- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Notícias

Darlene Tronquoy: A depressão, o que é isso? – XV

Entrevista com a psicanalista Darlene Tronquoy novaa colunista de A Tribuna .Foto : Leonardo Bicalho A filósofa Hanna Arendt, em “Entre o passado e o ...

Última atualização

Entrevista com a psicanalista Darlene Tronquoy novaa colunista de A Tribuna .
Foto : Leonardo Bicalho

A filósofa Hanna Arendt, em “Entre o passado e o futuro”, dirá que o papel fundamental dos “adultos” diante de uma nova geração, dos “recém-chegados ao mundo”, seria a de lhes assegurar as condições simbólicas para que possam nele se inserir.

Porém, antes que um “recém-chegado ao mundo” entre nas relações de troca com este, com os outros falantes, é preciso que seja acolhido por alguém que lhe transmita as condições de sua estruturação psíquica.

Sobre isso a psicanálise nos trouxe elementos preciosos para a compreensão dos impasses, das dificuldades e vias tortuosas e trágicas de como se dá essa nossa – sempre traumática – entrada no campo do existir.

E se Hanna Arendt nos fala de uma crise na educação e da autoridade no plano da cultura que poderiam assegurar essas “condições simbólicas”, no plano da família, em suas diversas formas, observa-se uma crise no que a psicanálise denominou a função paterna. Sem avançar, no momento, por essa via, aceitemos a ideia de que as depressões/melancolias terem se tornado “o mal do nosso século” tem a ver com isso; tão-somente porque nossa condição inicial é de prematuridade – como bem já sabem os leitores desta coluna – por isso dependemos tanto de um desejo primordial que nos acolhe quanto de uma lei (a lei paterna) que venha dele, suficientemente, nos separar.

Vamos continuar a partir do primeiro, desse desejo primordial, pois a problemática trazida pela melancolia conduziu Sigmund Freud a situá-la nos primórdios de nossa constituição como sujeitos desejantes.

E para compreender isso teremos sempre que lembrar que a “condição desejante” não nasce conosco; ela nos chega “de fora”, ou seja, somente temos acesso ao desejo se algumas coisas acontecem no plano da relação com o outro que nos acolhe na vida.

Esse “outro”, Jacques Lacan o escreveu com “O” maiúsculo, porque ele é, ao mesmo tempo, a pessoa dos pais e a cultura, o campo da linguagem/simbólico dos quais eles são os “transmissores”.

Então, uma dessas coisas que precisam acontecer é que o bebê humano, esse que ainda não fala, precisará identificar-se com algo que está do lado desse Outro, em seu olhar, em sua voz.

Portanto, ele só constituirá uma imagem de si (sempre inconsciente), que Freud chamou de narcisismo, através da imagem do Outro que é, por sua vez, a mistura da imagem inconsciente que esse outro tem de si mesmo, seu próprio narcisismo, com a imagem que ele antecipa desse novo sujeito que poderá advir.

Como nos diz o poeta Drummond, “Eles nascem antes, nascem no momento em que se anunciam, quando há realmente desejo de que venham ao mundo. O parto apenas dá forma a uma realidade que já funcionava”. Que se diga, o que já funciona antes é a realidade inconsciente.

Longe, pois, do sentido que comumente se dá ao termo “narcisismo”, Freud o toma do mito grego de Narciso para nomear uma instância necessária à nossa formação psíquica, quer dizer, todos nós precisamos construir uma imagem, inconsciente, de nós mesmos a partir da imagem, também inconsciente, do Outro. Mas por que isso é necessário?

Isso ficará para a semana que vem, contudo, é preciso dizer que ali, na realidade inconsciente do Outro, que já funciona antes de nascermos, somos nela objetos; e lembrar que o melancólico é aquele que não pôde fazer o luto de uma primeira perda, de uma perda que implica a sua própria condição de objeto no desejo do Outro.

O conceito de narcisismo, portanto, foi essencial para que Freud situasse a posição melancólica. Não é por acaso que em seus “queixumes”, que expressam seu sofrimento extremo, o melancólico costuma assim expressar sua precariedade narcísica: “eu sou um nada!”.

Não escrevi sobre o Dia dos Professores, mas ficam aqui os meus parabéns a estes sempre atentos às futuras gerações!

 

DARLENE TRONQUOY é psicanalista, professora e  membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

Mais Lidas

Ver tudo ›