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Jeito de Mãe

Dia da Família: cabe todo mundo, é só chegar

Já é uma prática comum na maioria das escolas a realização do dia da família ao invés de uma comemoração separada para as mães ou os pais. Porém, ...

Última atualização

Já é uma prática comum na maioria das escolas a realização do dia da família ao invés de uma comemoração separada para as mães ou os pais. Porém, alguns colégios ainda celebram esses dias específicos, muitas vezes pela pressão e cobrança dos próprios pais que não aceitam e concordam com outra maneira de realizar a comemoração ou mesmo pela postura da própria escola que ainda segue esse padrão. Proponho então que façamos uma reflexão sobre este assunto. Vamos lá?!

 

Dia desses comemoramos o dia da família na escola do meu filho mais velho, o Bernardo, de quase 7 anos. Muita brincadeira, jogos e atividades para juntos interagirmos, criarmos vínculos e construirmos memórias. Foi uma manhã deliciosa e eu particularmente defendo que é assim que deve ser em todos os lugares. Como isso ainda não acontece, escolhi um colégio que vai ao encontro da maneira que penso e crio meus filhos, pois não basta ter uma excelente proposta pedagógica, os valores precisam estar de acordo aos da família.

 

 

Mas aí você, mãe ou pai que me lê agora, pode questionar: ‘Mas é tão lindo o dia das mães/pais com aquelas apresentações emocionantes, que nos fazem chorar.’, ‘na nossa época isso sempre existiu e ninguém sofreu por isso.’, ‘hoje em dia nada pode, tudo é errado.’, ‘por causa de alguns, a maioria sai prejudicada’. Eu entendo cada uma destas indagações, que são apenas algumas das muitas que já ouvi por aí e vou comentar todas a seguir.

 

Bem, realmente as apresentações são lindas. Quem me conhece sabe, antes mesmo de começar eu já estou chorando. Sou dessas bobas e babonas mesmo. Já participei de várias comemorações de dias específicos em outras escolas que o Bernardo passou e de alguns dias da família no colégio do meu mais novo, o Henrique, de 4 anos, que estuda na rede municipal. E é exatamente isso que quero dizer, não precisa deixar de ter a comemoração, só precisamos adaptar. A apresentação linda e fofa pode continuar, deve na verdade, dá até pra vestir o filhote de coração e explodir o fofurômetro. Vai ser lindo e não só pai e mãe terão a oportunidade de se emocionar, mas avós, tios, primos, padrinhos. Vai caber todo mundo, só chegar!

 

Em relação ao segundo ponto, posso dizer que lembro como se fosse hoje de um dia das mães no jardim de infância que eu estudava. Minha avó materna tinha falecido recentemente e, por motivos óbvios, minha mãe não tinha condições de encarar um momento daqueles. Por conta disso, minha avó paterna foi convocada para a missão de ir comigo a festa e representar minha mãe. Eu era apaixonada pela minha avó, minha segunda mãe, daquelas que enquanto eu sonhava, ela já realizava, sabe como? Mas, ela não era a mamãe. Eu olhava em minha volta e via todos com suas mães, menos eu. Certamente tinham outros casos, mas na minha cabecinha de cinco anos eu era a única. E ainda teve um momento de entregar a tal lembrança e tirar uma foto, essa aí que também ilustra o texto.

 

‘Mas Grazieli, a vida é assim mesmo, precisamos desde cedo enfrentar nossos problemas’, você pode estar pensando. Concordo e pratico isso aqui em casa, porém acredito que existem formas pra isso e não vejo necessidade alguma de expor nossas crianças a algumas situações. No meu caso, eu estava vivenciando a morte da minha avó e o sofrimento da minha mãe diariamente dentro de casa. Pra que passar por isso na escola também? Ou pelo menos receber este reforço? E te pergunto ainda, minha mãe não foi a festa, mas graças a Deus estava e está viva e cheia de saúde. Mas e a criança que não tem a mãe ou o pai? Ou que tiveram que trabalhar ou algo do tipo? Não seria mais inclusivo e humanizado uma festa que qualquer ente querido pudesse representar a família? Ou que todos pudessem ir juntos?

 

Ainda sobre essa exposição desnecessária, vou contar dois exemplos que tive acesso e me tocaram profundamente. O primeiro foi de uma criança que participou na escola daquela brincadeira de vendar os olhos e reconhecer o pai através do tato. Achou legal? Pois é, ela não tinha pai, ele havia morrido há alguns anos. O Outro caso foi de um pai, que no dia das mães mandou fazer uma blusa com a foto da mãe de seu filho, falecida meses depois que a criança nasceu, e usou na festa do dia das mães, já que todas as outras estavam assim. Não vou discutir os casos em si. A questão é que nada disso aconteceria se o dia da família fosse adotado.

Não se trata de não poder nada hoje em dia, de tudo ser proibido. Mas é que o mundo muda, evolui e precisamos nos adaptar e melhorar enquanto seres humanos também. Você não acha egoísmo pensar só em você e na sua família tradicional? Falo isso porque a minha também segue o formato ainda considerado padrão e ideal por muitos: pai, mãe e filhos. Seria muito cômodo pra mim pensar apenas dentro da minha própria caixinha. Só que hoje existem novos modelos e arranjos sociais e precisamos incluir todos. Quer outro exemplo? As crianças que vivem em orfanatos à espera da adoção também frequentam a escola regular. E aí? Sinceramente, se pensarmos em todas as possibilidades, elas deixarão de ser exceção para se tornarem a maioria.

 

E além destas situações, ainda temos outras mais corriqueiras que fazem parte do nosso dia a dia, como é o caso da Tatiane Loureiro, casada com o Stephenson Grobério e que são pais da Maria Clara Grobério. Ele mora em outro país a trabalho e passa bastante tempo fora, não podendo estar presente em muitos momentos importantes, inclusive datas comemorativas. Ela me contou que a pequena não ficou triste neste ponto, porque sempre estudou em uma escola que realiza o dia da família, então mesmo fazendo uma apresentação ou participando de atividades, ela se sentia acolhida e feliz com quem estivesse perto, até porque não tem o momento específico de entregar um presente para o pai na frente dos colegas, o que certamente reforçaria a ausência. Este ano, por exemplo, além da mãe, um primo da Maria foi a festa, como mostra a foto.

 

Eu poderia ficar aqui dando mil exemplos pra ilustrar o que penso, mas pra finalizar, quero dizer que acho importante ter um dia especial para a mãe, para o pai, entre outros. A ideia não é acabar com estes dias e sim a escola deixar de fazer uma comemoração tradicional nestas datas e implementar um momento o mais inclusivo possível para todos. Como cada um vai comemorar a data específica em casa é tarefa da família. E mais, eu não me sentirei menos prestigiada e amada por não ter uma apresentação na escola só pra mim, posso fazer uma em casa todo dia se eu quiser. Ficarei sim, imensamente feliz e agradecida, com a presença de todos ou de quem puder ir num dia que pode ser muito especial para toda a família, só depende de nós! Até a próxima!

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