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Crianças, vamos falar de dinheiro?

Kadidja Fernandes/AT Especialistas orientam como ensinar os filhos a lidar com finanças e dizem qual a hora certa para começar a discutir o assunto ...

Crianças, vamos falar de dinheiro?
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Kadidja Fernandes/AT

Especialistas orientam como ensinar os filhos a lidar com finanças e dizem qual a hora certa para começar a discutir o assunto

Fazer contas, controlar o dinheiro e buscar alternativas quando a situação aperta parecem ser obrigações apenas de adultos, mas não é bem assim. A educação financeira deve ser trabalhada desde cedo.

Não que seja necessário colocar nas mãos dos pequenos grandes responsabilidades. No dia a dia, considerando as limitações de cada faixa etária, os pais podem criar atribuições para que eles entendam a importância de avaliar as finanças.

Professora universitária e sócia da InovaKids, escola de empreendedorismo e educação financeira para crianças, Ivana Bonesi defende que os pequenos devem ter contato com o dinheiro desde cedo, pois isso os aproxima do mundo real e faz com que entendam as consequências de suas escolhas.

O contato, no entanto, deve ser incentivado de modo gradativo.

“De seis a oito anos, indico semanada; de nove a 10, quinzenada; mesada só a partir de 11 anos. De acordo com a idade, deve-se ir espaçando o tempo que a criança tem para administrar esse recurso. Não precisa de quantia alta; tem que ser conforme a realidade da família”, sugere Ivana.

Esse dinheiro, destaca ela, não pode ser dado para que a criança gaste de qualquer maneira. Os pais devem orientar e, depois, permitir que o pequeno exerça papel de escolha ao administrar a verba. Além disso, deve cumprir suas tarefas para ter direito a receber.

Mãe de quatro meninos, a advogada Carolina Bonadiman Esteves, de 39 anos, concorda que o contato com o dinheiro deve ser trabalhado desde cedo.

Na família de Carolina, os pais incentivam os filhos a pensar nos seus gastos. Foto: Acervo pessoal

“Eu e meu marido conversamos muito com eles, damos mesada e estimulamos a ter consciência sobre os gastos. Quando querem um brinquedo, perguntamos se preferem comprar logo por aqui ou esperar para comprar mais barato quando viajarmos.”

Modelo

Educador financeiro e sócio da Valor Investimentos, Luiz Alberto Caser reforça que o exemplo que os pais dão sobre como lidar com o dinheiro na infância e na adolescência reflete diretamente na postura que o filho terá no futuro.

“O modo que a família consome reflete no filho. E inserir o filho, seja explicando alguma conta ou gerenciando certas demandas, dependendo da idade, contribui para formar uma cultura financeira”, afirma Luiz Alberto.

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Espírito empreendedor e postura ativa

A educação financeira é de grande importância na criação das crianças. Essa é a opinião da professora de inglês Sheila Bagatelli, 41, e do publicitário Antony Moreira, 40. Por isso, o casal matriculou os filhos Caio, de 9 anos, e Pedro Bagatelli, de 6, em um curso com esse foco.

“É mais pelo pensamento empreendedor, para saber empreender. Para eles terem uma postura mais ativa do que passiva”, avalia a mãe.

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Ser empreendedor é chave do sucesso

Crianças durante aula em escola infantil voltada para empreendedorismo e educação financeira. Foto: Divulgação

Mais do que administrar as finanças, a educação financeira abrange ainda a geração de renda. Com as transformações sociais, o empreendedorismo é a tendência para sobreviver e se sobressair no mercado de trabalho.

Primeiro, é importante entender o real significado de “empreender”. Segundo especialistas, o termo costuma ser ligado à abertura de novas empresas equivocadamente. É possível empreender ocupando o posto de empregado.

O educador financeiro Luiz Alberto Caser esclarece que a postura empreendedora é de proatividade. É aquela pessoa que busca soluções criativas no meio em que está.

“A pessoa tem mais confiança no próprio trabalho e busca solução proativa e criativa. Um funcionário público, por exemplo, pode ser empreendedor. Basta ter espírito para lidar com as variáveis que vêm a tona”, diz Luiz Alberto.

E o momento para desenvolver esse lado inovador também é logo cedo, ainda na infância. A educadora Ivana Bonesi defende que a criança tem potencial criativo gigantesco e esse potencial precisa ser estimulado ao máximo desde cedo, por isso investiu em uma escola infantil de finanças e empreendedorismo.

“Quando falamos de empreender, falamos sobre buscar soluções inovadoras. E se a pessoa se acostuma a ter esse pensamento empreendedor desde a infância, lá na frente vai lidar com o universo de modo natural.”

Assim, os pequeninos já serão preparados para lidar com situações comuns da vida adulta, como procura e manutenção do trabalho.

Economista e coordenador de Extensão da Rede Doctum, Paulo Cezar Ribeiro Silva observa que esse perfil será necessário para as alterações que o mercado vem passando.

“Essa geração nova vai viver em um ambiente de trabalho diferente do atual. A tendência futuramente é não ter empregos; vão existir trabalhos, mas serão acordos temporários entre trabalhador e patrão”, prevê o especialista.

“Pela escassez em todas as áreas, as pessoas terão que ser empreendedoras para ter um diferencial”, afirma Paulo Cezar. “Então, com a educação financeira, além de sempre ter um dinheiro guardado, a pessoa vai estar mais preparada pois, no futuro, não vai haver estabilidade nas funções.”

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Jovens estão investindo mais

O avanço da tecnologia e a facilidade de acesso a informações fez crescer o número de jovens investidores. No último ano, o número de pessoas entre 16 e 25 anos com títulos no Tesouro Direto cresceu 142%.

Esse grupo já soma quase 162 mil investidores e é o público que mais cresce nesse tipo de aplicação. Eles representam 10,9% dos investidores dessa modalidade.

Para o economista Paulo Cezar Ribeiro Silva, esse título tem atraído o público mais jovem pois a movimentação é pelo meio digital.

“Os bancos não têm interesse em mexer com essa aplicação porque os gerentes não ganham nada com ela; o dinheiro sai direto para o governo federal. Por isso, para aplicar, é direto no site do Banco Central, então tem que ter habilidade para navegar na internet.”

Já o educador financeiro Luiz Alberto Caser crê que a crescente preocupação financeira entre este público está ligada ao momento que o País vive.

“Acredito que a temática em torno da Previdência fez o jovem pensar em investimentos o quanto antes. Eles ouvem o que está acontecendo e se questionam: ‘como faço para me preparar?’, ‘o que é previdência?’”

Para ser rentável, a aplicação deve ser mantida a longo prazo, explicam especialistas; não podendo ser sacada antes de um ano ou dois. O valor mínimo para investimento inicial é R$ 100.

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Mesada deve ser com orientação. Foto: Reprodução

Mesada

Se tiver condições, dê mesada; mas que seja de acordo com a realidade financeira da família e que os gastos sejam orientados. A criança também deve fazer por merecer, cumprindo as tarefas que lhe foram designadas.

O indicado é reduzir o intervalo de “pagamento” se o filho for muito novo. Entre 6 e 8 anos, o indicado é a cada semana; entre 9 e 10, a cada 15 dias; após os 11 pode ser mensalmente.

Incentive a economizar

Faça o pequenino entender a importância de poupar, se ele já tiver uma “renda”. Uma sugestão é, ao fim do período (semana, quinzena ou mês), pagar uma porcentagem em cima do que a criança conseguiu guardar.

Dê opções

Os gastos devem ser orientados, mas os filhos precisam ter direito de escolha até para lidar com as consequências.

Quando for dar um presente, apresente opções e seus respectivos valores para que analise o custo-benefício. Se já for mais velho ou adolescente, inclua-o em decisões para a casa.

Deixe que participem

Dependendo da idade, os filhos já podem entendem as despesas que eles geram e os custos para manter uma casa. Assim, eles podem entender a importância de controlar os gastos.

Pais devem ensinar como se fosse brincadeira. Foto: Reprodução

Seja um modelo

Os filhos tendem a replicar o comportamento dos pais. Então de nada adianta orientar se não segue os próprios conselhos. Seja um modelo de equilíbrio financeiro para que eles possam se espelhar.

Brinque

Os mais pequeninos se interessam pelo lúdico. As brincadeiras tornam o aprendizado mais interessante para eles. Jogos educativos também são uma boa pedida.

Ajude a traçar objetivos

Ele quer comprar um brinquedo? Ajude-o a traçar objetivos e o oriente sobre a economia que precisa fazer para atingi-los. Os objetivos devem ser claros, realistas e de curto, médio e longo prazo.

Compartilhe seu dia

Quando chegar em casa, conte um pouco como foi o seu dia, mas que seja de maneira positiva. Relatos negativos podem prejudicar a visão que os pequenos terão sobre o trabalho no futuro.

Fontes: Ivana Bonesi, educadora; Luiz Alberto Caser, educador financeiro; e Paulo Cezar Ribeiro Silva, economista.

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Reportagem especial de Kariny Baldan para o jornal A Tribuna do dia 13/08/2017

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