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Futebol feminino: Ano dourado para as donas da bola

Não há dúvidas que 2019 foi o ano do futebol feminino. Com recordes de audiência na Copa do Mundo, e de público em jogos realizados no Brasil, a ...

Gabi Zanotti com o troféu do Paulistão: final teve recorde de público no País

Última atualização

Não há dúvidas que 2019 foi o ano do futebol feminino. Com recordes de audiência na Copa do Mundo, e de público em jogos realizados no Brasil, a modalidade deu importante passo rumo ao status que já se fazia por merecer. E onde teve conquista, seja no campo, quadra ou areia, teve também o talento capixaba brilhando.

Gabi Zanotti  com o troféu do Paulistão: final teve recorde de público no País (Foto: Bruno Teixeira / Agência Corinthians)

Principal nome do futebol feminino capixaba, a meia Gabi Zanotti, do Corinthians, ampliou sua prateleira de títulos com a conquista do Campeonato Paulista e da Libertadores, além do vice-campeonato no Brasileirão.

A capixaba esteve em campo no clássico contra o São Paulo na final do Paulista, jogo que teve o maior público da história do futebol feminino no Brasil: 28.609 torcedores no Itaquerão. Para Gabi, a presença de times de massa no futebol feminino tem contribuído para o aumento de visilidade do esporte.

“O torcedor de verdade é apaixonado pelo clube, pela história, pela camisa. Cito o exemplo do Corinthians, o torcedor não vai torcer exclusivamente pelo futebol masculino. Se tiver oportunidade, ele vai torcer pelo basquete, futsal, natação”, ressalta.

O ano de Gabi também foi repleto de conquistas individuais, sendo eleita a melhor meia do Brasileiro e Craque da Galera do Paulistão, além de voltar a ser convocada para seleção brasileira.

Carol Tavares é um dos destaques da equipe da Ferroviária (Foto: Arquivo pessoal)

A camisa 10 do Timão viu ainda suas conterrâneas brilharem por um rival. Campeã brasileira em cima do Corinthians e adversária na decisão da Libertadores, a Ferroviária/SP apostou no talento do trio capixaba: a zagueira Luana Menegardo, a meia Carol Tavares e a atacante Nathane Fabem.

Natural de Rio Novo do Sul, Luana, 21 anos, é a caçula do trio, mas já coleciona títulos com a equipe. “A Copa do Mundo foi um divisor de águas para o futebol feminino. E não foi só aquela coisa de momento, com as pessoas querendo saber dos jogos. Na Libertadores, pessoas em Araraquara (SP) se juntavam em bares para assistirem aos nossos jogos”.

“A gente luta por melhores salários, melhores estruturas pro futebol feminino nos clubes , melhor organização no calendário, cada vez mais escolinhas de futebol e campeonatos de base , que os clubes cada vez mais profissionalizem as atletas”, completa a jovem zagueira.

Para Carol, 2019 marca um novo ciclo para o futebol feminino. “Creio que daqui a alguns anos a situação esteja favorável para nós, jogadoras”, afirma a meio-campista, natural de Cariacica, que já faz projetos para o futuro.

“Teremos um 2020 cheio com excelentes campeonatos e queremos fazer bonito e chegar nas decisões, mas subindo degrau por degrau. Poder conquistar mais títulos com a Ferroviária e deixar o nome cada vez mais na história desse grande clube”, afirma a meia.

Luana Menegardo, jogadora capixaba da Ferroviária (Foto: Arquivo Pessoal)

ENTREVISTA: Nathane Fabem – Artilheira das Américas pronta para ganhar o mundo

Se no futebol masculino o centroavante de ofício é uma peça cada vez mais rara, no futebol feminino a camisa 9 vem sendo bem representada por uma capixaba que não cansou de balançar as redes em 2019. Natural de São Mateus, a atacante Nathane, da Ferroviária/SP, foi artilheira em todas as competições que disputou, inclusive na Libertadores, com 9 gols em 6 jogos.

A capixaba de 29 anos subiu ao pódio em todas as competições que disputou neste ano: campeã brasileira e dos Jogos Abertos, vice na Libertadores e terceira no Paulista. Agora, está perto de fechar contrato para jogar no exterior.

A atacante capixaba Nathane fez 9 gols na Libertadores (Foto: AFE Oficial/Instagram)

A Tribuna — Você acha o futebol feminino como um todo avançou neste ano?

Nathane — Com certeza. A gente vê pelo nível do Brasileiro e pela visibilidade na Copa do Mundo. A temporada foi muito boa.

O que ainda falta melhorar?

Acho que ainda falta divulgação, acho que isso vai ajudar bastante o futebol feminino. Essa visibilidade que a gente precisa acaba trazendo muitas coisas boas.

Suas atuações na Libertadores e no Brasileirão renderam convites para jogar no exterior. Vai continuar na Ferroviária/SP no próximo ano?

Ainda não renovei, tive proposta de um time da Coreia e, provavelmente, vou assinar com eles.

Quais são os seus principais objetivos para 2020?

Quero sempre conquistar os campeonatos que eu jogo e ajudar no crescimento do futebol feminino. O resto é consequência.

Domínio estadual nos pés do Vila Nova

Vermelho e branco são as cores dominantes do futebol feminino capixaba. Com o hexacampeonato estadual conquistado em 2019, o Vila Nova, de Vila Velha, manteve nesta temporada a hegemonia como melhor time da história da modalidade em terras capixabas.

A taça, conquistada no início do mês em cima do Prosperidade, garantiu a vaga para o Brasileiro Série A2 de 2020. E o domínio não para por aí, já que o Vila também se destaca em outros pisos, sendo tetracampeão brasileiro de futebol 7 e do Estadual de Soçaite.

Há 12 anos no time, a zagueira Tuanny Tonete, de 30 anos, afirma que chegou a hora do Vila Nova alçar voos mais altos: “O meu objetivo hoje é ver o Vila Nova crescer, é ajudar a colocar a equipe na Série A1 do Brasileiro”.

No entanto, ela ainda vê falta de incentivo à modalidade no Estado. “Fizemos história ao passar de fase na Copa do Brasil, algo que nenhum outro time fez, e pela terceira vez vamos disputar a Série A2 do Brasileiro. Mesmo assim, não temos apoio nenhum, não temos estrutura nenhuma”.

Já a atacante Thais Ribeiro garante que a equipe pode dar trabalho no cenário nacional.

“O Vila Nova é um time que tem totais condições de bater de frente com os times do Campeonato Brasileiro. Se trabalharmos bem e colocarmos em prática tudo que é passado nos treinos, vamos conseguir uma boa atuação.”

Para ela, o futebol feminino capixaba ainda é carente. “Nos falta um calendário melhor de competições durante o ano. Visibilidade teve, mas não aqui. Teve em São Paulo, Rio, onde hoje o futebol feminino é mais visado”, afirma.

Retorno triunfal nas quadras espanholas

Não é apenas nos gramados que o talento capixaba faz a diferença no futebol feminino. Com a bola pesada do futsal, e a quilômetros de distância do Espírito Santo, uma jogadora voltou a brilhar neste ano.

Ariane  já fez 193 gols com a camisa do Atlético de Madrid na Liga Espanhola, uma das mais fortes do mundo (Foto: Marcella Farias/Atletico de Madrid)

Natural de Viana e criada em Vila Velha, Ariane Nascimento, 32 anos, tem sido nas últimas temporadas a maior goleadora dos campeonatos da Espanha, onde atua pelo Atlético de Madrid.

Um talento moldado nas peladas disputadas com meninos pelas ruas do bairro de Santa Mônica.

Tricampeã da Liga Espanhola e da Copa da Espanha, e quatro vezes vencedora da Supercopa da Espanha, a capixaba afirma estar vivendo o melhor momento da carreira, justamente após encarar a fase mais difícil.

Eleita a segunda melhor jogadora do mundo em 2016 — atrás apenas da brasileira Amandinha —, Ariane sofreu uma séria lesão no joelho esquerdo que a tirou das quadras por 10 meses.

Perdeu, assim, praticamente todo o ano de 2017. “Foi um momento muito triste na minha carreira. Tive a lesão uma semana depois de ser nomeada a segunda melhor jogadora do mundo”, relembra.

O retorno aconteceu na temporada 2018/19, com a ala do Atlético de Madrid recuperando a melhor forma aos poucos. “Penso que agora estou vivendo a minha melhor forma. Este ano está sendo, sim, o meu melhor depois da cirurgia, já que não sinto dor no joelho.”

Em quadra, este retorno triunfal se converte em números e títulos, com Ariane levantando a taça da Liga Espanhola, uma das mais fortes do mundo, e sendo artilheira do torneio com 39 gols.

Na atual temporada, que tem o Atlético como líder invicto, a capixaba segue na liderança da artilharia: “Atualmente sou a artilheira da Liga, com 21 gols em 14 jogos até o momento”.

Aliás, gol é o que não falta trajetória da capixaba com a camisa do time “colchonero”. Desde que ela assinou com a equipe madrilhena, em 2014, somente em jogos de Liga Espanhola já foram 193 gols.

Para 2020, a capixaba tem duas metas. Uma é conquistar mais títulos com o Atlético de Madrid. A outra é voltar a vestir a camisa da seleção brasileira.

“A seleção brasileira está disputando por esses dias a Copa América. Eu fui convocada, mas por motivos de calendário do meu clube não foi possível minha liberação para ir representar a minha seleção”, lamenta.

Quarteto capixaba na história do futebol de areia

Tradicional e multicampeão entre os homens, foi preciso esperar quase três décadas para que fosse criada a primeira seleção brasileira feminina de futebol de areia. E a história das mulheres vestindo as cores do Brasil na praia começou a se escrita em 2019, com grande colaboração de jogadoras capixabas.

Jogadoras capixabas da seleção brasileira de futebol de areia: Noele (1ª da esquerda), Lelê Lopes (6ª), Lelê Villar (7ª)  e Bárbara (8ª) (Foto: Douglas Emmanuel/NB Photopress)

Em outubro deste ano, foi realizada a primeira edição dos Jogos Mundiais de Praia contando com uma competição de futebol feminino. E das 10 jogadoras convocadas para defender a primeira seleção brasileira, quatro eram capixabas: Bárbara Coledetti, Noele Bastos, Letícia Villar e Letícia Lopes.

“Foi um sentimento de muito orgulho. Cresci jogando futebol de areia e sonhando com esse momento de estar presente em uma convocação de seleção brasileira”, descreve Letícia Lopes.

Enquanto a seleção masculina existe desde 1998 e é a maior vencedora de Copas do Mundo (são 14 títulos), as meninas terão um longo caminho para trilhar.

Mas em seu primeiro torneio oficial, elas não decepcionaram. Em outubro, o time brasileiro conquistou a medalha de bronze nos Jogos Mundiais de Praia, realizados em Doha, no Catar.

Na decisão do terceiro lugar, a equipe recém-formada venceu por 4 a 3 a tradicional Rússia, bicampeã europeia e dona de uma das ligas mais fortes do mundo.

“Foi um resultado justo, até porque as seleções que ficaram na nossa frente (Espanha e Inglaterra) são seleções que já existem há mais tempo, com meninas que se conhecem e jogam juntas os campeonatos mais fortes do mundo. E isso fortalece a seleção. Mas acredito que com planejamento e organização a nossa seleção tem potencial para chegar e ser campeã nas competições que disputarmos”, afirma Noele Bastos.

Para Letícia Lopes, o Espírito Santo já provou que é celeiro de craques do futebol de areia, tanto no masculino como no feminino.

“Somos o berço do futebol de areia, tanto no masculino como no feminino, só precisamos de mais incentivo na modalidade para que nossas próximas gerações não desistam do esporte”, projeta a goleira capixaba.

ENTREVISTA: Lelê Villar jogadora capixaba: “Lutamos há muito tempo”

A Tribuna — Qual foi o sentimento de estar na convocação da primeira seleção feminina de futebol de areia?

Lelê Villar — Sensação de sonho realizado. Algo que permita as demais meninas sonharem com o beach soccer feminino. A gente luta há muito tempo. Jogo desde os 13 anos, hoje tenho 26. Foram anos de abdicações, de disciplina.

A seleção masculina existe há 21 anos. Por que a feminina demorou tanto?

O beach soccer ainda é um esporte amador, e o feminino acaba sendo sempre muito mais negligenciado nos esportes. Acredito que a falta de calendários, a falta de apoio das federações estaduais na promoção de campeonatos culminaram com o baixo desenvolvimento do feminino. Até 2013 aconteciam competições regularmente, em 2012 tivemos até o primeiro Brasileiro e a promessa desde uma seleção brasileira, mas nada mais aconteceu.

Nos últimos anos, você e outras capixabas defenderam times europeus. Como foi a experiência?

O beach soccer cresceu muito na Europa e o Brasil se viu no dever de corporificar, então, a seleção brasileira. Acredito que esse hiato se deve à falta de enxergar o beach soccer feminino como investimento de tempo e dinheiro, pois há o retorno em vários segmentos, como o lado social.

O que ficou de lição dessa primeira experiência de uma competição com a seleção brasileira feminina?

Foi um campeonato muito difícil, enfrentamos as melhores seleções mundiais no ranking, seleções que já vêm de três anos de trabalho, e mesmo assim fomos bronze. Tivemos uma derrota muito dura na semifinal para a Grã-Bretanha, vencíamos por 5 a 2 até o terceiro tempo e perdemos de 6 a 5. Isso nos permitiu aprender muito com os erros, mas poderíamos estar na final. Mas foi o melhor que nos ocorreu, pois na derrota aprendemos e, depois, buscamos o pódio.

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