
O líder norte-coreano Kim Jong-Un afirmou que poderá atacar com mísseis a Ilha de Guam – a leste das Filipinas – horas depois de Donald Trump ter ameaçado a Coreia do Norte com o uso de força militar. Na verdade, as raízes históricas do problema remontam ao início da década de 1950, quando o presidente Harry Truman não incluiu a Coreia do Sul na zona de defesa prioritária dos EUA, permitindo a Coreia do Norte invadir seu vizinho do sul.
Porém, isso não quer dizer que não haja solução para a crise. De fato, muito ainda pode ser feito a respeito do tema, mas, certamente, com muito mais efetividade e sinergia, através de parcerias estratégicas.
Nesse sentido, é fundamental reconhecer que Vladimir Putin e Xi Jinping são parte da solução e não propriamente do problema. Ambos, assim como o premier japonês Shinzo Abe e o presidente sul-coreano Moon Jae-In igualmente se constituem em aliados fundamentais para um desfecho da atual crise.
De fato, é correto assumir que, no caso da Coreia do Norte, uma aliança estratégica integrada por EUA, China e Rússia, se faz (pragmaticamente) necessária para, em um primeiro momento, neutralizar o poderio norte-coreano, que se encontra ancorado em frágeis alicerces econômicos e militares.
Destarte, o caminho seria a aplicação imediata de um completo embargo econômico, que simplesmente sufocaria a frágil economia daquele país, lembrando que tanto ogivas nucleares quanto mísseis balísticos possuem altíssimos custos de manutenção para que permaneçam operacionais.
Ocorre que, de todos os países do mundo, com toda a certeza o Brasil é um dos mais qualificados a auxiliar na costura de tal aliança. O Brasil possui excelentes relações diplomáticas com todas partes envolvidas diretamente na crise, incluindo a própria Coreia do Norte, o que não é, convenhamos, pouca coisa.
Note-se que, após o restabelecimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Coreia do Norte em 2001, o Brasil recebeu uma Embaixada norte-coreana em 2005 e, em 2009, instalou a Embaixada brasileira em Pyongyang, sendo o único país latino-americano com Embaixadas residentes nas duas Coreias.
Ainda, em mais de uma oportunidade, o Brasil manifestou-se pública e oficialmente, conclamando a Coreia do Norte a cumprir plenamente todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, mas sem deixar de reconhecer a autoridade legítima do governo, o que o situa como um dos pouquíssimos países absolutamente neutros e desprovidos de qualquer interesse, senão o da paz mundial.
Além disso, o Brasil participou com extraordinário sucesso em mais de 50 operações de paz e similares, com especial destaque para a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti.
Estamos, portanto, sendo chamados à arena e não podemos nos recusar a desempenhar este papel histórico e nem mesmo a grave crise econômica e política pela qual passamos pode servir de justificativa para deixarmos de assumir o papel protagonista que o mundo nos reservou e espera (sinceramente) que venhamos, definitivamente, ocupar.
Roy Reis Friede é desembargador federal, professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército