Semana passada vivenciei uma situação muito corriqueira na minha vida, mas que fazia tempo que não acontecia. Uma conhecida chegou pra mim e soltou a pérola: “não vai tentar uma menininha?” Sinceramente eu já passei da fase de me aborrecer com certas perguntas e comentários. Finjo demência, sabe como? Mas, naquele dia eu não me calei. Culpa da TPM, cansaço e tudo mais. Respondi com outra pergunta: e você, não vai dar um irmão para sua filha? Sim, ela só tem uma e veio me cobrar o terceiro filho. Quer dizer, uma filha, porque caso eu engravidasse de mais um menino, teria que devolver ou seguir tentando a tão sonhada menina. Opa! Sonhada? Por quem? Com certeza não por mim, pois sempre sonhei em ser mãe, se teria dois meninos ou duas meninas ou qualquer outra configuração, isso é um mero detalhe e eu seria feliz e realizada do mesmo jeito. E esse é o ponto, as pessoas fantasiam histórias com finais felizes sobre a vida alheia, esquecendo, inclusive, de suas próprias. E seguem cobrando, principalmente da mulher.
Com certeza a minha conhecida não fez por mal, ninguém faz, mas é chato e as vezes pode ser até constrangedor, pois não sabemos o motivo de determinadas decisões. Algumas pessoas não têm filhos ou tem apenas um por não conseguirem/poderem, por questões de saúde. Outras definiram que não querem ter filhos, o que para muitos é considerado verdadeiro absurdo, quase um crime e para mim, apenas mais uma decisão que não me diz respeito. E no meio de tanta pressão social que vivemos diariamente, o assunto acabou surgindo numa conversa informal com uma amiga, que apesar de bem-sucedida, muito bem-resolvida e feliz, não está imune às cobranças, pelo contrário. Ela é médica, casada e já chegou aos 40 e vocês não fazem ideia de tudo que ela ouve por ainda não ter filhos. Confira a seguir meu bate papo sincero e direto com a Dra. Keila Motta.
Você se sente pressionada a se tornar mãe?
Sim, pelo fato de ter 40 anos de idade e já ser casada há dois anos. Existe uma cobrança grande da sociedade em relação as decisões pessoais (dos outros!!!!) em todos os aspectos: afetivo, profissional, familiar. Primeiro questionam se você tem namorado (a), depois quando vai casar, depois sobre o primeiro filho, o segundo, o terceiro, questionando inclusive o sexo dos bebês. Não vai tentar uma menina (o)? Eu acho que essa cobrança é cultural, é social, pois existe um “modelo padrão” de felicidade e sucesso que não pode ser quebrado, um casal (convencional) bem-sucedido, com no mínimo dois filhos de ambos os sexos.
Mas você tem vontade ser mãe? Acha que ainda vai acontecer?
Na verdade, nunca foi uma prioridade na minha vida. Sempre encarei um filho como complemento de uma família. Como me casei há dois anos, acho que pode acontecer sim.
Qual sua opinião sobre o casal que decide não ter filhos?
Respeito e compreendo perfeitamente. Ninguém melhor do que o casal para definir as suas prioridades e planejamento de vida e acredito que pessoas (e casais) possam viver felizes e realizados com essa escolha.
Você acha que a sociedade ainda cobra mais a decisão de ter filhos da mulher do que do homem?
Sim, até porque a mulher tem uma “validade” do período fértil muito mais restrita do que o homem.
Você acha que toda mulher nasceu para ser mãe? Por que?
Instintivamente a mulher já tem um jeito maternal, somos mais zelosas e cautelosas, mais atentas e preocupadas, mais precavidas. Acho que vamos exercendo esse papel na vida mesmo antes dos filhos chegarem. Mas não concordo com a obrigatoriedade da maternidade na vida da mulher. Acredito que seja uma experiência insubstituível, uma grande oportunidade de crescimento e amadurecimento pessoal, de viver e praticar um amor sem limites, não discordo de nenhuma dessas questões, mas não acho que a mulher dependa da maternidade para se sentir plena e realizada.
E para as mulheres que tomaram essa decisão, acredita que é sempre de forma consciente?
As histórias, valores e decisões são muito pessoais. Conheço mães que engravidaram para agradar os maridos, outras para realizar os sonhos dos pais de serem avós, mas acredito que a maioria sonhe verdadeiramente com a maternidade. O mais importante é ser fiel as próprias escolhas, aos próprios valores, se sentir realizada e feliz intimamente.
E por que é tão difícil para a mulher assumir que não quer ter um filho ou que se tivesse planejado não teria tido?
Assumir uma opinião diferente daquela quase imposta pela sociedade é sempre complicado. É preciso muita segurança e autoconhecimento para se sentir confortável em sustentar o que realmente é importante para você, independente da opinião dos outros.
E precisa ter coragem para se tornar mãe?
Depende do perfil dessa mãe. Se para ela a maternidade sempre foi uma prioridade, não se trata de coragem, apenas a realização de um sonho. Mas para aquelas que questionam as mudanças pessoais, familiares, profissionais, acabam criando a oportunidade para que o medo e a insegurança apareçam, o que é normal frente ao desconhecido, logo precisam de um pouco mais de coragem para encarar esse grande desafio, transformador para o resto de uma vida!

