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A depressão, o que é isso?

(*) Darlene Tronquoy Trocando em miúdos: o corpo é um estranho/familiar capaz de nos perturbar constantemente Interrompi a “série” sobre a depressão ...

Última atualização

(*) Darlene Tronquoy

Trocando em miúdos: o corpo é um estranho/familiar capaz de nos perturbar constantemente

Interrompi a “série” sobre a depressão para me dirigir aos pais. Mais adiante, porém, pretendo mostrar como “a depressão nossa de cada dia”, “nossa melancolia estrutural” ou os estados melancólicos graves falam do modo como fomos desejados pelo outro que nos constituiu – os pais – queiramos ou não, resistamos ou não a esta evidência da vida e da clínica.
Hoje prossigo insistindo em trazer “O mal-estar na civilização”, texto inesgotável de Sigmund Freud, no qual ele nos lembra que a vida é dura e difícil de suportar; para todos, uma vez que nós, humanos, estamos submetidos a fontes inesgotáveis, impossíveis de eliminar, de mal-estar e sofrimento que tornam impossível “A” felicidade e insustentável qualquer projeto de sucesso sem que se experimente, inevitavelmente, o fracasso.
O projeto humano, portanto, de ser feliz e de viver plenamente o que chamamos “prazer”, não se sustenta por completo pois o sofrimento sempre nos espreita e ameaça a partir de três fontes. Ele surge de nosso próprio corpo, que está fadado à dissolução, à decadência, à morte; além de produzir uma constante inquietação para as quais não tem resposta ou alívio garantido por si mesmo.
Trocando em miúdos: o corpo é um estranho/familiar capaz de nos perturbar constantemente. Nosso sofrimento provém, igualmente, do mundo externo, que se volta contra nós com poderosas forças de destruição, “esmagadoras e impiedosas”, nos diz Freud. Por fim, o relacionamento com os outros homens constitui uma cotidiana origem de mal-estar na medida em que esse “outro” sempre nos é demasiadamente familiar e hostil ao mesmo tempo.
Freud nos adverte, inclusive, que o sofrimento que daí provém “talvez nos seja mais penoso que qualquer outro”.
Diante, então, da crueza com que a realidade se apresenta, na medida em ela sempre contrariará nosso projeto de sermos felizes, que “saídas” poderíamos encontrar para seguir vivendo?
Uma das possibilidades – seguiremos o caminho de Freud – seria abrir mão do prazer no intento de evitar o sofrimento. E não seria esta “atitude” a que encontramos nos “quadros” ditos depressivos/melancólicos? Outra “saída” seria, ao contrário, tornarmo-nos parte da comunidade humana e, com auxílio de uma técnica científica, passar a atacar e dominar a natureza submetendo-a à nossa vontade.
Há também uma saída “grosseira”, sublinha Freud, ainda que a mais “eficaz” (de certo ponto de vista) para tentar eliminar o sofrimento: a saída química, a “intoxicação”.
Tal suposta “solução”, mais que nunca tem sido valorizada “na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça”. Ela tem sido, afirma Freud, tão “altamente apreciada como um benefício que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido”, podemos dizer, em sua “economia psíquica”, o que a indústria farmacêutica bem soube ler e explorar ao máximo em nossa contemporaneidade. A “eficácia” da intoxicação reside no fato de que ela traz um “prazer imediato” e, ao mesmo tempo, “um grau altamente desejado de independência do mundo externo”.
Mas nisso reside também seu perigo, sua capacidade de causar danos, pois como “amortecedor de preocupações”, faz com que a humanidade desperdice uma grande quota de energia que bem poderia ser empregada para o avanço da humanidade, nos adverte Freud.
Mas se esta condição está para todos, por que alguns podem “escapar” no sentido de não sucumbir, não recorrer à escolha – inconsciente – do “isolamento” próprio à posição melancólica/depressiva? São os caminhos sempre turbulentos da construção de nosso psiquismo, desvelado pela psicanálise, o que mais se aproxima de uma ideia do que seria este mal do nosso século.
Até o próximo domingo, caro leitor!

(*) DARLENE TRONQUOY é psicanalista, professora e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. Sua coluna é publicada todos os domingos no jornal A Tribuna.
[email protected]

 

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