por: Evaldo D’Assumpção
“A meninada (e os adultos) aderiu de tal forma aos celulares que surgiu uma doença”
Aproveito a comemoração do Dia dos Pais, neste segundo domingo de agosto, para refletir com os leitores sobre a dificílima arte atual de ser pai. Se em tempos passados já era tarefa árdua, certamente hoje ela está bem mais complicada. Com o advento dos smartphones e das redes sociais, o diálogo, que já era difícil, tornou-se quase impossível.
A meninada (mas também os adultos) aderiu de tal forma aos celulares, que surgiu uma doença provocada pela dependência à telefonia móvel: a nomofobia.
Esse termo nasceu num estudo elaborado em 2012, na Inglaterra, quando verificou-se a sua incidência em 77% dos indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos, e em 68% dos indivíduos na faixa de 25 aos 34 anos. O nome é formado pela fusão de “no-mobile”, que define a privação de telefones móveis, com o sufixo “fobia”, que significa medo exagerado, pânico. Daí, no-mo-fobia. Esta doença psicológica afeta os relacionamentos interpessoais, produzindo um distanciamento e isolamento das pessoas do mundo real. Basta observar os casais e grupos de amigos numa mesa, cada um isolado no seu mundo virtual, digitando freneticamente mensagens para os amigos, alguns até sentados ao seu lado!
Um dos piores resultados desse transtorno psicológico é como ele afeta a comunicação entre pais e filhos.
De forma tristemente jocosa, alguns pais dizem só conseguir falar com seus filhos, dentro de sua própria casa, através dos celulares. Já observei netos e seus amigos, passando férias em minha casa na praia, ocupando praticamente todo o tempo – sequer se preocupando em aproveitar o sol que brilhava intensamente – debruçados em seus celulares, digitando-os, sabe Deus o que… Contemplando-os, tentei imaginar que assuntos teriam para ocupar quase todas as horas do dia naquela frenética troca de mensagens. Não levaram um só livro para ler, nem filmes assistiam na televisão. Certamente discutiam e resolviam os problemas nacionais e internacionais, talvez até mesmo os intergalácticos.Com isso, não só se privavam de conversar e assimilar um pouco da experiência dos adultos ali presentes, como sequer observavam o jeito de ser e proceder desses mesmos adultos: uma das melhores escolas que conheço.
Fico então me questionando onde esses jovens mófilos irão aprender da vida, e para a vida… Explico “mófilos”: é o nome que acabo de criar, por analogia à doença da modernidade acima referida, usando a abreviação de mobile, “mo”, juntando o sufixo “filos” que significa “paixão, atração irresistível”. Mófilo é portanto aquele que tem uma atração avassaladora pela telefonia móvel. Aquele que é capaz até de carregar um celular sobressalente, para a eventualidade do titular deixar de funcionar.
Os mófilos, carregarão também um fardo que lhes será pesado no futuro: não gostam de ler e portanto não leem. Só gostam de textos resumidos, quase codificados, e sem qualquer esmero na forma, no estilo e na linguística. E quem não lê, não aprende a escrever. Serão – e muitos já o são – analfabetos alfabetizados, incapazes de uma comunicação inteligente, incapazes de sedimentar relacionamentos e produzir bons frutos.
E os pais, que agora são homenageados, ficarão contemplando seus filhos escorregando por caminhos inúteis, sem saber como resgatá-los para um futuro melhor.
Que uma luz do alto os ilumine!
Evaldo D’Assumpção é médico e escritor
A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para [email protected].
