
A postar alto no jogo, navegar na internet por horas sem parar, fazer sexo sem critérios, comer e comprar além do necessário estão na lista dos principais vícios que acometem os jovens hoje.
Segundo psicólogos e psiquiatras, cada vez mais os jovens estão viciados em comportamentos que
prejudicam o dia a dia, a vida profissional e até o convívio familiar.
No Estado, há casos de jovens entre 15 e 32 anos que nem terminaram a faculdade e já acumulam
dívidas por causa do vício em compras. Outros, já passaram dias jogando, sem comer direito ou dormir, e ainda há aqueles que se arriscam por causa do desejo sexual.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 120 milhões de pessoas em todo o
mundo sofrem com a compulsão, que é considerada o quarto diagnóstico psiquiátrico mais frequente na população. Apesar de a palavra vício ser mais associada a casos de dependência química, ela também se aplica a comportamentos compulsivos, como jogar compulsivamente.
De acordo com o psicólogo Roberto Debski, a diversão começa a se tornar um vício quando a pessoa perde o controle sobre o seu comportamento. “O jovem que tem esse tipo de vício se sente compulsivo em relação a algo e com o pensamento fixo naquilo.”
O vício em comida, que é a compulsão alimentar, é um dos problemas mais enfrentados pela população. De acordo com o psiquiatra e coordenador do ambulatório de transtornos alimentares e obesidade da UFRJ, Bruno Palazzo Nazar, 40% da população enfrenta o transtorno compulsivo alimentar. “Vemos que cada vez mais jovens desenvolvem o transtorno alimentar, ou a compulsão. E esse tipo de quadro está quase sempre ligado à depressão e ansiedade.”
A grande oferta e o consumo exagerado geram uma crescente angústia e podem ser fatores importantes para o aumento de casos de vícios nos jovens, segundo a psicóloga Dielle Quimelli. “Por não onseguirem lidar com a falta que possuem, muitos encontram em substitutos um representante afetivo que gera nestes indivíduos uma sensação inconsciente de segurança e de prazer imediato”, destacou.
Lorrany Martins

Compulsão por limpeza
Uma manicure de 20 anos quase não tem unhas nas mãos por causa da ansiedade. Ela contou que sofre tanto com o problema que desenvolveu o vício em limpeza.
Quando está em casa, ela disse que limpa pelo menos cinco vezes ao dia o chão. Se chegar alguma visita, limpa toda a casa quando a pessoa vai embora.
“Eu já cheguei a ficar tão incomodada com a limpeza que comecei a limpar a casa às 23 horas, depois de um dia inteiro sem trabalho. Tem de estar sempre tudo muito limpo.”
Compulsão por sexo
Ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, não é apenas ter um grande apetite sexual que define a compulsão por sexo. De acordo com especialistas, o jovem compulsivo não consegue resistir aos pensamentos e desejos, que precisam ser saciados no mesmo momento, não importando com quem.
Esse comportamento afeta o trabalho, as relações sociais e afetivas, além da autoestima, porque quase sempre depois do ato a pessoa se sente culpada. A doença atinge cerca de 6% da população mundial e, geralmente, afeta mais homens. Jogo patológico
Nesse tipo de vício, o jovem apre -senta um comportamento de jogo mal adaptativo, ou seja, é uma atitude que se repete e persiste de uma forma ruim, que abala as relações com familiares e no trabalho.
Há jovens que deixam de sair ou se relacionar com a família para jogar. Muitas vezes, ficam pensando na próxima jogada ou quanto vão poder apostar. De acordo com especialistas, hoje o mais comum entre os jovens é o vício em jogos eletrônicos.
Vício em compras
O comprador viciado acaba por consumir coisas no intuito de aliviar alguma tensão, preencher um vazio,
e não pela importância ou necessidade do objeto. Muitas pessoas fazem dívidas e se sentem mal, mas não conseguem controlar o impulso de comprar.
Ciber viciados
São jovens que desenvolvem uma obsessão por estarem conectados à internet ou com o celular nas mãos. Muitas vezes, o comportamento pode estar associado ao vício em jogos eletrônicos.
Essas pessoas não conseguem se desligar do mundo virtual e , por muitas vezes, acabam trazendo prejuízos para a vida pessoal e profissional. Esses jovens costumam se relacionar mais e melhor com pessoas virtuais do que pessoalmente.
Comer compulsivamente
É quando a pessoa tem um impulso incontrolável em comer uma grande quantidade de comida e com
um forte sentimento de culpa após o ato. Quando essa compulsão acontece uma ou mais vezes por semana, durante um período de mais de três meses, é considerado um transtorno compulsivo alimentar.
Vício em limpeza
Muitas vezes ligado à ansiedade e a um comportamento compulsivo, o vício em limpeza ou organização faz com que o jovem não consiga conter o impulso de limpar, e sempre acha que tem algo fora do lugar.
Muitos acabam entrando em um círculo vicioso, que consome muito tempo e afeta relacionamentos pessoais.

Compulsão após estupro aos 14 anos
Prazer nunca foi uma palavra relacionada ao sexo para uma dona de casa de 31 anos, moradora da Grande Vitória. Abusada desde os 5 anos de idade por amigos da família, ela ainda sofreu um estupro na adolescência e desenvolveu o vício por sexo.
O desejo de conhecer pessoas novas e ter relações sexuais com elas era constante durante a adolescência. Ela conta que dormiu com homens que nem se lembra da ocasião e como foi. “Eu não tinha muito critério não, queria conhecer a pessoa e ficar com ela. Fiquei com mais de 200 homens, nem sei ao certo. Tinha lapsos de memória e alguns eu nem me lembro”, revelou.
A dona de casa contou que desenvolveu o vício por sexo depois que foi estuprada na rua por um
desconhecido, aos 14 anos. “Depois disso fiquei com muito trauma, cheguei até a achar que gostava de mulheres, porque tinha muito medo dos homens. Mas comecei a namorar um rapaz muito bom, que me tratava bem, só que depois terminamos. E foi aí que tudo começou.”
Ela contou que sentiu um vazio depois que terminou o namoro, não se sentia amada. “Procurei preencher o vazio com vários homens. Conhecia eles em vários lugares, e no caminho para o trabalho era sempre uma oportunidade. Mas isso não preenchia o vazio que eu sentia.”
O choro depois de fazer sexo era constante. “Aquilo não me fazia feliz, eu acabava de transar com a
pessoa e chorava. Nossa! Quantas vezes eu chorei! Mas não conseguia me controlar, tinha a adrenalina na hora.”
Ela contou que uma vez estava fazendo sexo com um homem na praia e foram flagrados pelo helicóptero da polícia, que estava sobrevoando o local. “Eles voaram baixo e logo depois apareceu uma viatura e pegou a gente no flagra. Eu era novinha, devia ter uns 20 anos. Pediram minha identidade, viram que não era menor de idade e pediram que a gente fosse fazer aquilo em local mais reservado. Na hora eu achei o máximo, cheia de adrenalina, mas depois fiquei pensando no risco que corri.”
Hoje, casada, com dois filhos e consciente do seu problema, a dona de casa disse que faz terapia, toma remédio que ajuda a controlar a compulsão e não sente mais desejos impulsivos por sexo.
“Como tudo o que vejo pela frente”
Ela não é gorda, malha e quem a vê não faz ideia de como a universitária de 23 anos sofre com a compulsão alimentar. Ela contou que tem o vício há alguns anos, mas só percebeu que era um problema há pouco tempo.
A TRIBUNA –Quando percebeu que tinha a compulsão por comida?
UNIVERSITÁRIA –Percebi o transtorno há pouco tempo. Quer dizer, só este mês percebi que era um transtorno porque, antes, eu achava que era um “deslize” da dieta. Achava que era uma falta de força de vontade, uma fraqueza da minha parte.
AT: E como são esses episódios de compulsão? O que já comeu de diferente?
É um sentimento muito estranho, não é uma simples vontade de comer algo específico. Sinto primeiro um desespero, como se eu não tivesse o amanhã para comer. Aí como tudo o que vejo pela frente, literalmente, qualquer coisa! E, no dia seguinte, me sinto péssima, passo mal e me privo de qualquer alimento. Como se quisesse compensar as calorias que ingeri. Não é nem pelo tipo de coisa que vem o desespero, o descontrole, mas a quantidade! No último episódio, por exemplo, comi churrasco, açaí, bolo e hambúrguer, tudo isso do almoço até o lanche da tarde, mais ou menos, e em grandes quantidades.
AT: E quando começou o problema?
Quando eu era mais nova, dos 13 aos 16 anos, tive anorexia. Cheguei a pesar 47 quilos, com 1,67 metro de altura. Acho que por passar tanto tempo em privação, acabei desenvolvendo o reverso quando fiquei mais velha. Os padrões sociais de beleza são muito mais fortes para os adolescentes. Hoje em dia me aceito muito bem! Mas acho que a minha compulsão é desencadeada por estresse. E comer é algo que alivia, muito momentaneamente, a pressão, além de ter todo o psicológico que lembra de como era se privar totalmente dos alimentos que eu gostava, e o resultado é o descontrole involuntário.
AT: Como se sente quando tem a compulsão?
Na maioria das vezes, eu sinto uma ansiedade muito grande antes da compulsão. Começo a me estressar e junta tudo! Então, me dá vontade de comer algo e, no momento que eu como, percebo que não foi bom o suficiente para me saciar. Aí me dá vontade de comer outra coisa, e eu como buscando essa saciedade. Mas nada satisfaz, entende? E, junto disso tudo, há um desespero que grita na minha cabeça que se eu não comer no momento que dá a vontade a comida não vai ser tão gostosa ou não vou ter a oportunidade de comer isso depois.
AT: E como se sente hoje?
Sinto muito medo de recaídas, porque não é raro ter esse tipo de episódio. Facilmente, uma vez por semana, eu tenho essa compulsão por comida. Por muito tempo eu me sentia muito mal, achando que isso era uma falha minha. Hoje eu entendo melhor, compreendo que o sentimento desesperado por comida não é normal.
Nos casos de compulsão, mesmo estando cheia, não consigo parar de pensar nas outras coisas que quero comer. Faço tratamento com uma nutricionista e vou buscar um psicólogo também.
SAIBA MAIS
Compulsão
A compulsão é um vício do comportamento, são hábitos particulares que se propagam, mesmo possuindo um caráter ruim ou nocivo ao jovem. Geralmente, a pessoa repete o ato na busca por saciar uma ansiedade ou um desejo impulsivo que não consegue controlar.
Vício
O vício é quando a compulsão, o hábito ruim, se torna frequente e a pessoa se torna dependente daquilo. O hábito passa a ser a coisa mais importante e fonte exclusiva de prazer.
TOC
O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é uma das doenças de ansiedade que afetam cerca de 4% população mundial e causa intenso sofrimento. O jovem com TOC, geral -mente, tem pensamentos negativos e acredita que eles vão acontecer.
Em função disso, acaba desenvolvendo comportamentos repetitivos, na tentativa de evitar o mal.
Mania
Mania, para a psiquiatria, é um estado de alteração do humor em que a pessoa fica agitada, eufórica e irritadiça. Para a população em geral, são comportamentos esquisitos, que a maioria considera exagerados.