Redes sociais, celulares modernos, headphones gigantescos, penteados diferentes e contratos milionários com grandes marcas esportivas. As manias e os caprichos da chamada “Geração Z” (jovens nascidos entre meados dos anos 90 e 2010) do futebol brasileiro seguem as tendências do mundo moderno.

Mas, muitas vezes, deixam um certo ar de “marra” por parte dos futuros craques que ainda engatinham na categoria profissional e já contam com certas regalias.
É o caso do atacante Vinicius Júnior, do Flamengo, de 17 anos, que foi vendido para o Real Madrid por 45 milhões de euros (R$ 164 milhões), antes mesmo de estrear entre os profissionais.

A joia do Flamengo tem uma agência que cuida de sua carreira e vem bombando na internet, onde tem quase 600 mil seguidores no Instagram.
Um dos ícones dessa Geração Z da bola é o atacante Gabriel Jesis, do Manchester City e da Seleção Brasileira. O jogador de 20 anos tem contrato com a multinacional Adidas e atualmente é um dos atletas mais influentes nas redes sociais, com 3,5 milhões de seguidores no Instagram.

Mas não são apenas os milionários do futebol que gostam das novidades tecnológicas. O atacante Lucas Capixaba, de 22 anos, do Vitória, também está nas redes sociais, mas conta que tem o auxílio do clube alvianil.
“Fico atento no que os principais jogadores colocam nas mídias sociais. Eu posto chamadas para os jogos no Instagram e na minha página no Facebook. Mas tenho um suporte da assessoria do clube que auxilia no que vai ser postado”, revelou.
Mas o assédio do futebol faz com que muitos garotos fiquem deslumbrados, o que gera excesso de proteção por parte dos agentes.
O advogado José Roberto Lopes é sócio da LifePro, empresa de gestão da carreira de atletas, e pai de Gabriel, de 18 anos, e Miguel, 14 anos, que atuam na base do Fluminense. Miguel, apesar de muito novo, já tem um alto contrato com a empresa Nike.
Embora não revele os valores, José Roberto conta o que faz para que o filho mantenha os pés no chão.
“Eu guardo o salário dele e dou mil reais como mesada. Mostro que ele é uma exceção no futebol, que a maioria não tem o que ele tem. Mas ele tem uma cabeça boa. Já vi muitos jovens que não ganham muito, mas são cheios de marra”, disse.
Aparência de popstar

Se hoje as jovens promessas já possuem contratos milionários mesmo antes de brilharem no futebol, outras gerações precisaram ralar muito para conquistarem um espaço. E tudo isso em uma época onde não haviam mídias sociais e toda a tecnologia atual.
O ex-zagueiro Ricardo Rocha, campeão do mundo em 1994 com a Seleção, disse que os jovens de hoje em dia são verdadeiros popstars e acredita que, em alguns momentos, há superproteção.
“As mudanças ocorrem e nós temos que entender e respeitar. Hoje o jogador dá entrevista uma vez na semana, não é como antes que falava todo dia. Acho que em determinados momentos a proteção é exagerada e as entrevistas estão muito mecânicas”, comentou.
Marques, ex-atacante do Atlético/MG, não vê excesso de proteção ou jogadores mimados.
“O futebol mudou assim como a sociedade como um todo. Na minha época tinha jogadores que eram superprotegidos. Mas são exceções. Vejo com naturalidade o fato dos jogadores estarem ligados na internet, usarem chuteiras coloridas, cabelo da moda. São tendências e não mimos”, disse.
Já o ex-meia Geovani Silva, craque do Vasco e da Seleção, acredita que a proteção aos jovens é necessária para que não se percam.
“O dinheiro é muito alto, e muitos se perdem por isso. Acho legal que exista essa proteção. Quando o sucesso vem, vem muitas coisas junto. O assédio é muito grande e se não tiver alguém do lado, o garoto se perde”, avaliou o capixaba.
No que a Geração Z do futebol está ligada
Ativos nas redes sociais: Os jogos de baralho ou dominó das concentrações e a resenha pós-treino deram lugar aos celulares e tablets. As conversas hoje em dia são feitas por grupos de WhatsApp e perfis nas redes sociais. O “stories” do Instagram é um dos favoritos dos boleiros mais novos para mostrar o que acontece no dia a dia.

Headphone: O fone de ouvido “gigante” é mania entre os garotos. No embarque e desembarque de viagens e idas para os jogos, é normal ver os aparelhos colados aos ouvidos, quase como uma disputa para ver quem tem o maior e o mais colorido.
Tatuagens: Tatuagens com nomes ou imagens dos familiares são as mais comuns entre os jogadores mais novos. Inspirados em craques como Neymar e Gabriel Jesus, eles aparecem com partes do corpo desenhadas desde cedo. Imagens religiosas também estão no topo da preferência dos jogadores.
Exército de assessores: Ainda muito jovens, boa parte dos jogadores nem virou profissional e já tem um grande número de assessores em volta. São assessores de imprensa, agentes de carreira, seguranças, etc. Sem contar os empresários que são os responsáveis por negociar transferências.

Ídolos e referências: Ex-craques como Romário, Bebeto ou Rivaldo já não são os preferidos da nova geração. Os jovens craques preferem se espelhar em nomes estrangeiros como o argentino Messi, do Barcelona, e o português Cristiano Ronaldo, do Real Madrid. Já na música, a garotada prefere Wesley Safadão, Thiaguinho (foto) e Nego do Borel.
Saiba mais sobre a Geração Z
A Geração Z é constituída por pessoas que nasceram em meados dos anos 1990 até 2010. Os especialistas apontam que a Geração Z é compreendida como uma geração que nasceu atrelada ao mundo de tecnologia, sendo impossível dar continuidade nas tarefas cotidianas sem a internet, smartphones, computadores, iPods e televisores de alta definição, etc.
Por estarem acostumados a serem bombardeados por muita informação em tempo real, acabam não se dedicando e nem sabendo como lidar com todo conteúdo que pode vir a se tornar defasado em pouco tempo.

Análise de Celso Unzelte, jornalista esportivo e professor universitário

Os jogadores de futebol sempre tiveram alguma coisa para tirar o foco. Eram os baralhos, as saídas, as mulheres. Hoje a coisa está mais disseminada por conta das redes sociais e da tecnologia.
Mas jogador de futebol sempre foi mimado, especialmente em comparação com a outra parte da sociedade. Ganham altos salários. Lógico que não é a maioria, é uma nata.
O que mudaram foram os mimos. Antes os caras negociavam uma saída, uma falta num treino. Hoje o jogador acha que pode fazer o que quiser e o clube aceita.
Aceita porque tem o medo de perder o atleta, seja para empresário ou para outros clubes. Ou seja, o clube não tem controle.
Reportagem de Eduardo Alencar