por: José Antonio Martinuzzo
“Vai a um teatro ou a uma exposição quem desejar, quem decidir fazê-lo”
A sombra obscurantista avança. O alvo da hora são as artes. Da proposição de legislações censórias às postagens fundamentalistas nas redes sociais, o conservadorismo e o atraso ecoam aos quatro ventos.
Busco aqui uma espécie de autópsia do discurso moralista retrógado, que visa a constranger e arrebatar incautos/ingênuos.
Maniqueísmos sustentam raciocínios frágeis que levam a conclusões equivocadas como se ditassem a verdade cristalina – só que não.
Tomemos como exemplo a discussão acerca de diversas iniciativas de censura à arte e dos movimentos que barbaramente tentam conectar expressões artísticas a atos criminosos. Os arautos do medievalismo tentam reduzir/induzir a discussão a uma equação simplista: ou se é a favor dessas iniciativas ou se é a favor da pedofilia, por exemplo. Dito de outra forma: quem é contra tais iniciativas é favorável à pedofilia.
Temos aqui um silogismo que mascara a ardilosa lógica acusatória do raciocínio. Funciona assim: TODO mundo que é contra a pedofilia é a favor de tais iniciativas. ORA, você é contra a tais iniciativas. LOGO, é a favor da pedofilia. A questão é ainda colocada como um suposto dilema (di-male): A pedofilia é crime. Se você não apoia tais ações, ou você apoia a pedofilia ou se omite imperdoavelmente diante de um crime.
Simples, não? Não! Estaria tudo certo se esse raciocínio, no primeiro caso, não partisse de uma hipótese deturpada, generalizante, para chegar a uma conclusão obtusa. Quem pode decretar uma sentença arbitrária e parcial, e a partir dela sair julgando o outro? No caso do dilema, como alguém pode reduzir as alternativas de posicionamento daqueles que pensam diferentemente a duas pechas acusatórias?
Eu considero a pedofilia um crime e, no entanto, não me representam tais inciativas. Dentre outros, sou contra, porque elas partem do princípio de que arte é propaganda – e de atos criminosos, ainda por cima. Tempos loucos estes, em que, por ignorância ou má-fé, confundem-se expressões artísticas e panfletagem. Propaganda é recurso persuasivo, usado inclusive para quem quer narcotizar.
Até as árvores sabem que uma obra de arte, antes de suscitar desejos, implica inquietações, reflexões, quando não mal-estar ou desconforto. As expressões artísticas buscam despertar o pensamento crítico sobre a vida em sociedade, seja uma obra de Picasso, seja um samba-enredo, não se limitando à fruição do que se pode considerar belo ou decorativo.
Essencialmente, a arte é a dimensão da existência que abre espaço para vivermos ou experimentarmos a própria incompletude de ser, assim como dar vazão à observação, contemplação e questionamento dos modos de viver que historicamente o humano vem construindo sobre a Terra. Trata-se, pois, de um espaço de liberdade. Além disso, as artes, e a sua fruição, são uma escolha estética e ética; não uma imposição. Vai a um teatro ou a uma exposição quem desejar, quem decidir fazê-lo.
Assim, delegar a outrem a que tipo de expressões artísticas eu posso acessar é abrir mão de uma porção decisiva de minha liberdade e de meu livre arbítrio. De outra sorte, alguém reclamar para si o direito de ditar limites ou formular um “menu degustação” acerca do que eu posso ou não fruir artisticamente não passa de censura, arbítrio, opressão. O resto é propaganda enganosa, sustentada por armadilhas discursivas para cooptar na base do constrangimento e da parcialidade escancarada.
José Antonio Martinuzzo é Doutor em Comunicação, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória
A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para [email protected]
