ao menos procurar entender a história da música brasileira, suas etapas e a importância de seus gênios transformadores.
Villa Lobos, João Pernambuco, Ary Barroso, Pixinguinha, Tom Jobim, João Gilberto, só para citar alguns, construíram um castelo musical na paisagem artística brasileira. O nível raso dos ouvidos nacionais e o apetite por celebridades desmerecidas e instantâneas vão se encarregando de deixá-lo em ruínas.
